Blue Moon

José Horta Manzano

Você sabia?

Blue Moon (Lua Azul) é expressão que aparece há séculos na língua inglesa. Seu sentido evoluiu através do tempo. Os primeiros registros surgem 500 anos atrás e indicam que a expressão era usada para designar coisas absurdas. Dado que a cor da Lua varia entre o branco, o amarelo e o vermelho, nunca se viu uma Lua de cor azul. Portanto, dizer que alguém acreditava numa ‘Lua azul’ equivalia a dizer hoje que esse mesmo alguém jura que a Terra é plana. Coisa de hospício.

O sentido da expressão flutuou ao longo dos anos até que, em meados do século 19, acabou se fixando. Na época, os almanaques eram muito populares, com o santo de cada dia, as festas religiosas, as fases da Lua, os eclipses. Esses livrinhos consolidaram o significado da Lua Azul. O ano se divide em 4 estações. Cada uma delas, em princípio, tem 3 Luas cheias. Quando uma estação tem 4 Luas cheias, a terceira é chamada Lua Azul. Esse desvio da norma, com uma Lua suplementar, ocorre a cada 3 anos mais ou menos. Parece complicado, não? Espere, que vai piorar.

Um artigo de 1946, escrito por astrônomo amador e publicado em revista especializada, continha um erro de interpretação – ou um desleixo, não tem importância. (É chato alguém ficar na história por ter cometido um erro; não menciono o nome do moço pra evitar conflito com os herdeiros.) Em vez de contar quantas Luas cheias tem uma estação, ele contou quantas Luas cheias tem cada mês, veja só. Ninguém se deu conta de que, dali por diante, a definição da expressão Blue Moon (Lua Azul) ia dividir-se em duas correntes.

A partir da publicação do artigo, a corrente tradicional continuou respeitando a definição antiga: Lua Azul é a terceira Lua cheia da estação do ano que tiver 4 Luas cheias. Mas a nova corrente entendeu que Lua Azul é a segunda Lua cheia que eventualmente ocorra num mesmo mês, pouco importando a estação do ano. Parece que dá no mesmo, mas não dá. As Luas Azuis da corrente antiga e da nova não coincidem.

Pela definição antiga, houve Lua Azul em agosto 2013, maio 2016, maio 2019. Para observar a próxima, há que ter paciência até agosto de 2021. Já pela definição modificada, houve Lua Azul em julho 2015, janeiro 2018, março 2018. A próxima cai justamente hoje, 31 de outubro de 2020.

Seguir a corrente tradicional e esperar pela Blue Moon de agosto de 2021 é problemático. Com essa pandemia que grassa por aí, ninguém mais tem certeza de nada. Nem se sabe se a humanidade estará ainda firme e forte até lá. É melhor festejar hoje mesmo, aproveitando que cai junto com o Bumba Ralouín Meu Boi, tradicional festa caipira brasileira. Saúde!

Coco na veia

José Horta Manzano

As repetidas e forçadas correções de rumo de nossa ortografia oficial trazem efeitos secundários danosos. O maior deles é semear a desorientação entre os que escrevem: a cada parágrafo, uma ou duas palavras nos fazem hesitar. Outro efeito importante é dificultar a leitura. Tome o título deste artigo. Uma leitura rápida pode até sugerir que estou propondo atirar coquinhos na senhora idosa. Não é isso. Não se deve ler véia, mas vêia.

Volta e meia, a história da água de coco na veia (vêia!) ressurge. Até doutor Bolsonaro tocou no assunto esta semana. Na festa que organizou para comemorar os 100 mil mortos de covid-19, valeu-se de uma fábula para justificar o uso de cloroquina no tratamento do coronavírus.

Mencionou um caso ocorrido na Guerra do Pacífico (guerra essa que se supõe ser o conjunto de batalhas travadas na região do Oceano Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial). Segundo o presidente, um soldado precisava de transfusão de sangue. O estoque estava a zero. Na emergência, o médico decidiu ministrar-lhe água de coco por via intravenosa. Segundo o presidente, a injeção foi aplicada e… deu certo! A injeção de água de coco valeu por uma transfusão de sangue!

Nesta altura, os devotos hão de ter vibrado. É notório que doutor Bolsonaro é homem de poucas letras. Estivéssemos no tempo dos almanaques, pode até ser que ele tivesse colhido essa historieta num deles. Dado que desapareceram, pode-se supor que algum assessor lhe tenha soprado a dica. Só que, como diria minha avó, ouviram cantar o galo mas não sabem onde.

A história registra – não só na «Guerra do Pacífico» – raras ocasiões em que a água de coco realmente teria sido injetada no homem. São casos extremos, em que um paciente se encontra em quadro sério de desidratação, complicado pela impossibilidade de reidratação por via oral e coroado pela ausência de soro fisiológico disponível. Em casos assim, para salvar uma vida in extremis, médicos já teriam utilizado água de coco. Mas , se aconteceu, será fato raríssimo.

De saída, é preciso que a cena se passe em terra tropical, aquelas em que cresce esse coqueiro que dá coco. Em segundo lugar, é necessário escolher um fruto verde; aqueles maduros de casca marrom dura não servem. Em terceiro, é indispensável dispor de material esterilizado e certificar-se de que o coco não tem nenhum sinal de rachadura, que é para garantir que o líquido interno não está contaminado pela entrada de ar do exterior.

A água de coco não é idêntica ao plasma sanguíneo. Em compensação, é líquido estéril (sem bactérias e outros germes). Em casos desesperados, pode substituir o soro fisiológico, com o fim de hidratar o paciente. Mas não pode ser usada como tratamento habitual, dado que não contém sódio suficiente para permanecer na circulação sanguínea. Assim, poderia elevar o cálcio e o potássio do organismo a um nível perigoso.

Portanto, se o distinto leitor tiver acesso a doutor Bolsonaro, solicito-lhe o obséquio de fazer chegar ao Planalto o complemento de informação que está faltando aos ouvidos presidenciais. Em casos excepcionais e desesperados, como último recurso para reidratação de um paciente que, sem isso, periga morrer, uma perfusão intravenosa de água de coco pode prolongar-lhe a existência por algumas horas.

Só que isso não é «transfusão de sangue», presidente! Água de coco não substitui o sangue. Em hipótese alguma. Em medicina, pode haver remédio bom, remédio mais ou menos ou remédio inútil, mas remédio milagroso não há. Salvo um, cujo nome não vou dizer aqui, que é pra não fazer propaganda indevida.

Publicado também no site Chumbo Gordo.