José Horta Manzano
Mais de uma vez já escrevi, aqui neste espaço, sobre o hino brasileiro. Nosso cântico nacional é coisa fina. Já disse e repito: num concurso internacional, a música do nosso poderia até empatar com a da Marselhesa, mas a letra faria a diferença. Enquanto o canto francês incita os cidadãos a fazer jorrar sobre suas plantações o sangue impuro dos inimigos da nação (arrgh!), o nosso é mais conciliante e aprazível. Dependesse do hino, o Brasil seria campeão eterno.
A Folha de São Paulo de 28 jun° 2014 publica matéria sobre a dificuldade que crianças enfrentam para entender as palavras do hino brasileiro. Atribui o problema ao fato de a letra ter sido escrita mais de cem anos atrás, com expressões da época hoje caídas em desuso. A história é um pouco diferente.
No início do século XX, Osório Duque Estrada teceu palavras que se encaixaram direitinho na melodia composta um século antes por Francisco Manuel da Silva. Não é qualquer escritor ou letrista que consegue enfiar letra em melodia já feita. Cobrir de redondilhas uma melodia não é pra qualquer um. Precisa ser bambambã ― e nem todos têm o talento de um Chico Buarque.
Duque Estrada até que se saiu muito bem. Suas palavras não correspondem a «expressões da época», como imaginam alguns, mas refletem o preciosismo parnasiano em voga naqueles tempos, artificialidade familiar para os que já fizeram alguma incursão pela obra de Olavo Bilac ou Vicente de Carvalho.
Gente comum jamais chamou bandeira de lábaro nem de flâmula. Adjetivos como fúlgido, vívido e garrido nunca passearam pela boca do povo. São palavras desde sempre reservadas para uso dominical, daquelas que descansam na gaveta o resto da semana.
Outra particularidade da letra de nosso hino, do ponto de vista gramatical, é a quebra quase sistemática da ordem direta. O sujeito nem sempre é aquele que parece. Mas não tem jeito: o hino é esse aí. Contra fatos, não há argumentos. A vida não é feita só de facilidades.
O aprendizado da letra deve ser parte do currículo da escola elementar. Naturalmente, estou partindo do princípio que professores primários sejam capazes de destrinchar frases sofisticadas e pô-las na ordem direta. Torço para que assim seja. A construção sinuosa de certas estrofes serve de excelente exercício nas aulas de análise sintática.
Nos tempos recuados em que escola ensinava e aluno aprendia, cadernos costumavam trazer, na quarta capa, a letra completa do hino. Não sei se a gente aprendia por osmose ou pela insistência. Seja como for, todo guri conhecia as palavras. E de cor, faz favor!
Espero que ainda seja assim. As crianças de hoje não são menos inteligentes que as de antigamente. Se forem bem guiadas, guardarão de memória ― e correta! ― a letra do hino, assim como guardaram a Ave-Maria ou Batatinha quando nasce.
Já houve quem ousasse ― com o beneplácito de autoridades encarregadas de zelar pela Instrução Pública ― reescrever Machado de Assis à atenção de semiletrados. Se bobear, qualquer dia aparece aí um gaiato com uma adaptação do Hino Brasileiro para mentes embotadas. Periga ser reconhecido, aplaudido e incentivado pelas “otoridades” competentes. E remunerado com nosso dinheiro.


No ano de 1958 a passagem do Jardim da Infância ao Curso Primário foi em si um rito de iniciação: uniforme diferente, bolso bordado indicando o nível, filas formadas na entrada da aula, silêncio e compenetração.
Curioso ouvir pela primeira vez o Hino Nacional e sentir-se marginalizado(a) em relação aos camaradas mais adiantados que o sabiam de cor e corretamente.
Foi com felicidade que descobri os versos do nosso hino através da quarta capa do caderno, popular e barato comprado no armazém do seu Manoel, usado apenas como borrão; aprendi-o, primeiro sozinha embora não soubesse o que significassem certas palavras e tendo que cantar o proibido “seio” no interior dos versos; mais tarde, pouco a pouco todas as palavras e expressões foram sendo compreendidas e pude desfrutar daqueles versos por ter tido excelentes professores!
Você está lembrado?
CurtirCurtir
Parabens prezados colegas e amigos pela matéria e comentários publicados..A comparação entre o que as crianças cantam e o que diz a letra foi sensacional. Fico imaginando como
seria a divulgação do que realmente cantam os nossos jogadores da Copa do Mundo…! E
a divulgação da tradução da letra da Marselhesa. Vou enviar cópia para meus ex-alunos do
“Alves Cruz” e colegas da Escola Normal de Matão.
CurtirCurtir
Como sempre, você foi muito preciso José Horta. Penso que há tanta beleza nas palavras e mais ainda nessas que pouco usamos, que engavetamos… nossa língua portuguesa é tão rica de possibilidades, que facilitar o entendimento, simplificar nosso vocabulário, nada mais é que limitar nossa sensibilidade e percepção literária, é atrofiar nossa capacidade de expressão verbal.
Em minha época escolar tinha sim tudo isso: conta-capa do caderno com hino… aquele frio das 7hs da manhã e nós no pátio da escola cantando o hino, uma vez por semana… Não tenho uma lembrança ruim, pelo contrário, era como se transportar para um mundo mágico, extasiante, realçado pelas palavras e pela música.
Essa geração monossilábica de hoje não consegue muitas vezes desenvolver um diálogo de 10 minutos. Falta-lhes assunto, conteúdo, conhecimento, treino do raciocínio, opinião, falta-lhes paixão pela interação fundamentada, e, até mesmo o mais básico de tudo, as palavras. Salvo as raras exceções.
A curiosidade é o que nos faz evoluir. E, acho que a falta dela pode nos levar à extinção.
CurtirCurtir
É lindo de fato, mas poderia sem ser heresia mudar uns versinhos “ruins”: Deitado eternamente em berço esplêndido” por “Vivendo eternamente em terra esplêndida”, ” iluminado ao sol do Novo Mundo” ( eurocêntrico) por “iluminado ao sol de um novo mundo” e o “solesmãe” por ” desta terra és mãe” e ainda “pátria amada” por ( heresia rsrs) “mátria amada”. No mais, tá ótimo: um dos melhores do mundo posso afirmar depois de ter lido a letra de todos os hinos do mundo.
CurtirCurtir