José Horta Manzano
Li estes dias que o Brasil decente está indignado com as manifestações de «desagravo» que o partido dominante tem feito em favor dos condenados no mensalão.
Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Não sou santo, assim mesmo ando meio desconfiado. É muita esmola pra pouca sacola.
Estamos entrando em período de campanha eleitoral. Não precisa ser marqueteiro nem cientista politico para entender que não seria boa ideia atiçar a antipatia de estratos da população já tradicionalmente hostis à atual elite política. Portanto, a lógica mais elementar ensina que quanto menos se falar no assunto, melhor será.
Qual seria, então, a razão desse auê que estão promovendo? Tiro no pé? Suicídio político?
Artimanha para convencer as massas de manobra não pode ser, que essas não precisam ser conquistadas: já faz 12 anos que comem na mão do governo. O que há então por detrás disso?
A impressão que fica é a de que o topo da cúpula havia ga-ran-ti-do aos mensaleiros que nenhum mal lhes poderia acontecer. Nunca, jamais, em tempo algum. Mas não deu certo. Mesmo fora dos planos, aconteceu. E agora?
Para acalmar os encarcerados, alguma ação teve de ser tomada à atabalhoada. Manifestação pública de «desagravo» é apenas a ponta do iceberg. Como todos sabem, a parte visível dessas montanhas de gelo que derivam no oceano corresponde a 10% do volume total. A manifestação pública é somente a parte visível. O grosso do mimo há de estar abaixo do nível da água. Pode-se imaginar o que seja, mas não dá para enxergar até onde vai.
Ainda assim, sobra uma pergunta: por que tanta preocupação em não melindrar anjos caídos, com mandatos cassados, em fim de carreira, sem futuro político?
Não me parece incoerente crer que, caso os prisioneiros se sintam abandonados pelos antigos companheiros, podem até ter a indelicada ideia de botar a boca no trombone e contar algumas verdades incômodas. Os pequenos (e grandes) segredos de bastidores que essa gente deve conhecer não caberiam na lista telefônica.
Por essa linha de raciocínio, não é absurdo qualificar esses «desagravos» como a parte visível de um grande cala-boca entre parceiros.