Doação de órgãos

José Horta Manzano

Em matéria de doação de órgãos, a diferença de legislação entre países dá margem a análise psico-sócio-filosófica, se é que assim me posso exprimir. Tradição, comportamento social, crença religiosa entram em conta. Visão da igualdade entre cidadãos também.

No Brasil ‒ assim como praticamente no resto do mundo ‒ é longa a lista de pacientes que esperam pelo órgão que lhes permitirá continuar vivendo. O mui oficial portal do governo brasileiro é claro. Explica que «mensagens por escrito deixadas pelo doador não são válidas para autorizar a doação».

Na prática, isso significa que «apenas os familiares podem dar o aval da cirurgia, após a assinatura de um termo». O resultado é dramático: «metade das famílias não permite a retirada dos órgãos para doação».

doacao-1É surpreendente constatar que, de certa maneira, boa parte dos brasileiros ainda mantêm, com relação ao corpo físico, relação semelhante à dos egípcios de seis mil anos atrás, na época dos faraós. Como se sabe, naqueles tempos recuados, era generalizada a crença de que a preservação do corpo morto era importante para seguir viagem no além.

Na França, faz quarenta anos que a lei é clara nessa matéria. Quando um cidadão morre, parte-se da presunção de que tenha dado consentimento à doação de órgãos ou tecidos corporais. Diferentemente da regra vigente no Brasil, todo cidadão é considerado doador a menos que, em vida, tenha exprimido oposição formal.

Em lugar de criar um cadastro de potenciais doadores, foi instituído um registro nacional de não-doadores. Todos os que se recusarem à retirada post-mortem de vísceras ou tecidos do próprio corpo devem inscrever-se nesse arquivo. Melhor fazê-lo enquanto vivos, evidentemente.

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

Até aqui, o não-doador tinha de se alistar por meio de documento escrito, assinado e datado. Com a popularização da internet, o procedimento foi atualizado por decreto que entra em vigor neste 23 de janeiro. A partir de agora, todos aqueles que se recusarem a doar parte de seus restos mortais podem inscrever-se por meio de formulário disponível online.

Permitir que outros possam sobreviver graças a órgãos dos quais não vou mais precisar me parece óbvio, lógico e natural. Mal comparando, é como se, em vez de doar roupa que não me serve mais, preferisse jogá-la no lixo a dá-la a quem precisa.

É por isso que não acredito que a nova possibilidade oferecida pelo decreto francês venha a suscitar vocações. Não é um formulário online que vai transformar doadores generosos em egoístas que preferem deixar apodrecer o coração debaixo de sete palmos. Só escolhem esse caminho aqueles cujo coração já apodreceu em vida.

De coração

José Horta Manzano

Semana passada, o Hospital Georges Pompidou, de Paris, realizou uma façanha sem precendentes. Implantou, num paciente com insuficiência cardíaca terminal, um coração artificial permanente.

Já houve casos de enxerto de coração artificial. Mas todos eles eram provisórios, solução de curta duração, à espera do órgão de um doador falecido. Esta foi a primeira vez que um coração artificialmente fabricado foi introduzido em caráter permanente em lugar do órgão doente. A mídia francesa tocou todos os sinos e todas as buzinas do país. No Brasil, curiosamente, a notícia não foi divulgada pelos grandes jornais. No entanto, se der certo, terá sido um grande passo no campo da cirurgia torácica.

Milhares de pessoas morrem a cada ano à espera de um transplante de coração. Ficam na fila, mas sua vez não chega a tempo. Doadores são raros, a compatibilidade não é automática, a distância e as condições de transporte entre a retirada do órgão e a inserção no doente podem representar uma barreira. Um feito como o da semana passada não dá voto a ninguém, mas representa uma esperança de sobrevida para muita gente.

Coração artificial - Crédito: Société Carmat

Coração artificial
Crédito: Société Carmat

Este coração artificial é recoberto por uma membrana ― o pericárdio ― que «tapeia» o organismo e reduz o risco de rejeição. O órgão é inteiramente controlado por computador capaz de detectar momentos em que o ritmo das pulsações deve ser acelerado e, ao contrário, períodos em que a frequência precisa ser diminuída ― durante o sono, por exemplo.

Há ainda um lado psicológico importante. Ao carregar prótese feita de material artificial, o transplantado não sofre o peso emocional de abrigar um pedaço do cadáver de um falecido. Não é difícil imaginar que isso possa ser, para certas pessoas, um fardo dificil de arrastar.

O mundo ficou boquiaberto quando, em dezembro de 1967, ficou sabendo que um certo doutor Christiaan Barnard (1922-2001), médico sul-africano, havia feito o primeiro transplante cardíaco. Foi um abalo equivalente ao pouso de um astronauta na Lua ― fato que só se daria um ano e meio mais tarde.

Para apurar remédios imunuodepressores, foram necessários muitos anos. Hoje, embora sejam bem mais eficazes que 45 anos atrás, ainda representam um peso para todo transplantado. Limitar seu uso é uma vantagem considerável.

Resta esperar que as pesquisas continuem e que, dentro de breve tempo, doentes não precisem mais passar anos à espera do falecimento de um doador compatível.

Artigo do jornal Le Monde (em francês)
Artigo de Radio France Internationale (em português do Brasil)