Como disse?

José Horta Manzano

A mesma verdade pode ser apresentada de várias maneiras. Tanto se pode dourar a pílula quanto enegrecer o quadro. Há truques do tempo dos sumérios que, espantosamente, ainda funcionam. Enganam incautos e até especialistas.

Interrogação 2

Como é que é?

O Ministério da Educação acaba de trazer a público estatísticas sobre o desempenho dos que se submeteram ao exame dito Enem. Os números são apresentados de maneira ambígua, confusa. Não ficou claro se a imprecisão é voluntária.

Pelo que a mídia veiculou, ficou a impressão de que as notas dos melhores concorrentes oriundos da escola pública são superiores à média das notas dos concorrentes vindos da instrução particular. É tão fora de esquadro, que tenho dúvida em acreditar que a afirmação do MEC tenha sido exatamente essa.

Se assim for, trata-se de um truísmo, uma verdade evidente, daquelas que nem vale a pena mencionar. Se invertermos os termos da equação, o resultado será idêntico: as notas dos melhores concorrentes oriundos da instrução particular são superiores à média das notas dos concorrentes vindos da instrução pública.

Um outro exemplo de truísmo acaba de me ocorrer: estudos tendem a demonstrar que a média das temperaturas de Moscou no inverno tendem a ser mais baixas que as de Fortaleza no verão. E precisa lá fazer estudo de meteorologia para chegar a essa conclusão? É mais ou menos isso que o MEC está dizendo.

Não posso acreditar que o Ministério da Educação nos asseste enormidades como essa. Devo ter entendido mal. Caso algum distinto leitor possa jogar alguma luz, o blogueiro antecipadamente agradece.

4 pensamentos sobre “Como disse?

  1. Prezado Sr. Manzano,

    Certamente o senhor já teve acesso a este conteúdo, mas, na remota hipótese de não ter tido, aqui vai. O texto diz que as três escolas mais bem colocadas no Enem são privadas. A quarta colocada é a primeira pública do “ranking”, mas é Colégio de Aplicação, ou seja, funciona dentro de uma universidade, neste caso, federal. Infelizmente, não consegui acesso à lista geral, mas este texto dá uma ideia.
    Abraço,
    João

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    • Olá João, prazer em revê-lo por aqui. Sinta-se sempre bem-vindo e obrigado pela dica. Essas estatísticas me deixam meio tonto. Sou de um tempo em que, no BR, o ensino de qualidade era oferecido pela escola pública. Acho uma pena que já não seja mais assim.

      Só por curiosidade, conto-lhe que, por estas bandas, praticamente não há escolas particulares, sabia? Todos frequentam escola pública do jardim da infância à faculdade. E tem mais: para a escolaridade obrigatória, não é nem permitido escolher a escola aonde se quer mandar o filho. Tem de ser a mais próxima da residência.

      Nessas condições, não viria à cabeça de ninguém fazer estatísticas para aferir a diferença de excelência entre os diversos estabelecimentos.

      Há, sim, escolas particulares na Suíça. Mas são destinadas a gente que tem muito dinheiro, em geral filhos de estrangeiros que estão por aqui temporariamente. O ensino é geralmente dispensado em inglês ― que não é língua oficial do país.

      Há ainda instituições destinadas a adolescentes e jovens adultos oriundos de famílias milionárias. São estrangeiros que vêm do mundo inteiro. Vivem na própria escola, longe da família. São estabelecimentos especiais, que custam fortunas e não se destinam a gente comum. A coisa mais difícil de encontrar por ali é aluno suíço.

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  2. Pingback: BrasilDeLonge trouxe mais esta: | Caetano de Campos

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