À mesa dos tiranos

José Horta Manzano

Monsieur Christian Roudaut, jornalista francês, lançou recentemente um livro com o título “À la table des tyrans” (À mesa dos tiranos). Baseada em pesquisas e entrevistas, a obra expõe os hábitos alimentares de meia dúzia de autocratas do século 20, tanto nas refeições particulares de todos os dias quanto nos banquetes com pompa e convidados de marca.

O chinês Mao Tse-tung, o alemão Adolf Hitler, o centroafricano Jean-Bedel Bokassa, o soviético Josef Stalin, o romeno Nicolae Ceaușescu e o iraquiano Saddam Hussein são os dirigentes analisados.

Numa interessante retrospectiva, o autor revisita os banquetes suntuosos de Bokassa, o curioso vegetarianismo de Hitler, a comida pseudorrevolucionária de Mao, as bebedeiras de Ceaușescu, os aterradores jantares de Stalin, ocasiões em que, a depender dos humores do chefe, qualquer assessor podia sair dali direto para um campo de concentração na Sibéria. Ou pior.

Monsieur Roudaut chega à conclusão de que, na hora das comidas, o denominador comum entre todos eles é o medo. Acometidos da mesma paranoia que castiga todos os tiranos, tinham medo de ser envenenados. Alguns dispunham de provadores que experimentavam o prato antes do chefe. Stalin, por exemplo, abria pessoalmente suas garrafas de vinho, pra garantir que ninguém pudesse introduzir nada ali dentro. Bokassa, o africano, sempre evitou contratar cozinheiros de seu país, preferindo os europeus. Hitler, sabe-se lá por que, não tinha provadores, mas provadoras.

O autor constata também que todos os autocratas analisados, sem exceção, viveram períodos de insegurança alimentar. Cinco deles, enfrentaram a fome já na infância. Quanto a Adolf Hitler, os primeiros anos se desenrolaram sem problemas; foi na mocidade que o dinheiro faltou e a fome apertou. A organização de banquetes com tudo de bom e de melhor parece ser, para todos eles, uma compensação dos momentos de privação. É como se tomassem uma desforra sobre o passado.

A população dos países cujos tiranos são retratados no livro atravessavam um período de penúria generalizada – chegando à insegurança alimentar – na época em que os autocratas estavam no poder. Posteriormente, alguns desses países se safaram, como a Alemanha e a Rússia. Outros continuam mergulhados em miséria. São países em que problemas estruturais não permitem acabar com a fome crônica. No Brasil, sabemos o que isso significa.

Não sei se nosso presidente terá passado por privações na infância. Seu banquete de Dia das Mães com picanha a 1800 reais o quilo tende a responder que sim.

Quem viver, verá

José Horta Manzano

O marco simbólico dos 100 dias que faltam para a «Copa das copas» (*) acaba de ser transposto. A ocasião foi propícia para um balancete. O resultado parece não ter sido brilhante.Estadio 1

O site LanceNet, especializado em futebol e, marginalmente, em outros esportes, andou verificando matérias publicadas por jornais europeus. Não são lá muito lisonjeiras.

Numa certa altura, o site diz:
Interligne vertical 14«O britânico The Times trouxe uma entrevista com Jérôme Valcke em que o secretário-geral da Fifa fala da preocupação da entidade em relação à organização da Copa. O diário cita o caos na sede do próximo Mundial e diz que esta pode ser a pior Copa do Mundo.»

Eta coisa desagradável de ler, não?

E tem mais:
Interligne vertical 14«Outros empecilhos para o Mundial citados pelo jornal são a queda de apoio ao evento por parte dos brasileiros e a possível revolta popular à época do torneio, além da distância física entre as 12 sedes brasileiras. A publicação diz que os cerca de 3,6 milhões de torcedores esperados para a Copa sofrerão para chegar aos jogos por terem de trafegar “desde a Floresta Amazônica até a dominada pelo crime São Paulo”.»

São Paulo dominada pelo crime! Vejam, senhores, a imagem que estamos transmitindo do Brasil que, um dia, foi habitado por um povo cordial.

Li outro dia uma frase maldosa, daquelas que não deixam de ter sua dose de verdade. Na montagem fotográfica, nossa sorridente presidente aparece em primeiro plano. Como pano de fundo, a maquete de todos os luxuosos estádios que ― imagina-se ― estarão prontos para o campeonato mundial. No rodapé da charge, a frase que choca: «Se seu filho adoecer, leve-o a um dos estádios da Copa». Para não chocar mais, renuncio a reproduzir aqui a ilustração.

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(*) «Copa das copas»

A expressão não é minha. Foi bolada ao molho do informal Ministério do Marketing, a mais preciosa entre as numerosas pastas que assessoram a presidência do Brasil. Resta esperar que não entre para a História como expressão de mau agouro. Há precedentes.

Prestes a fazer sua primeira (e última) travessia do Atlântico, o ultrassofisticado Titanic foi saudado como «the unsinkable ship», o navio insubmersível. Sabemos como terminou.

No início da Guerra do Golfo (1990), Saddam Hussein deu ao conflito o epíteto de «Mother of Battles», mãe de todas as batalhas. Sabemos como terminou.

Melhor parar por aqui. Sai, azar!

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