Desde a primeira vez que ouvi alguém dizer que os animais têm o potencial de nos tornar mais humanos não me ocorreu nenhum estranhamento: era uma verdade que eu já carregava comigo há um bom tempo. Quem já teve ou tem contato diário com um cachorro ou gato, dentre outros bichos, sabe instintivamente que eles nos ensinam a ser mais compassivos, tolerantes e respeitadores das diferenças.
A palavra “humano” tem sido associada desde sempre a uma postura de altruísmo, compaixão e preocupação com o bem-estar do outro. A verdade inescapável é que nunca foi assim. Em tempos de abandono da noção de bem comum como os que estamos vivendo, preciso esclarecer que por “mais humanos” entendo apenas a possibilidade de nos tornarmos mais próximos da nobreza de alma dos animais.
Venho tentando me abster de comentar o caso do cão Orelha dada a abundância de análises e comentários feitos na esteira da estupenda comoção que provocou. Embora os mais diversos ângulos desse caso tão emblemático da involução da racionalidade humana já tenham sido abordados, permanece na minha cabeça a pergunta: por que estamos nos tornando cada vez mais predadores recreativos?
Que tipo macabro de prazer pode ser derivado dos uivos de dor, da respiração agonizante, do cheiro de sangue, do barulho de ossos se quebrando, da visão da carne macerada em urina e fezes? Nos jogos virtuais, pode-se metralhar, esfaquear, esmagar o corpo de adversários sem estar exposto a nenhuma dessas sensações. Será que algo muda no psiquismo do agressor quando isso acontece na realidade? Ele se concede tempo para recuo e arrependimento quando se dá conta do horror contido na cena? Ou será que sua sensação de poder absoluto sobre a vida e a morte de terceiros vulneráveis só se exacerba? A catarse violenta o libera do tédio de sua existência, aplaca o desprezo por sua própria insignificância?
“Às vezes, é preciso não compreender” é a única resposta que posso dar a mim mesma a todas essas questões. Essa frase, roubada de Ana Verônica Mautner, que foi minha professora na faculdade de Psicologia, deixa claro que o esforço de buscar uma explicação, por mais “científica” que seja, anula por si só o impacto psicológico profundo de tentar conceber o inconcebível. Por isso, para justificar minha crença de que os animais podem, de fato, nos tornar mais humanos, só posso fazer referência aos aprendizados que acumulei convivendo com minhas cachorras ao longo dos últimos 23 anos.
Com a primeira, uma sheepdog amorosa, aprendi a abraçar minha curiosidade e deslumbramento com os fenômenos do mundo natural e com a incrível diversidade da fauna humana. Na etapa final de nossa convivência, a mais gratificante, pude aprender na prática o valor terapêutico da interação humanos x animais em casos de depressão e ansiedade: ela passou a atuar ao meu lado como “terapeuta canina” para atendimento de pacientes de instituições de acolhimento de crianças com deficiências motoras/mentais e de idosos carentes.
Com a segunda, uma bernese de olhar filosófico, aprendi a contemplar o que está além dos sentidos, a meditar sobre minhas motivações conscientes e inconscientes e a rever meus conceitos pessoais de lealdade e insubmissão pacífica. Também me ensinou o preço a pagar pela serenidade de espírito, pela não-invasividade e pelo respeito à dignidade de toda criatura.
A terceira, uma golden brincalhona e destrambelhada, me mostrou como o caos pode ser criativo. Abandonar-se voluntariamente às distrações como forma de reciclar energias, dissolver tensões através da quebra de regras obsoletas de bom comportamento, encontrar no inesperado motivos para se alegrar mesmo nos períodos mais difíceis foram outras das importantes lições que aprendi com ela.
A quarta e a quinta, vira-latas resgatadas das ruas, representaram o maior desafio à minha imagem de competência como adestradora: latidos frequentes, destruição de móveis e objetos de estimação, confrontação agressiva (por medo) com outros animais. Com elas desaprendi a paciência, mas aprendi que a qualidade da energia de nossos companheiros de quatro patas é sempre complementar à que emana de seus tutores: quanto mais desequilibrados somos/estamos, mais desordenado e turbulento será seu comportamento no cotidiano.
A sexta, outra vira-lata abandonada já prenhe, literalmente despencou do nada na minha vida. Em menos de um mês me vi envolvida nos cuidados de oito cachorros: ela e sete filhotes endiabrados. Posso dizer que, mesmo assim, minha atual companheira é um presente precioso de São Francisco. Com ela, estou fazendo um curso intensivo de pós-graduação na arte da delicadeza no trato com tudo e todos. Extremamente mansa, sem arroubos passionais nas caminhadas e muito silenciosa (cheguei a achar que era muda), ela vem me ensinando que, se você deseja calmaria na vida, ofereça antes a sua própria calmaria interna.
Não pretendo com esses relatos moralizar a questão da abordagem e posse responsável de animais de estimação. Como disse Goethe, “nem todos os caminhos são para todos os caminhantes”. Outro filósofo francês, Henri Michaux, aprofundou esse entendimento ao dizer que “a aprendizagem da aranha não é para a mosca”. Haverá sempre um pitbull matador em meio a labradores inofensivos no imaginário popular. O que quero propor é uma virada para dentro, o exame despudorado de nossos defeitos de personalidade e desvios de caráter. Não vale se apresentar como uma pessoa de bem “incapaz de matar uma mosca” chocada com a brutalidade que vem de terceiros.
Gostamos de nos resguardar da culpa pespegando o rótulo de “psicopata” em quem se esbalda na truculência contra seres indefesos. Lamento informar ao distinto público: somos todos portadores de traços psicopatológicos e, pior, podemos entrar em surto a qualquer momento. Lembre-se sempre: se não somos parte da solução, somos parte do problema.
