Myrthes Suplicy Vieira (*)
Não costumo me envolver em polêmicas ideológicas, mas meu desconforto com as recentes campanhas de ódio contra Érika Hilton por sua alegada incapacidade de representar “todas as mulheres” ultrapassou qualquer limite de tolerância.
Essa turma que se indispõe de forma rancorosa e desrespeitosa com a condução de uma mulher trans à presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher não é a mesma que vive falando de meritocracia? Pois então que se compare o curriculum de atuação legislativa e comprometimento permanente com as lutas sociais de afirmação da dignidade feminina de Érika Hilton com o de outras parlamentares, especialmente as de direita/extrema-direita. Quantas e quais apresentaram projetos de lei nesse sentido desde que assumiram seus mandatos e com quais resultados? Quantas e quais vêm se destacando no combate à misoginia, aos abusos e deboches dos movimentos Incel e Red Pill, ao número alarmante de casos de feminicídio, à discriminação, perseguição e morte de pessoas LGBTPQIA+ e à exclusão de mulheres negras, pobres e periféricas? Quantas e quais atuam junto ao poder público para defender salários iguais para homens e mulheres nos mesmos cargos, o direito a creches, à inclusão e atendimento especializado de crianças neurodivergentes ou com necessidades especiais, a aulas de educação sexual nas escolas, à proteção de crianças e adolescentes contra influenciadores digitais que fomentam a adultização, o estupro virtual e o constrangimento público que leva muitas meninas ao suicídio?
Pode ser ignorância minha, mas não tenho notícia de ninguém de direita eleito para cargos no legislativo municipal, estadual ou federal que tenha um perfil tão combativo quanto o de Érika. E, quando se misturam argumentos de ordem ideológica, política e religiosa para se posicionar contra o protagonismo de mulheres trans, a coisa desanda de vez. Não tenho nada contra que mulheres católicas ou evangélicas fundamentalistas acreditem que Deus ordena que as mulheres sejam submissas a seus maridos, que tratem o sexo apenas como forma de reprodução ou que vejam como seu único papel social o de cuidar da casa, do marido e dos filhos – desde que se sintam confortáveis com essas limitações e não queiram estender a proibição de lutar por autonomia e pensar com a própria cabeça a outras mulheres de outras fés ou simplesmente não-religiosas.
A bíblia cristã conta a estória do nascimento da primeira fêmea a partir da extração de uma costela de Adão. Ora, se entendida como simples parte do corpo e da essência anímica masculina, deriva-se logicamente a necessidade de toda mulher resignar-se ao papel de dependente física, intelectual e emocionalmente de seu provedor e a obrigação das mulheres de se mostrarem eternamente gratas e submissas a quem lhes garante proteção e sustento. Mas o que a bíblia cristã não conta – e está registrado na tradição medieval judaica – é que a primeira mulher de Adão teria sido criada a partir do mesmo barro que o gerou e ao mesmo tempo que ele. Tendo existência própria, Lilith, a primeira mulher de Adão, teria passado então a reivindicar independência, igualdade de direitos e a se rebelar contra a obrigatoriedade de estar sempre por baixo durante a cópula. Adão, inconformado com tanta insubmissão e rebeldia de sua parceira, teria então se visto obrigado a pedir ao criador uma companheira mais “domesticável”. Percebendo seu “erro”, o criador teria então acedido, criando Eva como figura hierarquicamente inferior ao homem e decidido expulsar Lilith do paraíso – a qual acabou se tornando um demônio noturno, que ameaça homens solitários que não se curvam à sua sedução e arranca os fetos do ventre das mulheres grávidas.
Consequentemente, cabe a cada uma de nós decidir qual figurino simbólico nos atende melhor: cidadã de segunda classe oriunda de um pedaço do corpo masculino ou mulher diaba sedutora, que não abre mão da própria autonomia e dos próprios desejos.
Já defender que uma pessoa só pode ser considerada mulher exclusivamente do ponto de vista biológico – isto é, ser portadora de útero e ovários, ter cromossomos XX – é um posicionamento infinitamente mais difícil de ser sustentado racionalmente. Simone de Beauvoir já defendia na primeira metade do século 20 que ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Mesmo que você não concorde com essa compreensão filosófica do feminino na cultura, aceitar reduzir-se a um fenômeno meramente orgânico equivaleria a deixar voluntariamente de se enquadrar na categoria de ser humano. Afinal, se todo o aparato psíquico feminino construído a duras penas em contraste ou complementariedade ao masculino e a forte opressão do condicionamento social a que somos submetidas desde o nascimento fossem desprezados, nada separaria fêmeas humanas de vacas, galinhas ou cadelas, não é mesmo?
Dizem que as pessoas só mudam quando se cansam – e, falando apenas em meu nome pessoal, acredito que as mulheres brasileiras que se orgulham de já terem desenvolvido pensamento crítico estão simplesmente exaustas de dar murro em ponta de faca. Junto-me a Caetano para cantar com fervor: “Vaca profana, põe teus cornos pra fora e acima da manada…dona de divinas tetas derrama o leite bom na minha cara e o leite mau na cara dos caretas…”
