Bolsa combustível

José Horta Manzano

Por razões que não cabe aqui analisar, o preço dos derivados de petróleo tem aumentado sensivelmente estes últimos meses. O fenômeno é mundial. No final das contas, a população toda sente os efeitos desagradáveis, visto que o preço de todos os bens aumenta.

Os profissionais do volante – taxistas, caminhoneiros, motoboys – estão na linha de frente: sentem o impacto diáriamente no posto de gasolina. São os primeiros a reclamar, e seu grito pode ecoar num país inteiro.

Anos atrás, quando ainda não detinha as rédeas do poder, Bolsonaro, por razões eleitorais ou por propensão inata à rebeldia, pôs-se ao lado dos caminhoneiros e apoiou uma greve que durou dias e paralisou o país.

Agora a grita dos estradeiros se alevanta de novo, só que, desta vez, o capitão está do outro lado do balcão. Tudo o que ele não quer é um país parado, estradas bloqueadas, fome e inflação piorando. Receia ser acusado de mais uma marretada.

Ofereceu 400 reais aos caminhoneiros, que cuspiram em cima da oferta e a qualificaram de “esmola”. O preaviso de greve continua de pé. A não ser que caia do céu uma solução, o movimento será no começo de novembro.

Na França, o governo está enfrentando problema parecido. Não se pode dizer que seja idêntico, porque o povo de lá não vive nas mesmas condições do povo de cá. Assim mesmo, aumento constante no preço do combustível dói no bolso de quem precisa usar o carro diariamente.

Nem todos os franceses vivem em Paris, com metrô na esquina de casa; grande parte da população mora em vilarejos espalhados pelo país, onde ônibus não passa e trem não chega. Para essa gente, o carro é essencial; sem ele, não teriam como se dirigir ao trabalho.

Antes que os coletes amarelos despertem do torpor em que se encontram e decidam retomar passeatas e manifestações, o governo francês acaba de anunciar que, daqui para o fim do ano, um bônus de 100 euros (660 reais) será distribuído aos cidadãos de menor poder aquisitivo.

Quem são? São aqueles cujos rendimentos se situam abaixo de determinado valor, e que são as maiores vítimas da subida de preço dos combustíveis. Mas atenção: não é uma bolsa mensal; trata-se de um valor único, igual para todos, dado uma vez só.

Para chegar a esse montante, tomaram o aumento de preço dos combustíveis este ano e multiplicaram pela média anual de quilômetros percorridos pelos automobilistas franceses.

Estima-se que 38 milhões de pessoas terão direito ao vale combustível. Quase € 4 bi serão assim distribuídos (R$ 26 bi), uma bela quantia. É bom ter em mente que 2022 é ano eleitoral tanto na França quanto no Brasil, o que explica essa generosidade nos dois países.

É permitido acreditar que os motoristas franceses não se contentarão com o “bônus combustível”. É igualmente provável que os caminhoneiros brasileiros não se satisfarão com a “esmola” bolsonárica. Vamos ver o que acontece.

Pré-sal

José Horta Manzano

Uns dez anos atrás, falou-se muito no petróleo a extrair do fundo do mar que beira a costa brasileira, tesouro escondido debaixo de alentada camada de sedimentos e de sal. À época, nosso guia & acólitos chegaram a posar para fotos fantasiados de operário da Petrobrás, com as mãos lambuzadas de óleo. Até Hugo Chávez, que ainda não se havia transmutado em passarinho, chegou a comentar, com uma pontinha de inveja, que o Brasil estava para converter-se em potência petroleira.

Depois disso, mazelas antes inimagináveis começaram a emergir. O governo da doutora foi um desastre. Veio a Lava a Jato. Os podres de nosso guia e de toda a (extensa) turma vieram a público. A Petrobrás, rapinada e maltratada, por pouco não desmoronou. No corre-corre, o assunto do pré-sal saiu de foco. O que cada um queria mesmo era salvar a própria pele.

Hoje o tema ressurge. Os optimistas dirão que é bom sinal: indica que o pior da tempestade político-policial passou. Não tenho tanta certeza, mas vamos admitir que assim seja. É hora de examinar de perto o significado dessa reserva, desconhecida até poucos anos atrás.

Por mais que Mister Trump tape os olhos com peneira, as mudanças climáticas se tornam mais evidentes a cada dia. Países mais adiantados implementam políticas de substituição de combustível fóssil por fontes de energia renováveis. A Alemanha já decretou que, o mais tardar em 2030, proibirá a circulação de veículos com motor a combustão ‒ o que exclui todos os movidos a gasolina, óleo diesel, querosene ou mesmo gasogênio. Somente veículos movidos por energia não-poluente serão permitidos.

Se a humanidade ainda existir daqui a 500 anos, fico imaginando o que os terráqueos de então pensarão de nós. A queima desmedida de óleo fóssil para mover automóveis será vista como um dos maiores desatinos já praticados pela humanidade primitiva dos séculos 20 e 21. Além de poluir a atmosfera da qual dependemos todos, a combustão de derivados de petróleo desperdiça uma riqueza que levou milhões de anos para se constituir.

Dê uma olhada a seu redor, distinto leitor. Bote reparo nos objetos que o cercam. Uma tela de computador? Um telefone celular? Uma caneta? Uma almofada? Um tapete? Um copo? Uma folha de plástico? A moldura envernizada de uma porta? Pois há forte chance de que, na composição de cada um desses objetos, tenha entrado algum derivado de petróleo.

Por que, então, extrair a fórceps essa riqueza? Para queimá-la em motor poluente de automóvel? Não faz sentido. No Brasil, não é o dinheiro que falta. Nosso problema maior, como todos hoje se dão conta, é o roubo e o malbarato do dinheiro público. Uma (pequena) diminuição da corrupção nas altas esferas trará mais benefício do que a exploração do pré-sal. De quebra, as gerações futuras agradecerão.