O meu exército

José Horta Manzano

«Nunca vou ser preso», gritou um soberbo Jair Bolsonaro alguns anos atrás, no tempo em que os áulicos eram muitos, solícitos, servis. Ninguém ousou contestar.

O mundo dá voltas. Taí, Bolsonaro está preso. Em casa, é verdade, mas não é mais senhor de seus movimentos. Se quiser ir até o shoppinho tomar um chopinho, não pode. E nem adianta pedir autorização, que não vão deixar.

“Canalha!”, bradou um destemperado e temerário Jair Bolsonaro alguns anos atrás, no tempo dos setes de setembro transformados em comício. O insulto era dirigido pessoalmente a Alexandre de Moraes, ministro do STF. O capitão tinha confiança na docilidade do “seu” exército.

O mundo dá voltas. Outro dia, quando compareceu ao STF, sentou-se ao lado do advogado e frente a frente com Alexandre de Moraes. Ao responder a uma pergunta de Moraes, Bolsonaro tratou-o por “Excelência”. O mundo dá voltas mesmo.

Estamos assistindo a coisas que a gente nunca imaginou presenciar um dia.

Veja o caso do Trump. Nem o Nostradamus mais perspicaz teria imaginado que, no século XXI, o presidente dos EUA se deixaria influenciar por um deputado brasileiro pilantra e, na sequência, se poria a pisar no calo do Brasil e a nos tratar como se fôssemos um povo de categoria inferior.

Veja outro caso, esse convescote que reuniu algumas dezenas de ditadores na China estes dias. Estavam lá os líderes da China, da Rússia, da Coreia do Norte, do Paquistão, da Índia, do Casaquistão, da Bielo-Rússia e outras eminências. Pois o Brasil deu um jeito de enviar um representante. O enviado não se envergonhou de figurar na foto de família em tão excelsa companhia. Era Celso Amorim, aquele amigo do Lula, que se pôs na ponta dos pés para aparecer no retrato.

Outro caso, bem próximo de nós: o julgamento de Bolsonaro. O Brasil se divide atualmente entre os cidadãos que gostariam de ver Bolsonaro condenado e encarcerado, se possível até o fim de seus dias – na Papuda ou em casa, tanto faz. Já outro contingente de eleitores, bem menor do que o alarido das redes deixa supor, gostaria de vê-lo absolvido, solto e sem mais enroscos com a justiça.

O que vou dizer agora, pode chocar alguns: para mim, tanto faz. Tanto faz que seja condenado a 43 anos ou que seja absolvido por insuficiência de provas. A meu ver, a boa justiça não precisa ser necessariamente vingativa. Acho que o importante, o que ficará na história, não é o resultado do julgamento nem o tamanho da pena. O que será lembrado é o julgamento em si.

É admirável que, diferentemente do que ocorreu nos EUA, onde Trump conseguiu escapar à justiça, Bolsonaro foi obrigado a aguentar até o fim, apesar do esperneio. Não adiantou ter escapado para os EUA em 2022, não adiantou o filho pilantra ter conspirado junto à Casa Branca, não adiantou a Lei Magnitsky, não adiantaram os impostos de importação de Trump. Imperturbável, o processo seguiu seu curso até o fim.

Agora, se o STF julgar que o capitão deve ser condenado, que o condene. Se achar que as provas são insuficientes, que o absolva. Seja como for, o Congresso encontrará, de uma maneira ou de outra, modo de lavar sua culpa, por anistia, graça, indulto ou outro nome que soe bonito. Ou então o capitão se livrará por ter idade avançada e uma polpuda lista de enfermidades.

Por minha parte, fico satisfeito de ele ter tido de enfrentar o Tribunal Maior, voz trêmula e peito arfante, com um medo que há de ter-lhe envenenado a existência, pusilânime que sempre foi. Agora vai passar o que lhe resta de vida remoendo o ódio que sente contra os generais do seu exército, que o abandonaram e o atiraram às feras.

Para a pequenez do personagem, já está de bom tamanho.

Vias de fato

Sempre alerta, a mídia europeia não deixou passar a refrega

José Horta Manzano

“Vagabundo”, “covarde”, “canalha” e “tchutchuca do Centrão” – foram as palavras amáveis dirigidas ao capitão por um “youtuber de direita”, seja lá o que isso queira dizer. Na atualidade, todo cidadão faz obrigatoriamente jus a uma etiqueta a especificar se ele é do bem ou do mal, de Jesus ou de Belzebu.

Em tempos mais gentis que o atual, os epítetos lançados ao presidente seriam inadmissíveis, inconcebíveis. No entanto, desde que Bolsonaro vestiu a faixa, a civilidade foi pro espaço. Hoje em dia, nem aqueles palavrões cabeludos que a gente tinha vergonha de pronunciar chocam mais. Que saiam da boca de um cidadão qualquer ou até do presidente da República(!), o efeito é nulo. Nenhum frisson. Expressões de calão entraram para a conversa corriqueira.

Assim mesmo, é menos comum assistir-se à cena de um presidente se atracar fisicamente com um cidadão pelo motivo de ter escutado qualificativos que não lhe agradaram. Já fiquei sabendo de coronéis e deputados que se comportaram assim. De um presidente, principalmente quando está em campanha de reeleição, é mais raro.

Pensando bem, as palavras utilizadas pelo rapaz refletem a pura verdade. Nua, crua e sem retoques. “Vagabundo”, “covarde”, “canalha” e “tchutchuca do Centrão” é excelente resumo da personalidade presidencial. Ou não?

Mas dá pra entender a razão pela qual o capitão se sentiu tão à vontade pra rodar a baiana no meio da rua. Em primeiro lugar, o interlocutor era baixo e franzino. Em seguida, Bolsonaro estava rodeado daqueles agentes tamanho leão de chácara. Nessas condições, até eu me aventuraria a abordar fisicamente o “ofensor”.

Queria ver se a macheza seria a mesma caso os seguranças não estivessem ali e o “youtuber de direita” fosse do tamanho daquele deputado anabolizado, aquele que foi condenado à masmorra e salvo pela graça presidencial. Não tenho certeza de que Sua Excelência encararia, peito aberto.

Se eu fosse o youtuber agredido, não hesitaria em dar parte na polícia por ter sido vítima de vias de fato – em reação desproporcionada a mera interpelação verbal.

Muito estranho

José Horta Manzano

Andei fazendo as contas e percebi que faz hoje 43 dias que Bolsonaro parou de conclamar seus devotos a “fecharem” o STF e o Congresso. Lembra da época em que ele fazia isso dia sim, outro também? Pois é, nunca mais tratou nenhum ministro do Supremo de bandido, nem de canalha. A última vez foi naquela palhaçada que cometeu no 7 de Setembro. De lá pra cá, enfiou a viola no saco e se calou.

A carta que Michel Temer escreveu (e que ele assinou) não chega a ser um pedido de desculpa. Mas é evidente ato de contrição, uma promessa de se emendar. Na época, todos imaginaram que ela valia tanto quanto valem as promessas do capitão. Acreditou-se que ele estava agindo como o garoto malvado que, uma vez repreendido, promete se emendar, mas no dia seguinte torna a fazer malvadeza.

Quem conhece o capitão – e todos os brasileiros já o conhecem – sabe que ele não é homem de cumprir promessa. Se recua num dia, é para reincidir no dia seguinte. Não costuma aguentar mais que 24 horas sem cometer os mesmos desatinos.

Mas, ainda que soe esquisito, parece que ele se emendou de vez. Considerando que quarenta e tantos dias sem atiçar a milícia contra as instituições é muito tempo, a pergunta inevitável é: “Que tipo de ‘repreensão’ terá sido essa, que, de tão eficaz, fez calar o capitão?”

Logo depois do fatídico 7 de Setembro, a imprensa se referiu à carta de contrição e esclareceu que o presidente tinha tido “uma conversa telefônica com o ministro Alexandre de Moraes, do STF”. O teor do diálogo, que era o que realmente importava, não foi divulgado.

Dias depois, o deputado Paulo Pimenta (PT) soltou um tuíte intrigante, que, não sei por que razão, não teve direito a ampla divulgação. Eis o que revelou o parlamentar:

“Bolsonaro foi avisado por Temer q Carluxo seria preso depois do 7 de setembro. O Machão aos prantos ligou para Alexandre de Moraes, implorando, pedindo perdão, e prometendo ‘nunca mais’ ofender o STF ou seus Ministros. Quem assistiu relata a patética e vergonhosa cena. Quem acompanhou o desenrolar das tratativas afirma que foi pior do que meu relato. O desespero de Bolsonaro pedindo que Temer viesse às pressas para Brasília foi ‘comovente’ e ainda será lembrado por muito tempo nos escaninhos do Palácio Alvorada. Carluxo nunca mais foi visto.”

Este blogueiro, que não costuma frequentar palácios, não assistiu à cena. Portanto, não posso jurar que a narração corresponde à verdade verdadeira. Mas o comportamento do capitão tende a confirmar o relato do deputado.

Todos sabem que o maior medo do presidente é que ele ou algum dos filhos seja preso. Portanto, é permitido acreditar que só o risco real de prisão iminente do filho destrambelhado seria capaz de fazê-lo recuar.

Na falta de outra, é a melhor explicação para a radical mudança de rota de Bolsonaro. Uma vez amansado, vê-se que o tigre era de papel. Ainda outro dia, num ataque de sincericídio perpetrado diante de devotos, andou confessando que costuma chorar no banheiro, e que não é o “machão” que gostaria de parecer.

Agora sabemos que o homem se verga fácil. Quando apavorado, mia fino e pula no colo igualzinho ao gatinho lá de casa.