Butcha

José Horta Manzano

Uma guerra de conquista travada na Europa em pleno século 21, de tão anacrônica e assustadora, não pôde passar despercebida. Repórteres, jornalistas, cinegrafistas do mundo todo estão de olho grudado no desenrolar dos acontecimentos.

Se a intenção de Putin era lançar uma Blitzkrieg (=guerra relâmpago), deu-se mal. Analisando desse ponto de vista, já perdeu. O bumerangue voltou mais rápido e com mais força. Em maior ou menor medida, o planeta inteiro vai sofrer; mas as consequências da insanidade serão ainda mais pesadas para Putin e seu povo.

Filmado por repórteres e sacramentado por imagens de satélite, um massacre foi cometido numa cidadezinha tranquila, situada na periferia de Kiev, povoada por 35 mil pessoas antes da guerra.

Agências internacionais deram a notícia. Como se sabe, despachos vêm em inglês. Sonolentos, alguns encarregados de traduzir para a mídia nacional descuidaram de adaptar para nossa fonética o nome da cidade agredida.

A grafia cirílica Буча, transliterada para o inglês, dá Bucha, sequência de letras que, lida por um inglês, corresponde à pronúncia original. Não sei como o nome está sendo pronunciado pelo rádio e pela tevê no Brasil. O que sei é que boa parte de nossa mídia escrita adotou, sem refletir, a grafia inglesa.

O problema é que, em inglês, as duas letrinhas “ch” são pronunciadas “tch” – coisa que a gente aprende na primeira aula. Portanto, para permitir que um leitor brasileiro pronuncie corretamente o nome da cidade, é preciso escrever Butcha, não Bucha.

Sempre alerta, a Folha de São Paulo entendeu.

Folha de São Paulo

Já os outros dois grandes órgãos da imprensa nacional continuam cochilando.

Estadão

O Globo

 

Belarus

José Horta Manzano

Como se sabe, a cultura nacional não desdenha uma regrazinha. Que seja cumprida ou não, é o de menos. O que conta é que esteja lá, gravada na pedra, pra ajudar (ou atrapalhar) a vida de muita gente. O chato é que, de regrazinha em regrazinha, arma-se um cipoal amazônico. Sabia que, até para grafar nome de países, há maneira oficial? Pois é. Nessa matéria, quem dá o tom é o Itamaraty.

Com a explosão da União Soviética, entre 1990 e 1991, surgiu uma quinzena de países dos quais pouco se falava antes. Em maioria, são países discretos, daqueles que a gente teria dificuldade em apontar no mapa. São lugares onde a gente tem a impressão de que nada acontece. Tadjiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão estão entre eles. Só muito de vez em quando, uma das 15 antigas repúblicas soviéticas sai do esquecimento e vem à tona trazida por algum acontecimento excepcional.

Nos anos 90, assim que o Estado brasileiro reconheceu esses novos países, foi preciso fixar nome oficial para cada um em nossa língua. O caso de Belarus é curioso. Décadas atrás, o país era conhecido como Bielo-Rússia ou Rússia-Branca. De fato, a primeira acepção da palavra russa Белый (Biély) é branco.

O Itamaraty optou por acompanhar a preferência dos nativos, abandonando a antiga denominação. Oficializou-se Belarus(1). Mas o gato que se esconde costuma deixar o rabo de fora. O próprio Itamaraty não chama os nativos de belarussos, como se poderia esperar; o gentílico oficial é bielorrusso – assim, com dois erres –, numa alusão explícita ao nome de décadas atrás.

Alexander Lukachenko
by Güngör Özme (1938-), desenhista turco

Na antiga URSS, imensa região com centenas de línguas e dialetos, a língua-teto, aquela que servia para as trocas do dia a dia, era o russo, que se escreve com caracteres cirílicos. Toda adaptação daqueles nomes para nossa língua será, portanto, uma transliteração, isto é, uma adaptação do som original utilizando nossos caracteres latinos. Uma transliteração será sempre fonética: as letras são utilizadas com o valor que têm em nossa língua. (Essa é a teoria; como veremos, na prática, ela pode variar.)

Estes dias, Belarus está no noticiário. Considerado a última ditadura da Europa, o país anda sacudido por manifestações de uma juventude que tem sede de normalização democrática; estão cansados de sofrer com tanta truculência e corrupção. O nome do ditador, pouco conhecido no Brasil até duas semanas atrás, tornou-se familiar: Lukachenko.

Naturalmente, o Itamaraty não fixou normas para transliteração de nome de gente. Não é sua função. Talvez por causa disso, a quase totalidade da mídia atirou-se de cabeça nos despachos que vêm das agências noticiosas internacionais. Copiou ipsis litteris a transliteração inglesa do original Лукашенко: Lukashenko, com esse sh que não faz parte de nossas convenções. O sh é um dígrafo utilizado nos países de fala inglesa para representar o som ch. Na nossa língua, embora possa parecer familiar, não tem vez.

Resumindo, o nome do ditador de Belarus deve ser escrito Lukachenko (2). (Aproveitem enquanto o homem ainda está no poder – depois, será tarde.)

No duro, no duro, deveríamos escrever Lucachenco. Mas não vamos ser mais católicos que o papa: com um k aqui, outro ali, fica bem mais chique. Fica mais russo. Ou bielorrusso, como queira.

(1) O Itamaraty não recomenda artigo antes do nome do país. Não é, portanto, nem o, nem a Belarus, mas simplesmente Belarus.

(2) Em russo, esse o final é pronunciado a. Digo isso só pra registro. Afinal, ninguém é obrigado a conhecer essas minúcias.