De volta para o futuro – 2

José Horta Manzano

O esfacelamento da União Soviética, no início dos anos 1990, abriu as portas da Rússia para as grandes empresas ocidentais. O país estava na lona. Precisava de recauchutagem completa Foi nessa leva que entraram as montadoras de automóveis.

Os russos deram adeus aos velhos Lada, aqueles carros tipo pé de boi de fabricação soviética que o Brasil chegou a importar nos anos 1980 e dos quais a gente costumava dizer que até a chave já vinha enferrujada.

Trinta anos se passaram, e a implantação das grandes construtoras automobilísticas se firmou e se reforçou. Até outro dia, estavam produzindo a todo vapor para um mercado de 145 milhões de consumidores.

Nisso, Vladímir Putin teve a estúpida ideia de invadir a Ucrânia. E veio a guerra. E vieram as sanções econômicas. E tudo parou. Nesse embalo, as montadoras europeias puxaram o carro (expressão caseira que cai bem neste caso). Entre as que se foram, está também a francesa Renault, atual proprietária da antiga Avtovaz, que fabricava o Lada.

No entanto, com ou sem guerra, o mercado russo continua exigindo carros. Mas, sem os estrangeiros, como fazer? A importação está fechada. Insumos, peças e componentes eletrônicos importados não entram mais no país.

As autoridades de Moscou decidiram engatar o modo desespero. Tomaram uma decisão que representa um retrocesso de três décadas na produção de automóveis no país.

Foram-se embora as montadoras? Sem problema. Ressuscita-se a velha Avtovaz e vamos em frente.

Faltam câmeras de ré? Sem problema. Põem-se à venda veículos sem câmera.

Faltam sistemas de freio ABS? Sem problema. Os carros novos vêm sem freio ABS.

Faltam airbags? Sem problema. Carro novo não precisa de airbags. Nem frontais, nem laterais.

Um decreto emitido pelo Executivo russo acaba autorizar que carros novos sejam comercializados sem uma série de equipamentos de segurança que eram exigidos até agora. Na Rússia, mudam-se leis com a mesma facilidade com que se mudam no Brasil.

Num país onde o número de acidentes de carro já está acima da média mundial (e se aproxima do assustador morticínio brasileiro), analistas acreditam que haverá 2000 ou 3000 mortos a mais por ano.

O decreto governamental afrouxa também as normas de emissão de gases poluentes. Volta-se ao que vigorava em 1988.

Este artigo devia ser lido por aqueles que acreditam que sanções econômicas não atrapalham. Este blogueiro repete o que já disse em outras ocasiões: há muitas maneiras de fazer pressão sobre um governo. Não é preciso ameaçar bombardeio.

Se, por desgraça, o capitão viesse a ser reeleito ou – pior ainda – se ousasse tentar um golpe institucional para permanecer na Presidência ilegitimamente, não é só freio ABS que vai faltar. O Brasil vai parar.

Ódio à ciência

José Horta Manzano

Artigo do jornalista Vinicius Sassine, publicado no Estadão, dá a informação:

«O governo Jair Bolsonaro cortou 68,9% da cota de importação de equipamentos e insumos destinados à pesquisa científica. A medida afeta principalmente as ações desenvolvidas pelo Instituto Butantan e pela Fiocruz no combate à pandemia da Covid-19. Em 2020, o valor foi de US$ 300 milhões. Para 2021, serão apenas US$ 93,3 milhões.»

O distinto leitor leu corretamente. No meio da epidemia mais grave que o país já enfrentou, quando o pouco que temos de institutos de pesquisa se descabelam pra tirar do chapéu uma solução para prevenir o alastramento da doença, doutor Bolsonaro gira a faca na ferida. Cortou mais de 2/3 dos incentivos que deviam beneficiar a pesquisa.

Ele segue firme e bate o pé. Odeia a ciência. E continua apostando na derrocada do país. Em sua cabecinha, sobrevive a ideia fixa: com a nação em ruínas, montanha de mortos, caos total, ele se atribuirá plenos poderes e se tornará o salvador da pátria.

É por caminho semelhante que ditadores subiram ao trono. Napoleão se aproveitou do caos provocado pela Revolução Francesa. Josef Stalin valeu-se da bagunça que se seguiu à Revolução Bolchevique. Adolf Hitler surgiu das cinzas da Alemanha derrotada e humilhada em 1918. Só que tem uma diferença importante. Todos esses ditadores cresceram de um desmoronamento que não tinha sido provocado por eles. Já nosso doutor procura, por conta própria, provocar esse desmoronamento.

Essa teoria é a única que explica tim-tim por tim-tim todas as suas atitudes que, à primeira análise, parecem desconjuminadas e incompreensíveis. No delírio presidencial, há método.

A meu ver, a sua destituição não deveria passar pelo impeachment, caminho pedregoso e incerto; ele devia mesmo é ser interditado. Tinha de sair do Planalto direto para o hospital psiquiátrico. Lugar de Napoleão de hospício é o hospício.