Das oportunidades perdidas

Consultando meus alfarrábios, topei com um escrito de Dad Squarisi(*), minha guru em língua portuguesa. O texto, escrito no comecinho de janeiro de 2007, valia-se da atualidade de então ― a reeleição de Lula da Silva ― para dar uma lição sobre conjugação verbal.

A clarividência não tem sido a qualidade primeira de nossos governantes. As exceções, raras demais, têm tido sua voz abafada pelo coro da maioria barulhenta e sem visão.

Naquele longínquo janeiro de quase sete anos atrás(!), Dad deitou no papel o que poucos ousavam. Estávamos longe dos protestos de junho 2013. A maioria acreditava que havíamos chegado lá e que nosso povo, barriga cheia, estava dominado. Eram tempos de pão e de circo. Agora, o espetáculo acabou.

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Dad Squarisi, jan. 2007

Dia de posse. Elegante no terno Armani, camisa sob medida e gravata Hermès, Lula discursa no plenário da Câmara dos Deputados. Repete as promessas de campanha. Acena com educação de qualidade, saúde democrática, segurança dinamarquesa, moradia de fazer inveja. Quando? O homem tem pressa. Diz que nos próximos quatro anos conjugará dois verbos. Um: acelerar. O outro: incluir.

Os ouvintes sentiram arrepios em todos os pelos. Duvidaram dos próprios ouvidos. Acelerar como? A criatura mal tomou posse e vai gozar férias. Sem definir a equipe, deixa a administração de braços cruzados. E incluir? O verbo é manhoso. Há 500 anos tentamos flexioná-lo. Lula conseguirá? Tirar dos que muito têm para dar aos que nada têm é tarefa pra lá de difícil. Mais fácil é desvendar os mistérios da ação que dá passagem aos que estão de fora.»

(*) Escritora, linguista e mestra em teoria da literatura. Seu blogue merece uma visita. Como dizem por aqui, l’essayer c’est l’adopter, quem provar fica viciado.