Bolo ou bola?

José Horta Manzano

Títulos, legendas, chamadas e subtítulos dados por estagiários costumam ser desconcertantes. Tanto podem acertar como conseguem dizer o contrário do que tencionavam. Acontece às vezes de serem cômicos e de convidar a um sorriso condescendente. Foi o que me provocou a legenda fabricada para esta chamada do Estadão.

«Um tordo encara pedaço de bolo pendurado em árvore»
diz a legenda do Estadão, 2 jan° 2018

A foto é lindíssima, sem sombra de dúvida. Já a explicação, que pode passar por exótica para quem não está habituado, me fez sorrir. Sabe Deus em que língua estava escrito o texto originário ‒ inglês talvez. Seja como for, a versão portuguesa não descreve a realidade. Vamos esmiuçar.

Os turdídeos formam uma grande família de pássaros, com mais de 150 diferentes espécies. No Brasil, o tordo mais conhecido é o sabiá. Numerosas variedades vivem na Europa, outras na América do Norte. Na Europa, o representante mais comum é o pisco-de-peito-ruivo, que não se encontra no Brasil. É exatamente o que aparece na foto do jornal.

Chamado de pettirosso em italiano, de rouge-gorge em francês e de petirrojo em espanhol, sua característica mais visível é a cor do peito, que varia de alaranjado a vermelho vivo. É passarinho pequeno, gordinho e simpático. De aparência frágil, seu peso equivale à metade do de um pardal comum. As variedades originárias do norte da Europa migram no inverno em direção ao sul em busca de alimento. Outras variedades não são migratórias.

O peito-ruivo é omnívoro. De preferência, alimenta-se de minhoca, larvas e pequenos invertebrados, mas pode também comer frutinhas selvagens. É chamado o «companheiro do jardineiro». De fato, quando se dá conta de que alguém está revolvendo a terra, fica à espreita ‒ alguma minhoca pode até aparecer. Como o pardal e a pomba, é pouco arisco. No inverno, costuma rondar perto das casas à espera de alguma sobra de comida.

Bola de gordura

Para dar uma mãozinha aos graciosos voadores, muita gente compra no comércio especializado uns saquinhos com uma «bola de gordura», composta de matéria graxa misturada com pequenos grãos. Esse alimento, pendurado nalgum galho de árvore, faz a festa de pequenos pássaros como o peito-ruivo. Só se faz isso no inverno. No verão, os bichinhos encontram alimento abundante na natureza e se viram sozinhos.

Assim, retificando a legenda, «tordo» é denominação genérica demais. Seria como tratar um jacaré de «réptil». Melhor será chamá-lo pelo nome próprio: pisco-de-peito-ruivo ou simplesmente peito-ruivo. Quanto ao bolo, nada feito. Ainda que seja Natal, não se costuma oferecer bolo a passarinho. Nem panettone. É bola mesmo. Bola de gordura.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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