Inteligência curta

José Horta Manzano

Em matéria de política brasileira, este escriba – assim como muitos conterrâneos – acreditava que a síndrome de inteligência curta fosse própria aos Bolsonaros. O passar do tempo está se encarregando de mostrar que não é bem assim. Que fique claro: Jair Messias & família continuam imbatíveis nesse terreno. Situam-se nas camadas mais profundas da ignorância nacional.

O ferro de solda na tornozeleira, a busca de asilo na embaixada da Hungria, as providências para prejudicar o Brasil com impostos de importação estratosféricos são provas evidentes do desvario familiar. Mas eles não estão sozinhos na pouco invejável posição de homens sem visão. (Aliás, sem visão, se me permitem, são os que persistem em votar neles.)

A penúria de bestunto em personagens de alto nível no topo da república, que é o que se tem visto estas últimas décadas, não poupa nenhum órgão, nenhuma instância, nenhum partido, nenhuma instituição. Felizmente a epidemia não atingiu toda a população: ainda há gente fina em postos decisórios; mas são poucos, bem menos do que seria necessário para tocar um país complexo como o nosso.

Outro dia, um jovem deputado federal liderou uma peregrinação rodoviária, qual um Forrest Gump seguido de uma tropa de maratonistas que não sabiam para onde se dirigiam nem o que estavam fazendo ali. Antiquado, este escriba acreditava que o papel de um deputado era fazer leis para melhorar o dia a dia de seu povo. Parece que a inteligência turva que vigora atualmente alterou as regras e impele parlamentares a dedicar seu tempo a pleitear soltura de condenados pela Justiça.

Nosso presidente, que a mídia nos vende como raposa esperta de faro infalível, passa por cima da realidade de estar na nona década de vida. Parece não se dar conta de que não é imortal. Pretende candidatar-se a mais um mandato de quatro anos, do qual sairá, se eleito for, com a respeitável idade de 85 anos. Age como se, fora de Luiz Inácio, não houvesse salvação, o que não passa de um orgulho mal controlado que pode acabar manchando sua biografia. Fosse menos deslumbrado e mais inteligente, estaria largando o osso e ungindo seu sucessor.

A carência de inteligência acaba de atingir mais uma instituição – graúda! É o STF. Com o julgamento dos participantes do golpe de Estado de 2022/23 chegando ao fim, seria hora de o Tribunal Supremo voltar à rotina tradicional, que foi, digamos assim, um tanto “extrapolada” estes últimos dois ou três anos. Qualquer observador concordaria que o espetáculo terminou e que é hora de os togados retomarem o ramerrão.

Suas Excelências, porém, têm outra opinião. Não todos, mas boa parte deles recusam que se lhes imponha um decálogo de boa conduta explicitando as linhas vermelhas a não ultrapassar no funcionamento do tribunal. É quase inacreditável que os guardiães da Constituição se julguem intocáveis e hostis a normas que regulem suas atividades.

Se parasse por aí, seria atitude prepotente, mas restrita ao campo das opiniões. Mas as excelências vão além. Fazem corpo duro, com pé no breque e declarações retumbantes contra todo manual de regras. Parece mentira.

Vê-se que a síndrome da inteligência curta se alastrou pelo STF. Ninguém gosta de regras, conceda-se. Mas opor-se frontalmente não é atitude esperta. Chama a atenção do distinto público, que acaba ficando na torcida: vão aceitar o código de boa conduta, não vão aceitar, vão aceitar… e assim por diante.

Uma aceitação, nem que fosse de fachada, seria mais razoável. Em seguida, na hora de compor o código, nos bastidores, bastaria trabalhar para que saísse mais genérico, menos rigoroso. Eles sabem como fazer. E, no final, todos ficariam contentes.

Só nos resta torcer para que o Espírito Santo baixe naquele ambiente togado e oriente as excelências. Será melhor para todos.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.