O visitante que não veio

Darren Beattie

José Horta Manzano

Vosmecê sem dúvida ficou sabendo da história daquele enviado especial de Donald Trump que queria se encontrar com Jair Bolsonaro na cadeia. Por caminhos tortuosos, doutor Alexandre de Moraes proibiu o convescote. Eu disse “caminhos tortuosos” porque a motivação do STF foi burocrática, uma espécie de erro processual, eludindo a verdadeira razão.

No entanto, o motivo verdadeiro é que está fora de cogitação abrir as portas de uma prisão brasileira para deixar entrar um representante de um governo estrangeiro. Sendo o visitador um enviado de Donald Trump, e o visitando, um antigo presidente brasileiro, preso por tentado golpe de Estado, o pretendido encontro configura total aberração.

O enviado de Trump pode se encontrar com os filhos do encarcerado, com parlamentares, enfim, com quem ele desejar, só não pode trocar figurinhas com um condenado atualmente custodiado pelo sistema prisional brasileiro.

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O que poucos sabem são os princípios supremacistas e racistas que regem o pensamento de Mr. Darren Beattie, o visitante barrado. Nomeado por Marco Rubio, ele é subsecretário para Diplomacia Pública e Assuntos Públicos, um cargo sênior que representa a política externa dos EUA para o mundo.

“Seres humanos de maior qualidade estão subsidiando a fertilidade de seres humanos de menor qualidade”, já declarou Mr. Beattie, chamando isso de “realidade fundamental da vida social e política no Ocidente pós-guerra”.

Em janeiro de 2023, escreveu: “A hierarquia dos tabus é interessante. A prática horrível do aborto no segundo trimestre é legal em alguns lugares e está bem dentro da janela de Overton do discurso público. Mas a ideia de oferecer incentivos financeiros a populações que retornaram ao estado selvagem para esterilização voluntária é completamente tabu.”

Em outubro 2023, não se acanhou e voltou a insinuar que os habitantes de um determinado bairro de Atlanta (Geórgia) tinham “voltado ao estado selvagem”, expressão que só se usa para animais, nunca para seres humanos. Nessa ocasião, ensinou que um presentinho, como um bom par de tênis, resolveria o problema.

Em 2018, Mr. Beattie foi demitido por ter discursado numa conferência frequentada por supremacistas brancos.

Em maio de 2025, escreveu: “Pagar pessoas inteligentes para terem mais filhos, desincentivar pessoas estúpidas de terem filhos. Tão simples, mas molda o destino em um nível intergeracional profundo”.

Em janeiro de 2023, escreveu: “De onde vêm essas conspirações de redução populacional? Tudo o que vejo é lixo se multiplicando”.

As postagens de Beattie frequentemente se concentram em raça, e ele tem menosprezado diferentes grupos.

Em setembro de 2023, ele respondeu a notícias sobre migrantes africanos se amotinando em Israel dizendo que o governo israelense “poderia simplesmente reuni-los e jogá-los no oceano. Deixe os ‘grupos de direitos humanos’ reclamarem… jogue-os no oceano também!”.

Em maio de 2023, Beattie escreveu no Twitter (hoje “X”) que “populações de baixo QI e baixo controle de impulsos carecem de raciocínio superior e faculdades morais — elas precisam de punição corporal rigorosa e da ameaça de violência para funcionar adequadamente dentro de uma sociedade. Em vez de anarcotirania, precisamos de Singapura para os burros e violentos, e da Suécia para os mais elevados.”

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Aí está, em algumas pinceladas, a personalidade perturbada do visitante que não veio. Foi melhor assim. De transtornados desse naipe, nossa vida pública já está repleta. Não faz falta importar mais um.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.