Do lar

Francisco de Paula Horta Manzano (*)

O despertador toca, e logo dona Margarida sai da cama. Não pode demorar-se, tem que se arrumar, ir até à padaria, voltar rápido e preparar a mesa de café para o marido e também para as crianças. Só depois de tudo pronto deverá acordar a família.

Todos tomam o desjejum, e a louça sobra para a mãezona lavar. Depois da louça, ela dá uma ajeitada na casa, tirando o pó daqui e dali. Depois sobe para os quartos e arruma-os todos, inclusive as camas, que todos deixaram como estavam antes de saírem para seus afazeres com o trabalho e com a escola. A dona da casa finge não se incomodar com isso.

Antes de preparar o almoço, dona Margarida ainda dá um pulinho na feira livre para comprar verduras, legumes e frutas. Volta correndo para casa e usa sua criatividade no preparo dos alimentos para satisfazer a cada um. Para o marido, o bife tem que ser bem passado, com bordas de gordura (contrariando as ordens médicas). Para o filho, a carne tem de estar mal passada e para a menina, nada de carne. A moça é vegetariana. Para dona Margarida, o bife que passar do ponto, com ou sem gordura, tanto faz, é o que lhe servirá de alimento. Ela fingirá não se importar com isso.

Terminado o almoço, todos sairão para a segunda etapa do dia. Dona Margarida também prosseguirá. Agora lavando roupas e preparando o que será servido no jantar. Novas acrobacias culinárias para agradar ao paladar de cada um, todos eles já velhos conhecidos da ‘rainha do lar’. Ela faz de conta que não está tendo trabalho nenhum.

Fim de tarde, todos já de banho tomado, a ‘heroína do lar’ sai pela casa catando as toalhas úmidas e as roupas sujas deixadas nos mais variados lugares. Ela não deixa transparecer nenhuma contrariedade.

O jantar do maridão é servido numa bandeja especial, que se ajusta perfeitamente aos braços da conhecida ‘cadeira do papai’, enquanto a dedicada esposa janta equilibrando, meio desajeitada, o prato no colo. Ela faz companhia ao esposo. Ele assiste ao noticiário da televisão enquanto comem. Ela aparenta estar feliz em companhia do marido.

Terminado o jantar, dona Margarida vai passar as roupas lavadas à tarde, agora já secas. Ela finge assistir à novela que passa na televisão, aquela mesma que o marido acompanha assiduamente. Dona Margarida mal disfarça sua indiferença com a trama.

Já tarde da noite, todas as roupas passadas, a incansável esposa acorda o marido, que a esta altura já ronca na confortável poltrona de uso exclusivo dele. É curioso que a conhecida ‘cadeira do papai’ não exista em versão feminina. De fato, nunca se ouviu falar numa ‘poltrona da mamãe’

A noite será curta. Depois de umas poucas horas de sono, o relógio despertará dona Margarida bem cedinho para novamente se arrumar, ir até a padaria e recomeçar tudo. Moto-perpétuo.

Quando se pergunta ao marido se a esposa trabalha, a resposta é sempre: “‒ Não, ela só fica em casa mesmo”.

E ainda há quem me chame de machista.

(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006), escritor, cronista e articulista.

Lembrete deste blogueiro aos distraídos:
Amanhã, segundo domingo de maio, é o Dia das Mães.

2 pensamentos sobre “Do lar

  1. É incrível como seu irmão conseguia captar o espírito do tempo em suas crônicas. Me identifiquei muito, revivi cenas da minha infância e senti muita saudade da minha mãe. Ela foi uma mistura perfeita de esposa e mãe dedicada e de pessoa libertária. Quando se cansava da rotina descrita acima, pegava o carro e caía na estrada, sem destino e sem avisar ninguém.

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