Nunca fui de ter heróis. Os meninos da minha infância se encantavam por tipos como Mandrake, Super Homem, Batman. Eu achava muito mais divertido ler as aventuras de Frajola & Piu Piu, Pato Donald & seus sobrinhos, Pernalonga & Holtelino Tlocaletla.
Como se vê, todos os personagens daquele tempo eram importados dos EUA. Aliás, o Grande Irmão do Norte é país carente de heróis. Como nem sempre os teve à mão, inventou como pôde. De tanto buscar o herói perfeito, desembocaram num Trump, veja você, encarnação da carência americana: o homem forte, viril, que, para impor sua vontade, esmaga quem lhe estiver pela frente. O mocinho que sempre vence os índios, nem que seja com bomba atômica.
Até outro dia, eu tinha grande admiração pelo juiz Moraes, do STF. Me pareceu o homem providencial, aquele que surge no momento certo. A tarefa não era caçar índios, evidentemente, mas dar um jeito no galinheiro e mandar para a cadeia aquela curriola que vinha ameaçando nossa ordem e nosso progresso, e que tinha ousado preparar um golpe de Estado. Que pretensão…
Deu tudo certo no final: o chefe da quadrilha e todos os asseclas foram julgados, condenados e, em maioria, encarcerados. E isso se deve, em grande parte, à mão firme de doutor Moraes, que não soltou as rédeas enquanto não viu o dramalhão chegar ao fim. Se o Brasil se livrou daquele bando de ignorantes presunçosos, o juiz relator do processo merece um agradecimento especial.
Quando o governo americano (chuchado pelo inefável Bananinha, filho do ora encarcerado Bolsonaro) aplicou a doutor Moraes & digníssima esposa os raios e as calamidades da Lei Magnitsky, achei que era tremenda injustiça. Fiquei imaginando como é que os dois, expulsos do mundo digital como Adão e Eva do paraíso, iam se virar sem cartão de crédito? Me deu pena. De bom grado, teria emprestado meu cartão ao casal, desde que se comprometessem a não gastar muito, que é pra não estourar o teto.
O tempo passou, os raios e as calamidades da Magnitsky se foram, tudo voltou ao normal.
Ultimamente, fiquei (ficamos todos) sabendo que o maior estelionatário de que este país tem notícia havia sido preso. A história completa de suas peripécias talvez nunca se fique sabendo. Alguns fatos são conhecidos, no entanto. A firma de advocacia da digníssima esposa de doutor Moraes mantinha um contrato de 129 milhões de reais(!) com o banco de propriedade do estelionatário. De tão estratosférico, o valor suscita desconfiança. Madame jura que se tratava de contrato real, que cobria serviços prestados e a prestar. Acredita quem quer.
Mas isso não é tudo. Há forte suspeita de continuados contactos pessoais e telefônicos entre o estelionatário e doutor Moraes. Este nega. Mas as evidências o acusam. A ver.
E pensar que quase ofereci meu cartão a esse casal! Com todos aqueles milhões no bolso, quem precisa de cartão? Tem de fazer como em comédias americanas, em que, na hora de pagar a conta do jantar, o protagonista tira um vistoso maço de notas do bolso. E ainda deixa cem dólares de gorjeta.
Agora fica a dúvida para pensar em casa. Aquele que foi herói um dia, mas que já tinha uma longa folha corrida que ninguém conhecia, pode deixar de ser o herói que foi? Em outros termos: pilhado no erro, o antigo herói perde seu status?

Lembra de Demóstenes Torres, secretário de segurança, promotor, senador, durão, impoluto, paladino da moral e da justiça , até que foi pego com falcatruas com o contraventor Carlinhos Cachoeira ?. Fez escola para grande parte de nossos governantes.
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Lembro, sim. O mandato dele foi cassado por falta de decoro. ´Perdeu o foro especial e está inelegível até 2027.
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