Venezuela: não dá mais tempo

Manifestação anti-Maduro em Londres, 4 ago 2024
credit: Marcio Manzano

José Horta Manzano

Para os cidadãos venezuelanos, os maiores interessados nesse quiproquó, o horizonte está longe de desanuviar. O céu continua carrancudo e carregado. Do jeito que as coisas vão, não é desta vez que vão se resolver. Não é desta vez que o país volta aos trilhos da normalidade democrática. Não é desta vez que remédios vão voltar às farmácias, que comida vai voltar aos supermercados, que a inflação vai dar sinal de arrefecer.

Se algo tinha de acontecer, era nos dias que se seguiram imediatamente ao anúncio do resultado do pleito. Invasão de exército estrangeiro, golpe militar interno, gigantescas manifestações no-stop de entupir Caracas – fosse qual fosse o caminho da redenção, o remédio tinha de ter sido aplicado antes que a nomenklatura e os apparátchiks pudessem reagir. A ação tinha de ter sido rápida, pegando aos donos do regime de calças curtas, sem lhes dar tempo de levantar os suspensórios.

Assim não foi feito. Hesitação de alguns governos como o brasileiro e resoluto apoio de países autocráticos como a China, a Rússia e o Irã deram fôlego a Maduro (que, mesmo sem isso, não estava nem um pouco disposto a ceder).

Como é fácil de entender, se o governo venezuelano cedesse e entregasse o poder à oposição, que venceu as eleições, iam todos parar na cadeia: desde o casal Maduro até o porteiro do Palacio Miraflores; do general mais agalardoado até o cabo mais obscuro.

A cada dia que passa, mais pedregoso fica o caminho dos que gostariam de entregar o bastão ao verdadeiro vencedor da eleição. Depois de mandar prender centenas de cidadãos a esmo, Maduro já conseguiu o que queria: calou o populacho. Ninguém mais é louco de marchar pelas avenidas carregando cartazes. Señor González, o mais que provável ganhador do pleito, já não ousa se proclamar vencedor. A Venezuela volta a ser estrangulada por uma atmosfera de desconfiança mútua, medo de ser agredido e pavor de ser denunciado.

Tenho a impressão de que, por anos ainda, o Brasil terá de encarar um afluxo reforçado de migrantes venezuelanos. A diáspora venezuelana vai engrossar e se espalhar ainda mais. Famílias vão vender o pouco que possuem pra pagar coiotes e tentar penetrar nos EUA. A miséria vai continuar se alastrando no país.

O petismo esteve no comando de nosso país durante 14 longos anos. Naquela época, ainda teria dado pra estancar o processo de deterioração da democracia venezuelana. Por que nossos petistas, de espírito tão humanista, que sempre tiveram bom trânsito em Caracas, não agiram? Porque, ingênuos, não se deram conta da gravidade da evolução. Agora, que o panorama apodreceu, ficou difícil, quase impossível.

Venezuela, uma narcoditadura, nossa vizinha de parede.

Doação de órgãos

José Horta Manzano

Em matéria de doação de órgãos, a diferença de legislação entre países dá margem a análise psico-sócio-filosófica, se é que assim me posso exprimir. Tradição, comportamento social, crença religiosa entram em conta. Visão da igualdade entre cidadãos também.

No Brasil ‒ assim como praticamente no resto do mundo ‒ é longa a lista de pacientes que esperam pelo órgão que lhes permitirá continuar vivendo. O mui oficial portal do governo brasileiro é claro. Explica que «mensagens por escrito deixadas pelo doador não são válidas para autorizar a doação».

Na prática, isso significa que «apenas os familiares podem dar o aval da cirurgia, após a assinatura de um termo». O resultado é dramático: «metade das famílias não permite a retirada dos órgãos para doação».

doacao-1É surpreendente constatar que, de certa maneira, boa parte dos brasileiros ainda mantêm, com relação ao corpo físico, relação semelhante à dos egípcios de seis mil anos atrás, na época dos faraós. Como se sabe, naqueles tempos recuados, era generalizada a crença de que a preservação do corpo morto era importante para seguir viagem no além.

Na França, faz quarenta anos que a lei é clara nessa matéria. Quando um cidadão morre, parte-se da presunção de que tenha dado consentimento à doação de órgãos ou tecidos corporais. Diferentemente da regra vigente no Brasil, todo cidadão é considerado doador a menos que, em vida, tenha exprimido oposição formal.

Em lugar de criar um cadastro de potenciais doadores, foi instituído um registro nacional de não-doadores. Todos os que se recusarem à retirada post-mortem de vísceras ou tecidos do próprio corpo devem inscrever-se nesse arquivo. Melhor fazê-lo enquanto vivos, evidentemente.

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

Até aqui, o não-doador tinha de se alistar por meio de documento escrito, assinado e datado. Com a popularização da internet, o procedimento foi atualizado por decreto que entra em vigor neste 23 de janeiro. A partir de agora, todos aqueles que se recusarem a doar parte de seus restos mortais podem inscrever-se por meio de formulário disponível online.

Permitir que outros possam sobreviver graças a órgãos dos quais não vou mais precisar me parece óbvio, lógico e natural. Mal comparando, é como se, em vez de doar roupa que não me serve mais, preferisse jogá-la no lixo a dá-la a quem precisa.

É por isso que não acredito que a nova possibilidade oferecida pelo decreto francês venha a suscitar vocações. Não é um formulário online que vai transformar doadores generosos em egoístas que preferem deixar apodrecer o coração debaixo de sete palmos. Só escolhem esse caminho aqueles cujo coração já apodreceu em vida.