Diabos e patetas

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, a função de tribunais superiores era diferente de hoje. Explico melhor. A função, na verdade, sempre foi a mesma. O que mudou foi a natureza das causas. Disputas por bens do falecido, processos por crime de sangue, pedidos de ressarcimento por ofensa continuam subindo até a última instância. A diferença é que causas novas e nunca antes vistas nessepaiz inundam os egrégios(1) tribunais e ofuscam as demais. Será sinal dos tempos estranhos que vivemos.

Para o cidadão normal, pouco enfronhado no dia a dia de tribunais maiores, fica hoje a impressão de que lá estão para julgar trambiqueiros, trapaceiros, ladrões de dinheiro público. A função dos juizes consiste em determinar quem trapaceou menos. Como se sabe, corruptos não costumam extrair nota fiscal de favores recebidos. Corruptores, por seu lado, fogem de documentos como o cidadão medieval fugia da peste.

Sobram delações, indícios, desconfianças, acusações, denúncias. Provas? Dificilmente. Cabe, então, a cada integrante do tribunal votar de acordo com sua íntima convicção ‒ ou seus legítimos interesses, que ninguém é de ferro.

Excetuadas (raríssimas) exceções, juízes não costumam se considerar impedidos. Há ministros que consideram normal participar do julgamento do antigo chefe. Outros há que dão apreciação sobre presumidos malfeitos do próprio governo do qual fizeram parte. Há ainda os que não se envergonham de julgar acusados cuja equipe de defesa inclui parentes ou amigos chegados dele (juiz).

Ao final, resta um sabor amargo na boca do cidadão impotente. Aquele teatro de vaidades, repleto de discursos grandiloquentes, gestos ensaiados e frases estudadas em casa se assemelha a uma ampla ação entre amigos. Os amigos são todos os que estão no palco, acusados, acusadores e julgadores. Ao distinto público, cabe o papel bovino de pateta(2).

Quarenta e tantos anos atrás, o então general presidente sofreu ataque cerebral e foi afastado do governo. Foi substituído por um trio de fardados que logo recebeu do povo o (pouco lisonjeiro) epíteto de «os três patetas». Na época, eram só três. Hoje, já passamos de duzentos milhões.

Nota etimológica
(1) Egrégio é aquele ou aquilo que se destaca da multidão, do rebanho, do conjunto de iguais. A palavra é formada pela partícula excludente e- e do radical grege (=grei).

(2) Pateta é termo que nos chegou através do castelhano. Deriva de pata (a pata de um animal). Naquela língua, diz-se pateta (ê) daquele que tem um defeito nos pés. Usam o termo também para designar o diabo. Já na nossa língua, o diabo são eles. Nós, os patetas, não passamos de parvos, palermas, ignorantes e paspalhos. Nos dialetos do Algarve, patego (ê) designa, até hoje, indivíduo tosco. É provável alusão ao fato de os rústicos de antigamente andarem descalços.

3 pensamentos sobre “Diabos e patetas

  1. Inacreditável como a vaidade e a tolice sao os atributos preponderantes nos homens públicos de hoje o que faz dos julgamentos um cansativo espetaculo de ópera bufa. Quando isto ocorre é porque a situação está grave.

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