Criar novo

José Horta Manzano

Blabla 6O Lula discursou nesta segunda-feira em seu comitê, aquele escritório político curiosamente chamado de instituto. Não fosse o homem um personagem sabidamente esperto, a gente ficaria com a impressão de que ensandeceu, pirou de vez. Atenção ao adjetivo: eu não disse culto nem inteligente, mas esperto.

«Estamos querendo salvar nossa pele e nossos cargos ou criar um novo projeto?» foi a frase emblemática que pronunciou. Pra não complicar, vamos deixar barato o pleonástico «criar novo projeto» – quem conseguiria criar um velho projeto, não é mesmo? Isso dito, a resposta à pergunta do discursante é mais que evidente: estão, sim, todos empenhados em salvar a pele e os cargos.

Blabla 4Projeto? Se em algum momento o tiveram, foi enterrado no exato dia em que, com vista à eleição presidencial, nosso guia assinou a Carta aos Brasileiros. O documento despejava uma pá de cal sobre o ideal que, por mais de vinte anos, havia norteado o partido. Sem choro, nem vela.

Alcançada a presidência, ele e os seus deram adeus definitivo aos princípios, à ética, ao comedimento, à fidelidade, à virtude. Que não nos venha agora com esse ar estupefato de quem não entende o que está acontecendo. O homem sabe muito bem. Afinal, a guinada não ocorreu ao tempo dos sumérios, mas apenas uma dúzia de anos atrás. E o instigador é o próprio, exatamente esse que hoje se surpreende com as consequências dos próprios atos.

Blabla 5Analisando mais atentamente a fala do Lula, vê-se que ele confessou, sem se dar conta, que o «projeto», fosse qual fosse, fracassou. Conclamar correligionários para «criar novo» significa que o antigo não deu certo. Ou não?

Blabla 2Nosso demiurgo orgulha-se de nunca ter lido um livro sequer. Em virtude dessa lacuna, não deve saber que, antes dele, outros já tentaram erguer casa nova sobre alicerces podres. Tivesse usado parte de seu tempo para se instruir, saberia que é obra impossível.

Os cem dias de Napoleão, durante os quais o imperador caído tentou reconstruir a glória estilhaçada, se extinguiram na derrota melancólica de Waterloo. A Comunidade de Estados Independentes, erigida sobre as cinzas da União Soviética, gorou: teve duração efêmera e se desmanchou no ar. A história está repleta de exemplos do mesmo naipe.

Blabla 7O melhor que nosso guia poderia fazer é sair de cena. Com o dinheiro que tem e os ricos amigos que lhe restam, não terá dificuldade em levar vida de luxo e opulência nalgum paraíso tropical.

Quanto menos aparecer, melhor será. Para ele e para todos nós. Que siga o exemplo daquele aliado que ele qualificou de homem incomum. Quem? Ora, distinto leitor, falo do senhor Sarney.

Desde que o maranhense se afastou da política, sumiu do radar. Vive tranquilo, sem risco de ser alvo de condução coercitiva a Curitiba.

Quem avisa amigo é.

3 pensamentos sobre “Criar novo

    • Distinta leitora,

      Não se conhece com certeza a identidade do primeiro a pronunciar a frase «après moi, le déluge» – depois de mim, que venha o dilúvio. Alguns atribuem a paternidade ao rei Luís XV; outros, a Madame de Pompadour, sua amante. Nunca se saberá. O fato é que a expressão ainda corre o francês atual. Usa-se para demonstrar total desinteresse pelo que poderá suceder (com os outros, naturalmente).

      Voltando à vaca fria, andei refletindo sobre a frase do Lula. A honestidade me obriga a admitir que ele não quis dizer o que disse. Explico.

      O homem tem pouca intimidade com palavras. Conhece aquela meia dúzia de termos básicos, indispensáveis para uso diário, mas não vai muito além. Repete às vezes o que ouve, sem penetrar adequadamente o sentido de cada palavra. Como ninguém ousa contradizer padim, ele persevera.

      Tendo a acreditar que, quando falou em «criar novo projeto», ele quis, na verdade, convidar os correligionários a repensar a sacola de argumentos. O parco traquejo no manejar da língua levou-o a usar «projeto» por «estratégia».

      Ao fim e ao cabo, traduzida em português claro, a frase deveria ter sido: «precisamos encontrar nova estratégia».

      No entanto, como dizem os juristas, «verba volant, scripta manent». O que foi dito já voou como bolha de sabão. O que ficará para sempre é o que os jornais transcreveram.

      Portanto, os membros do «instituto» que tratem de «criar novo projeto». Seja lá o que isso queira dizer.

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