Finura em francês

José Horta Manzano

Dizem que o francês é a língua do amor. Talvez seja, não posso garantir. Mas uma coisa é certa:

  • palavrão, em qualquer língua que seja, cai mal;
  • quando é usado para ofender a mãe de alguém, fere a decência;
  • quando é proferido com a veemência dos insanos, é hora de dar um passo atrás;
  • quando o ofensor é o presidente da República, é bom ir chamando a viatura;
  • quando um bando de boçais faz claque e acha graça, pode chamar o camburão.

 

Le Figaro, França

O Figaro, jornal francês de referência, tentou, bem ou mal, traduzir as palavras edificantes que o presidente da República do Brasil pronunciou outro dia perante seleta plateia – todos gente fina. A tradução ficou meio assim assim, porque traduzir palavrão não é fácil.

«Quand je vois la presse m’attaquer, disant que j’ai acheté 2,5 millions de boîtes de lait concentré. Allez vous faire foutre chez votre putain de mère. Cette putain de presse. Ces boîtes sont pour vous, la presse, pour vous les mettre au cul».

Vindo de doutor Bolsonaro, já nenhuma vilania nos surpreende. Mas fico imaginando os olhos arregalados dos franceses, que estão habituados a outro nível de comunicação pública, ao lerem a frase. Se ela tivesse sido pronunciada por um cafajeste qualquer, seria impressa com tarja preta, censurada para não ferir espíritos sensíveis. Dado que veio do presidente do Brasil, por dever de ofício, o jornal se viu na obrigação de publicar na íntegra.

E assim vai a vida. A cada dia que passa, lá vem o Brasil descendo a ladeira.

Moustache

José Horta Manzano

La moustache réglementaire
Une grande faveur vient d’être accordée aux officiers britanniques: la moustache, depuis plus d’un demi-siècle, était réglementaire dans l’armée de Terre. Un arrêté du ministre de la guerre vient de rapporter l’ordonnance qui l’imposait. Cette ordonnance désespérait les jeunes officiers, surtout depuis que la mode est aux visages imberbes. Cela valait bien une réforme qui est accueillie avec joie.

O bigode regulamentar
Um grande favor acaba de ser feito aos oficiais britânicos. Uma portaria do Ministério da Guerra acaba de abolir a regra, que já durava mais de meio século, segundo a qual todos os oficiais do exército tinham de deixar crescer o bigode. Essa regra atormentava jovens oficiais, principalmente desde que a moda passou a valorizar rostos imberbes. A necessária reforma foi acolhida com alegria.

Artigo publicado no jornal francês Figaro em 15 julho 1913.
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O termo bigode é exclusivamente ibérico. A par do nosso, há o bigote castelhano e os bigotis catalães. Não se lhe conhece ao certo a origem. Alguém chutou um dia que poderia vir da expressão germânica «bi Gott!» (= por Deus!), blasfêmia que invasores bárbaros fartamente bigodudos pronunciavam a torto e a direito.

Data venia, tenho dificuldade em dar crédito a essa tese. Ela faria sentido se bigodes fossem usados apenas por germânicos e escandinavos. No entanto, o fato de praticamente todos os homens, naqueles tempos recuados, deixarem crescer barba e bigode enfraquece a tese. Pesa também o fato de a expressão não aparecer fora da Península Ibérica, nem mesmo em regiões que também sofreram invasões dos mesmos bárbaros. No meu entender, a palavra é anterior à chegada de godos, ostrogodos e vândalos.

O bigode é repartido ao meio no sentido horizontal. A palavra é frequentemente usada no plural: os bigodes. Não me surpreenderia uma relação com a duplicidade sugerida pelo prefixo bi (bis em latim), como em binário, bisanual, bipolar.

É mais fácil encontrar a origem da versão francesa e da italiana ‒ moustache e mostaccio respectivamente. Tudo indica que provenham de um grego mústax, mústakos, que substituiu mástax, cujo significado era boca. Nossa língua não reteve essa voz para nomear os pelos que crescem entre boca e nariz. Assim mesmo, guardamos um descendente da família de uso corrente: mastigar. E seus derivados masticatório, mastigação e outros.

Quando houver sopa à mesa, tome cuidado. Bigode sujo fica feio pra caramba.