O sabiazão e a sabiazinha

Chamada O Globo

José Horta Manzano

Nos tempos em que não havia avião, humano andava a pé e quem voava era passarinho.

Para indicar o começo do voo da ave, dizia-se levantar voo, alçar voo ou simplesmente voar: “O sabiazão estava descansando num galho; de repente, passou uma sabiazinha e ele voou atrás dela”.

Para informar que o voo tinha acabado, usava-se o verbo pousar: “O sabiá pousou”.

Inventado o avião, os primeiros progressos do novo meio de transporte ocorreram na França. A novas atividades, palavras novas. Os franceses preferiram não utilizar o vocabulário antigo; em vez dele, bolaram as seguintes expressões.

Para indicar que o avião levantou voo, usaram o verbo “décoller” (descolar), palavra que foi aportuguesada e virou “decolar”.

Para indicar o pouso do avião, foi criada a palavra “atterrissage”, que entrou em nossa língua como “aterrissagem”.

Lá pelos anos 1960, surgiram os primeiros voos espaciais habitados. No nariz do foguete, chamado cápsula, é que viajavam os astronautas. Na volta da missão, os soviéticos levavam um tranco ao bater nas estepes do Cazaquistão, enquanto os americanos mergulhavam num “tchibum” caribenho – o tranco era mais suave.

Sentiu-se então necessidade de inventar uma palavra para a volta daqueles que pousavam na água. “Aterrissar” não era um verbo plausível, visto que não caíam na terra. Mais uma vez, os franceses saíram na frente. Com base na palavra “mer” (mar), formaram o verbo “amerrir” e o substantivo “amerrissage”, palavra logo aportuguesada como “amerrissagem”.

Alunissagem, nome que indica pouso na Lua, já está dicionarizada. Para Marte, ainda não foi cunhada uma expressão. Talvez estejam esperando que aquele bilionário assistente de Trump embarque para o planeta vermelho, se encante pelo lugar e… por lá fique.

PS
Se vosmicê chegou até aqui, a expressão “aterrissagem na água”, grafada na chamada de jornal lá na entrada, deve estar lhe parecendo obra de jovem estagiário de poucas letras.

Pronto, poluímos a Lua: 227 toneladas de lixo já se acumulam por lá

André Masson (*)

Algumas criaturas são tão imundas que põem em perigo a própria saúde. Os seres humanos estão claramente destinados a ser tão sujos que vão alterar o curso geológico dos planetas. Como relata o site The Conversation, investigadores da Universidade de Brock (Ontário, Canadá) avisam que, no que diz respeito à Lua, a era humana já começou – e não no bom sentido.

A NASA estima que cerca de 227 mil quilos de material tenham sido deixados na Lua pela atividade humana. Esse lixo inclui veículos lunares, mas também bandeiras, bolas de golfe, estátuas, cinzas humanas, excrementos e todo tipo de objetos.

Até hoje, apenas doze homens pisaram a Lua – e lá não fizeram grande coisa. E isso resultou em 227 toneladas de resíduos. Christine Daigle, Jennifer Ellen Good e Liette Vasseur, três professoras de filosofia, comunicação e biologia da Universidade de Brock, respectivamente, estão analisando o impacto que terá a colonização humana do satélite natural da Terra.

Não é instalando estações tripuladas permanentes e enviando turistas (não particularmente conhecidos por serem mais limpos que os astronautas) que deixaremos o local nas mesmas condições em que o encontramos.

Esse impacto, ainda que esteja atualmente limitado à superfície da Lua, pode evoluir. A NASA acredita que a Lua encerra recursos no valor de centenas de bilhões de dólares, incluindo terras raras, essenciais para nossos equipamentos eletrônicos, e hélio-3, um isótopo de hélio procurado pelas suas aplicações na fusão nuclear.

A era dos humanos
As três pesquisadoras da universidade canadense indicam que essas centenas de toneladas de lixo são o início de uma nova era geológica para a Lua: a que verá a atividade humana mudar o destino de nosso satélite natural. Para ilustrar a repetição de um fenômeno que já está em curso na Terra há várias décadas, as autoras do artigo falam de “Antropoceno Lunar”, termo introduzido por um estudo científico publicado em dezembro de 2023 na revista Nature.

Para um planeta como a Terra, trata-se da era dos humanos, o que não é necessariamente uma boa notícia. O Antropoceno é um novo período geológico influenciado mais pela humanidade do que por forças geofísicas. Constata-se que a Terra está entrando nessa era há algumas décadas e a Lua parece estar seguindo o mesmo caminho.

Próximo objetivo: emporcalhar Marte.

(*) André Masson (1950-), economista francês, é diretor de pesquisa na Escola de Estudos Superiores de Ciências Sociais, Paris.