Acordo Mercosul-UE: uma boa coisa?

José Horta Manzano

O Acordo de Associação Mercosul-União Europeia começou a ser negociado 27 anos atrás, em junho de 1999, ao tempo em que o Brasil era presidido por FHC. Foi assinado fim de semana passado, num convescote em Assunção do Paraguai que reuniu dirigentes do Mercosul além de Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) e António Costa (presidente do Conselho da Europa).

Durante essas quase três décadas, o futuro tratado permaneceu recôndito, perdido nos escaninhos da pesada burocracia europeia reforçada pela cacofonia sul-americana. Agora, mesmo assinado com discursos ufanistas e bandeiras festivas, a peregrinação da papelada ainda não chegou ao fim. Falta ser referendado pelo Parlamento de cada país membro da UE e do Mercosul. São mais de 30 assinaturas, cada uma requerendo discussão, voto, e todo o tralalá. Só depois de assinado pelo último parlamento nacional, entrará o tratado em vigor. Enfim.

“Carne de gado” é expressão caída em desuso. Há de ser consequência da hipocrisia que se alastra nestes tempos em que o sem teto virou “cidadão em situação de rua” e a favela se tornou “comunidade”. Uma vez banida a desagradável expressão que evoca bois cortados ao meio sendo carregados no ombro de portadores vestidos de branco, como se se buscasse acentuar a imagem sanguinolenta do espetáculo, hoje convém dizer “proteína animal”.

Pois é justamente essa “proteína”, assim como produtos agrícolas exportados pelos sócios do Mercosul que botaram medo no consumidor europeu. Se a conclusão do tratado recém-assinado tardou, foi em consequência desse nó. As autoridades europeias sabem que as regras que estipulam o que é permitido (e o que não é) não são as mesmas dos dois lados do Atlântico.

Na França, ao se referirem à carne importada de Brasil e Argentina, os agricultores costumam dizer, com desdém “bœuf aux hormones” (boi com hormônios). A mesma desconfiança se aplica a produtos agrícolas, dado que, na América do Sul, a quantidade de diferentes pesticidas permitidos é maior que na Europa. Até certo ponto, é surpreendente que, apesar desses bloqueios, a UE tenha finalmente consentido em assinar o tratado.

Em artigo desta segunda-feira, Mafalda Anjos, escritora portuguesa, considera que “as ameaças de Trump ajudaram que [a Europa] caísse nos braços da América Latina”. Pode até ser, embora me pareça uma explicação meio romanceada.

Já na Suécia, país sem grandes pretensões agropastoris, autoridades se manifestaram pela publicação “Dagens Industri” e aplaudiram contentes o acordo. Para eles, trata-se de “uma vitória para os países do mundo livre”. E acrescentam que “Numa época em que os países se voltam para dentro e a cooperação internacional é questionada, a UE e a região do Mercosul escolhem outro caminho. Um caminho caracterizado pelo comércio em vez do protecionismo, pela cooperação em vez da divisão e pelo crescimento em vez da estagnação”.

Me parece uma esperança enorme! Mas acho que os suecos têm razão. Mesmo se o acordo (ainda) não é perfeito, sempre pode ser modificado. De todo modo, mais vale um acordo imperfeito que acordo nenhum. Isso assume especial importância num mundo instável em que o nosso está se transformando.

Nesta ordem mundial que está fazendo água, os pré-náufragos que somos precisamos encontrar algum pedaço de madeira resistente ao qual nos agarrar.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.