À míngua

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Hoje minha alma acordou nublada. Uma sensação vaga de desconforto aqui, uma espécie de insatisfação ali, um certo desalento acolá.

Preocupada com tanta apatia, perguntei a ela: “O que está acontecendo com você?”

Ela respondeu num muxoxo: “Nada…”

“Como assim? Estou vendo que você está muda, murcha, acabrunhada”, insisti.

“Pois é.… parece que estou anestesiada…. Será que você não percebe que a causa do meu mal-estar é exatamente o fato de que não estou sentindo nada?”

A resposta me chocou. Num exame rápido, constatei que ela estava dizendo a verdade. Nada parecia ter a força de tocá-la, afetá-la, sensibilizá-la. Minha mente começou a divagar, tentando ajudá-la a identificar o momento em que ela perdeu o rumo e se deixou cobrir por uma grossa camada de indiferença. De onde vinha esse anestesiamento emocional?

Até ontem, ponderei, meu cérebro estava febril, correndo alucinado de um lado para outro, tentando estabelecer novas conexões, como nunca havia ousado antes. Eu estava até me sentindo orgulhosa desse arroubo juvenil tardio. Mas, pensando bem, havia algo mais no fundo da consciência que me incomodava. A sensação, recordei, era a de que não havia tempo a perder.

A taquicardia, a sensação de urgência e a inegável voracidade da procura bem podiam ser sinais de que a energia elétrica estava se esgotando em todos os meus circuitos cerebrais. Talvez, no desespero de chegar a algum lugar antes que o Alzheimer me pegasse, eu inadvertidamente tenha consumido toda a reserva de oxigênio disponível.

Mas, se isso era verdade, me perguntei, onde encontrar novos fornecedores desse combustível? A resposta explodiu como uma bomba em meu peito. Na troca com outras pessoas! Era dessa falta que tanto minha cabeça quanto minha alma se ressentiam, afinal.

Fez-se subitamente luz. Eu tinha passado as últimas semanas acionando todo mundo que se dispusesse a dialogar comigo sem compromisso, a pensar junto. Poucas, muito poucas pessoas reagiram bem ao convite. A imensa maioria simplesmente preferiu ignorar a solicitação. Sabe como é, o trabalho, o cuidado com a família e os imprevistos tomavam todo seu tempo.

Passei a procurar no mundo virtual algum estímulo minimamente personalizado que tivesse o condão de me retirar daquele tédio existencial. Tudo o que encontrei foram respostas prontas e genéricas, típicas de manual de autoajuda. Nenhum sinal de vida humana inteligente realmente interessada em indagar, especificar, relativizar, contraditar ou acrescentar ângulos pessoais para as minhas questões. Era como morrer de fome em meio a um festim pantagruélico. Tanto alimento para o pensamento e nenhum específico para o tipo de satisfação que minha alma buscava.

Lembrei da tese de um estudioso das conexões corpo-mente que dizia que a psique humana é como uma sanfona. Para produzir sons harmônicos, ela precisa ser capaz de se expandir e contrair totalmente, abrindo-se de forma igual para os dois lados. Se a vareta de um dos lados do fole está quebrada, já não é possível a plena expressão dos sons do lado oposto.

Em outras palavras, se a gente se recusa a vivenciar a dor, torna-se, sem querer, inapto para experimentar alegria. Se tememos ser tomados cegamente pelo rancor ou pela raiva, não conseguimos mais nos deixar inundar pelo sentimento de ternura. Talvez fosse exatamente isso o que os gregos queriam dizer quando afirmavam que só se conhece os sabores por seus opostos. Difícil de aceitar, mas só quem já provou do amargo pode conhecer o que é doce.

Seja como for, ainda me parecia que o que estava acontecendo com minha alma não era, em definitivo, a falta de variedade, de contraste. Ao contrário, lembrava algo mais próximo ao cansaço com tanto estica-e-puxa de suas fibras. Algo parecido com a sensação de déjà-vu diante de tantas manifestações de extremismo, passionalidade. Mais propriamente, era algo como uma vontade de se recolher, de passar desapercebida, de não incomodar.

Para quem ainda não chegou lá, eu explico. Na velhice, não é nada raro a gente se sentir como uma caixa colocada no meio da sala da casa de outras pessoas, que atrapalha a livre circulação dos moradores. E, como ninguém se preocupa em retirá-la do caminho, a gente vai acumulando pó. A sensação de não-pertencimento ao ambiente começa a causar deformações profundas na estrutura da caixa e, finalmente, a incapacidade de sentir prazer se instala.

Sem sombra de dúvida, concluo, minha alma está de volta ao limbo. Como dizia um amigo, já não importa se eu estou certa e o mundo errado, ou se é o contrário. Se sou minoria, sou eu quem tem de mudar. Alguém aí para me jogar uma corda redentora?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Um TOC de bondade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Criança 3Desculpem-me por destruir algumas ilusões à medida que descrevo minha problemática emocional. Eu não sou boazinha. Nunca fui e nunca quis ser. Apesar de meus pais terem me estimulado durante toda a minha infância a manifestar gestos de solidariedade, nunca correspondi à altura. Medo, covardia e timidez exagerada fizeram de mim uma pessoa voltada para dentro, preocupada mais em me livrar de sensações desagradáveis do que em propriamente estender a mão a quem dela necessitasse.

Generosa talvez eu tenha sido em algumas ocasiões. Se estou diante da escolha de fazer o bem a quem me pede algo com delicadeza ou reagir com indiferença e virar as costas, opto no mais das vezes por aceder ao convite do meu lado generoso. Mas, que fique bem claro: desde que isso não me custe nada!

Ser apontada como uma pessoa boa é algo que me causa desconforto, me constrange e me envergonha. O elogio soa sempre aos meus ouvidos como sinônimo de trouxa, de pessoa que aceita de bom grado ser usada.

Criança 2Sei que não sou boa porque detecto sinais claros de irritação dentro de mim sempre que alguém, que já me pediu outras coisas várias vezes anteriormente, me coloca diante de um beco sem saída para negar o favor pedido. É isso, aceitei no passado ser usada por terceiros porque não queria macular minha imagem. Imagem de quê? De boazinha, é claro. Como qualquer outra pessoa na mesma situação, achei que poderia atrair afeto se me comportasse segundo as expectativas. E, quando a primeira pessoa me elogiou em resposta, isso virou um vício, uma obsessão, uma compulsão.

A coisa só começou a mudar quando percebi que, quando essa mesma pessoa não estava precisada de outros favores, ela deixava de manifestar afeto por mim. Eventualmente, algumas até se recusavam a me fazer favores em retribuição. E eu não podia retrucar, não podia cobrar nada porque estava implícito que eu havia acedido graciosamente.

Em resumo, foi então que me dei conta de que eu havia me tornado refém das migalhas de afeto que podia recolher pelo caminho se parecesse boazinha. O que eu não havia percebido desde o início era que as pessoas devem ser amadas pelo que são e não por qualquer coisa que possam fazer.

Papai Noel 2Quando a luz se fez, já era tarde. Meu TOC [transtorno obsessivo-compulsivo] já estava instalado. Como me afirmar e dizer não a novos pedidos se imediatamente começava a imaginar mil desgraças prontas a recair sobre minha cabeça caso a recusa se concretizasse? Culpa da formação religiosa católica de minha família, sem dúvida. Se você não for bondosa, não vai ganhar o céu. Se você não se comportar direitinho o ano todo, Papai Noel não vai lhe trazer nenhum presente.

E lá ia eu, mais uma vez, mesmo contrariada, me forçar a fazer o que não queria. Sufocar minha revolta no peito e na garganta, abaixar a cabeça e colocar um sorrisinho amarelo no canto da boca. Tentar afastar do meu cérebro a pergunta angustiante: até quando, meu Deus?

Jovem 1Não me entendam mal. Quero, sem dúvida, ser útil, poder me colocar a serviço de outras pessoas, mas não tenho estômago para me comportar como uma gueixa ou como um simulacro de Madre Teresa de Calcutá. Não aspiro à santificação e não tenho nenhum apego ao masoquismo. Quero aprender a me doar com a alegria das pessoas livres, com a leveza das borboletas, com a ingenuidade das crianças. Acima de tudo, quero acreditar no poder transformador da minha própria integridade.

Tentando fazer o bem a quem está fora, tornei-me cruel com o que está dentro. Deus e o diabo numa disputa feroz encenada na arena que sou eu. Que mérito haverá, me pergunto, na bondade exercida de má vontade, à contre-cœur? Não seria melhor, mais justo, ser maldosa de alma limpa?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.