O debate Trump x Kamala

Kamala Harris: expressão corporal durante o debate com Trump

José Horta Manzano

Não assisti ao debate eleitoral americano de ontem. É que, devido à defasagem causada pelo fuso horário, o programa caiu por aqui no meio da madrugada. Mas já li a notícia e mais meia dúzia de artigos de opinião.

Parece que os analistas se puseram de acordo: descrevem o duelo com palavras semelhantes e são unânimes em atribuir a vitória a Kamala Harris. Por pontos, é verdade, mas sempre vitória é. (Aliás, como seria mesmo uma vitória por nocaute?)

Entretanto (ou however, como dizem eles), a história tem um nó. A opinião pessoal dos eleitores de lá anda tão cristalizada, que é difícil que o debate, por mais esclarecedor que seja, abale alguém a mudar o voto. Ao fim e ao cabo, cada eleitor desligou a tevê satisfeito de ver que seu(sua) candidato(a) é de fato superior ao adversário. Afinal, cada um ouve o que quer e retém o que deseja, não é mesmo?

De fato, tenho dificuldade em imaginar um trumpista roxo ter se encantado com a verve de Kamala, a ponto de decidir se tornar kamalista, se me perdoam o neologismo. O mesmo vale para o vice-versa. Ou alguém imagina um fervoroso democrata ter-se tornado trumpista desde ontem?

Logo, para que servem esses debates? Se não servem pra orientar eleitores e fazê-los escolher candidato, qual é a utilidade? Talvez para incentivar eleitores preguiçosos a se levantarem do sofá e se dirigirem ao posto de votação.

E há outro nó. É um pouco complicado de entender para nós, que vivemos numa república onde, na hora de escolher o presidente, todos os votos são iguais. Para nós, um eleitor equivale a um voto; e o chefe da nação será o candidato que obtiver mais votos. Nos EUA é mais enrolado.

Na intenção de dar uma ajuda aos estados menos populosos, os fundadores do país complicaram o sistema. Não tenho a pretensão de explicar aqui como funciona, mas o fato é que, a nossos olhos, o resultado pode ser distorcido. O candidato que tiver o maior número de votos não é necessariamente o vencedor. Acontece com certa frequência que o vencedor do voto popular perca a eleição.

Assim, por mais empolgante que seja – tem gente que perde horas de sono só pra acompanhar – o debate eleitoral americano é jogo que não vira o jogo. Um desastre, como o desempenho de Biden no duelo anterior, tem mais força que um bem estruturado debate de ideias.

Só me resta dar um conselho a nossos leitores americanos (não sei se os há, mas devem ser numerosos).

Votem em quem quiserem, mas não votem em Trump.
Para o bem da humanidade.

3 pensamentos sobre “O debate Trump x Kamala

  1. Nos EUA, existem sete estados-pêndulo (swinging states), onde um debate pode fazer a cabeça dos indecisos. Mas são apenas sete dentre cinquenta, e é neles que ambos os candidatos centram fogo. Por sinal, um desses estados é justamente a Filadélfia, onde ocorreu o debate de ontem.
    Mas é sintomático que até os analistas do Partido Republicano reconheceram que o desempenho de Kamala foi melhor.

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  2. Pois eu assisti ao debate completo (a transmissão por aqui foi às 10 horas da noite) e posso lhe afiançar que você perdeu uma aula magna de psicopatologia e diversionismo característico da extrema direita. Fiquei imaginando quais tipos de distúrbio cognitivo os potenciais eleitores de Trump possuem. Só quem já ouviu Jair Bolsonaro dizer sem medo do ridículo que quem toma vacina corre o risco de se transformar em jacaré pode entender as barbaridades disparadas por Trump em tom de ameaça. O ponto alto do debate foi, sem dúvida, a afirmação de que imigrantes haitianos estão comendo “todos os cães e gatos” dos moradores de uma cidadezinha. Ele ainda teve a ousadia de garantir que vai pôr fim à guerra na Ucrânia antes mesmo de tomar posse em janeiro. Como? Não deixou muito claro, mas disse que chamaria Putin e Zelensky e lhes diria: “Olha aqui, vamos parar com essa guerra idiota”.

    Nem quem só tem dois neurônios consegue engolir tanta asneira. Tico e Teco entram em surto quando se tenta fazer com que eles se comuniquem harmoniosamente.

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