Mister Vatican

José Horta Manzano

Aprecio muito o estilo irreverente de Elio Gáspari. Mais que isso, estou, a maior parte do tempo, de acordo com o que ele diz. A prova é que mantenho, neste blogue, um link permanente para sua coluna da Folha de SP.

Mas ninguém é perfeito. Em seu artigo deste 13 de fevereiro ― Vem aí um conclave inesquecível Gáspari extrapola. Exprime seu amargor pelo que ressente como eurocentrismo do Vaticano. Reclama que grandes cidades de outros países vêm sendo privilegiadas com nomeação de novos cardeais, em detrimento de megalópoles brasileiras. Especula sobre as chances de este ou aquele país ser premiado com a eventual promoção de um de seus cardeais ao cargo de papa. Não passa longe de propor um sistema de quotas, tantos cardeais para países evoluídos, tantos para os subdesenvolvidos.

MitraNosso caro Elio não é o único a misturar no mesmo tacho uma instituição religiosa com orgulho nacional. Muitos outros jornalistas andam enveredando pelo mesmo caminho. Quem será o próximo? Um africano? A América Latina tem chances? A Europa está sobrerrepresentada no colégio cardinalício! Não se dão conta de que não se está a escolher entre países nem entre raças, mas entre personalidades.

Para mim, essas observações são impertinentes e intempestivas. Não estamos tratando de Copa do Mundo nem de concurso de Miss Universo. Esta não é uma disputa entre países. Não haverá ― ou não deveria haver ― ganhadores nem perdedores. O próximo ocupante do trono de São Pedro não deverá ser louvado ― tampouco estigmatizado ― por sua nacionalidade, pela cor de sua pele, por sua língua materna. Nem por torcer por este ou por aquele time de críquete.

Todos nos apercebemos de que o catolicismo vive uma época difícil. Faz alguns séculos, nos tempos em que a Igreja conjugava o domínio das mentes com o poder temporal, não havia discordância. Nem podia haver, que não era tolerada.

Mas os tempos mudam. Aos poucos, a rachadura que havia entre preceitos religiosos e comportamento civil foi-se alargando até chegar ao fosso que ressentimos hoje. Não há de ser fácil exercer a função de chefe espiritual de um rebanho que, a cada dia, mais se distancia da espiritualidade.

Cada cardeal votará naquele que melhor representar sua visão pessoal da Igreja. Cada um de nós é livre de dar sua opinião ou seu palpite. Mas não me parece que estejamos assistindo a um certame entre países ou entre cores de pele. A personalidade de cada postulante é o que conta.

Seja quem for o eleito, terá um caminho pedregoso pela frente. E será cobrado por suas decisões, isso é certeza.

On ne peut pas plaire à tout le monde, não se pode agradar a gregos e a troianos.