Euroinglês

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 abril 2021.

Diante do drama linguístico que vive hoje a União Europeia, convém recordar as palavras pronunciadas em 1962, numa coletiva de imprensa, por De Gaulle, presidente da França. O velho general tinha o dom do espetáculo; as credenciais para assistir a suas entrevistas eram disputadas a tapa pelos jornalistas. Naquele dia, ele pareceu ainda mais inspirado que de costume. Lá pelas tantas, citou Dante, Goethe e Chateaubriand e declarou que, se esses autores são venerados até nossos dias, é justamente porque cada um deles, ao se expressar na língua materna, guardou o espírito de seu país. Disse ainda que eles não teriam sido de nenhuma valia para a Europa se tivessem se exprimido “num esperanto ou num volapük qualquer”.

Não foi por acaso que o general mencionou duas línguas artificiais. Não foi sem razão que se referiu a elas em tom de desprezo, como se não passassem de brincadeira infantil do tipo língua do pê. É que, naquela altura, as lembranças da Segunda Guerra ainda estavam frescas na memória. Num Mercado Comum formado por apenas seis nações, a paisagem linguística era simples. Apenas três países eram grandes: França, Alemanha e Itália. Dos três, dois estavam em posição frágil, por serem os derrotados de 1945. Sobrava a França. Na lógica do general, a língua francesa se imporia naturalmente como lingua franca. Daí ter rejeitado toda ideia de língua neutra.

Passaram-se quase 60 anos, De Gaulle se foi, o mundo mudou. A União Europeia saltou de meia dúzia de membros para os 27 atuais, o que complicou o panorama linguístico. As línguas oficiais passaram de 4 a 24. E a tática do general furou: o francês não se impôs como língua de comunicação entre os europeus. Com o passar do tempo, foi o inglês que acabou por se impor.

Na administração da UE, a primazia da língua inglesa é fato incontestável. Em 2015, a Comissão traduziu 1.600.000 páginas para o inglês e apenas 72.000 para o francês, a segunda língua mais procurada. O domínio do inglês é brutal. Com sua estratégia de barrar línguas neutras, De Gaulle acabou facilitando a entrada do inglês. O que ele temia aconteceu: a língua de Shakespeare suplantou as demais.

O Brexit levou o Reino Unido para o outro lado da fronteira e deixou a UE numa situação linguística peculiar. Tirando Malta e a Irlanda, países de importância muito relativa, nenhum outro membro dá ao inglês estatuto oficial. No entanto, o inglês é de facto o idioma de todos os dias. No Parlamento, o número de intervenções em inglês equivale às falas em francês, espanhol e alemão somadas. A Inglaterra foi-se, mas o inglês ficou.

Depois do desaparecimento do sabir, um pidgin que serviu de lingua franca na bacia do Mediterrâneo desde a Idade Média até meados do século 19, é a primeira vez que um consórcio de povos adota, para a comunicação do dia a dia, uma língua estrangeira que não a do antigo colonizador – mesmo porque de descolonização não se trata. Não se trata tampouco de imposição de quem quer que seja. A adesão espontânea ao inglês teve crescimento vigoroso a partir da admissão de países da Europa Oriental, em 2004.

Chega-se agora a uma situação curiosa. Há uma corrente propondo que se oficialize o inglês como segunda língua dos europeus, junto à língua materna. Se isso ocorrer, a língua inglesa assumirá importância superior à do latim medieval, que se restringia ao posto de língua de cultura, sem jamais perpassar a fala popular. A moderar os ardores dessa corrente, surgem vozes que, sem renegar a realidade, recomendam que o futuro inglês europeu – euroinglês, provavelmente – lance, de certo modo, seu grito de independência: “Que se afrouxem as amarras que me prendem à tirania do inglês britânico!”.

O pleito faz sentido. Não é confortável nem admissível que um inglês oficializado na UE continue sob a tutela de Cambridge ou de Oxford. Nenhum parlamentar europeu deveria se envergonhar de não dominar o idioma como um nativo. Não se pode esperar que um lituano, um espanhol ou um húngaro manejem o inglês como se fossem ingleses. Ainda que puristas britânicos possam não apreciar, a futura lingua franca europeia será fruto do idioma de Shakespeare. Será fruto, é verdade, mas será também bastardo.

5 pensamentos sobre “Euroinglês

  1. Pingback: José Horta Manzano | Caetano de Campos

  2. Fiquei pensando: será que é porque o inglês é uma língua sintética e prática que não requer muito conhecimento gramatical? Ou será que, por ser também a língua do ‘business’ e do mercado (o dólar é a unidade de medida adotada quase universalmente), o inglês se tornou uma espécie de esperanto?

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    • Ambas as razões são válidas. Conta muito também a força do marketing embutido no cinema e nos seriados de tevê americanos.

      O poderio bélico é outro fator a influenciar: “Já que tenho de escolher um lado, fico com os mais fortes”.

      Tem mais. Para países do antigo bloco soviético, a língua inglesa simboliza o ideal da liberdade que lhes foi subtraída durante mais de 40 anos.

      Me ocorre mais uma razão. O inglês é língua riquíssima, com termos para todos os gostos. Cada palavra tem uma coleção de sinônimos, em que cada um carrega nuance própria. Uma festa para quem aprecia bons textos.

      Por todas essas razões, não tinha como o inglês deixar de se universalizar. Outras línguas de cultura têm alguns pontos comuns com a língua inglesa, mas nenhuma tem todos eles.

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  3. Acabo de lembrar de uma experiência hilária que vivi em Londres. Uma ricaça paulistana com quem encontramos entrou num restaurante e perguntou de cara ao garçom que veio nos atender: Do you speak English? O infeliz, um senhor português provavelmente já escolado com a falta de cultura geral dos nossos turistas, encheu o peito e despejou sem piedade: “Falo português melhor do que tu!”. Detalhe importante: ninguém havia dito uma só palavra antes da cândida pergunta da socialite.

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    • Isso me faz lembrar que os únicos que acham que brasileiro fala português são os próprios brasileiros. Os demais consideram que, no Brasil, se fala… brasileiro. Todos acham isso, inclusive (e principalmente) os portugueses.

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