Era uma vez… José Wilker

Wilma Schiesari-Legris (*)

A primeira vez que vi o José foi quando ele fez o papel do arquiteto, na peça de Arrabal O arquiteto e o imperador da Assíria, montada pela primeira vez no Brasil em 1970.

A peça começou no Teatro Ipanema, com direção de Ivan Albuquerque. O elenco era formado por Rubens Corrêa e José Wilker.

Não foi no Rio que assisti à peça, mas no TBC, em São Paulo, numa matinée de domingo. O ator José Wilker havia chegado ao teatro no mesmo momento que eu, como um hippie, vasto chapéu feito de retalhos de couro ― provavelmente adquirido na feira artesanal da Praça da República ― e uma calça branca boca de sino de cintura baixa.José Wilker 1

Foi num cenário deslumbrante feito de retalhos de jornal, engolindo aquele palco de alto a baixo, que pressenti estar na presença de um enorme ator.

Jamais, durante aquele espetáculo, poderia imaginar que ele pudesse entrar também na minha vida. Explico melhor. Nos anos 70, minha melhor amiga da época, colega de escola, foi viver com ele. Um casamento de dez anos, do qual tive notícias unicamente através das cartas que me chegavam, primeiramente em São Paulo e, depois de 78, na França.

Pois bem, foi dentro dos envelopes que acompanhei a vida de ambos, que habitavam um apartamento muito simpático, no Jardim Botânico, que lhes fora alugado através da atriz Debora Duarte.

Estive uma única vez naquele lugar e o que mais me impressionou foi uma coleção de LPs, que precedeu a outra, de 4.000 filmes em videoteipe. Aquilo era um templo de cultura: os discos enfileirados ocupavam uma estante que dava a volta num cômodo amplo e os livros abarrotavam as prateleiras de outra sala.

Depois os vi aqui em Paris. Foi em 1979, atravessando um corredor do metrô na estação Trocadéro, de onde voltavam, de mãos dadas, de uma festa do Partido Socialista, quando Giscard ainda era o presidente da França. Dali, seguimos até a minha kitinete, e o José nos ofereceu, ao meu marido e a mim, um de seus livros, que ele dedicou assim:

Interligne vertical 12Para Wilma e Pierre,
Com carinho, meu primeiro livro a atravessar o Atlântico.

E assinou. Era Em algum lugar fora deste mundo, o título do livro e a situação.

Minha amiga estava grávida e desconhecia o seu estado. Quando eles souberam o que os esperava, o José também ficou grávido e dentro dos envelopes jamais havia alusões à vida artística de ambos, dois atores de muito sucesso na ocasião. Eram sempre cartas adoráveis, longe das luzes da ribalta e dos estúdios de filmagem, com fotos da minha amiga envergando uma linda barriga, depois substituídas pelas imagens da Mariana que crescia. Guardei-as todas, até ela se mudar de casa.

Um dia a sua vida se partiu e a minha amiga partiu também, instalando-se no Leblon e levando adiante a educação da pequena, até que a nossa amizade também murchou, me deixando órfã, assim, até hoje.

José Wilker 2Quando José Wilker esteve em Paris em 2007 para presidir o Festival de Cinema Brasileiro, foi condecorado com altas distinções tanto pela França como pelo Brasil.

O festival também fazia uma homenagem ao José, que esteve ali presente durante alguns dias. Sempre na plateia, eu também estive lá e tomei coragem para conversar com ele numa daquelas noites.

Será que ele se lembraria de mim, depois de mais de 35 anos sem nos vermos? De quando lhe preparei ovos fritos com linguiça, tudo o que havia na geladeira de casa?

Falamos de muitas coisas na ordem e na desordem dos meus pensamentos. Havia muito tempo que minha melhor amiga saíra de sua vida e, agora, da minha.

Foi quando ele me disse que Mariana, morando com ele, estava sendo formada pelo Carlos Diegues para ser roteirista do filme deles. José tinha o peito estufado ao falar da filha, agora interessada menos por psicologia e mais por arte. A sétima!

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

Hoje soube que José Wilker morreu. Constatei que deve ter partido feliz, pois ele mesmo, grande epicurista, dizia do bem que faz um bom vinho e o amor de uma mulher.

Deixa órfão o cinema brasileiro, os palcos cariocas e os estúdios de televisão. Deixa infelizes todos os que o amaram.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora