José Horta Manzano
Não faltou boa vontade ao autor da chamada. No entanto, vasculhando na memória, não deu com palavra adequada pra exprimir seu pensamento. Empurrado pela celeridade que o ofício exige, não teve tempo de procurar.
Daí ter devidamente cercado «dividir» com esse par de aspas, como biombos a disfarçar o embaraço. Os urubus informam que o verbo não é o ideal mas, na falta de outro, vai assim mesmo.
De fato, dividir traz a ideia de decompor um todo em partes menores, mas não inclui necessariamente a noção de repartir, de oferecer pedaço(s) a outros. Fica faltando o mais importante. Dividir é informação colateral. A ideia principal é fazer que outros beneficiem da divisão.
A língua oferece verbos mais adequados. Destaco três deles.
● O mais utilizado:
«Pessoas com deficiência vão compartilhar sistema de cotas com (…)»
● Embora menos utilizado, este é sinônimo exato do anterior:
«Pessoas com deficiência vão compartir sistema de cotas com (…)»
● Agora vem um verbo raro, que nem o Houaiss menciona. Assim mesmo existe e, a meu ver, é o que melhor traduz a ideia:
«Pessoas com deficiência vão condividir sistema de cotas com (…)»
Todos os três trazem ambas as ideias: dividir o todo e repartir pedaços. Se o autor tivesse utilizado um deles, não teria precisado de aspas.
