Myrthes Suplicy Vieira (*)
Já ao acordar, você sente um fio de suor escorrendo lentamente do seu couro cabeludo, percorrendo toda a extensão dos fios de cabelo da sua nuca, pingando e se espraiando pelo pescoço. De lá, ele se junta a outros fios de suor que escorrem da fronte e das têmporas e vai aos poucos formando um rio caudaloso que invade o peito, o espaço entre os seios, escorre pela barriga, desce pelas axilas, costas, braços e pernas. Em poucos minutos, seu corpo vira um pântano pegajoso que faz suas roupas grudarem na pele e começarem a exalar mau cheiro.
Você entra no chuveiro, na vã esperança de encontrar um mínimo de alívio. Mas descobre logo de cara que de nada adianta optar por uma chuveirada gelada porque parece que seu corpo a entende como provocação: tão logo você fecha a torneira, ele revida e a transpiração amazônica retorna a todo vapor. Outra descoberta que você faz segundos após sair do banho é que parece que seu corpo não vai ficar enxuto nunca mais: o simples esforço de esfregar a toalha na pele ou de se inclinar para enxugar os pés já detona a volta de uma atividade desenfreada das glândulas sudoríparas. Só lhe resta deitar-se nua em um quarto escuro, com o ventilador ligado, e permanecer imóvel por pelo menos quinze minutos. Esqueça o perfume e o creme hidratante: parece que qualquer produto adicionado à pele cria uma barreira térmica que tapa os poros e multiplica a sensação de calor.
Assim que você se levanta novamente para colocar a roupa, a sensação é a de que faz mais de um ano que você não toma banho: seu corpo já está melecado de novo. Inútil voltar para o chuveiro, uma vez que o ciclo vai se repetir inexoravelmente. Mesmo inconformada, você se veste com as roupas mais leves possíveis e tenta se concentrar nas tarefas do dia. Se o trabalho é fazer a faxina e depois preparar o almoço, você transpira como se estivesse fazendo crossfit numa academia lotada e sem ar condicionado. Se o trabalho é de ordem intelectual, seu cérebro simplesmente se recusa a obedecer a comandos: as células nervosas já entraram em curto e a conexão entre Tico e Teco cai a cada 10 minutos mais ou menos.
A irritação só faz crescer ao longo do dia. Sua fome evapora. Todos os seus órgãos internos parecem ganhar uma dose extra de sensibilidade: seu pulmão joga a toalha de puro cansaço por ficar puxando o ar quente; seu estômago dói caso você ingira algo um pouco mais substancioso e a náusea sobe ao seu esôfago tão logo você sente o cheiro de comida quente; seu fígado entra em colapso com qualquer alimento gorduroso e seu intestino se solta minutos após você ter ousado comer algo mais condimentado.
As emoções se descontrolam. O barulho e a luz incomodam, fazendo você querer se isolar. Qualquer estímulo imprevisto, seja um telefonema de telemarketing ou uma discordância casual de pontos de vista, tende a servir de gatilho para uma crise nervosa. As sensações de cansaço, tontura, dor de cabeça, dor nas costas e peso nas pernas fazem você se sentir com 90 anos de idade e sua aparência desgrenhada a leva a acreditar que é indigna de afeto.
Por volta das 4 horas da tarde, você olha pela janela e percebe que se anuncia uma tempestade daquelas e que, provavelmente, se isso acontecer, você vai ficar sem luz devido à queda de árvores sobre a rede elétrica. Falta de luz leva à falta de água pelo colapso das bombas, o que significa que não haverá outro banho à vista até o final do dia ou até o dia seguinte. As nuvens cor de chumbo e o vento violento avisam que é preciso fechar as janelas, mas como? Não dá nem para imaginar como será possível respirar num ambiente totalmente fechado quando a sensação é de já estar com a cabeça enfiada dentro de um forno aquecido. Você reza para que a temperatura despenque tão logo o temporal acabe, mas suas preces são solenemente ignoradas: do solo aquecido sobe um vapor de água quente e a sensação de mormaço fica ainda pior.
Mais à entrada da noite, a temperatura se estabiliza por volta dos 28/30 graus e segue caindo lentamente, chegando aos 21/23 graus por volta da meia-noite. A pergunta, então, passa a ser: quem consegue dormir confortavelmente com todo esse calor? Mesmo descartando as cobertas, o mais provável é que você acorde ainda de madrugada mergulhada em uma poça gigante de suor, que toma conta até dos travesseiros.
Exagero? Pode ser que sim, mas aprendi que muitas vezes é preciso exagerar para ser entendida. Só quem passou pela experiência do verão em terras brasileiras na última década pode dizer se esse relato cru retrata ou não a realidade. Certamente, não se trata de um relato totalmente isento: além de se referir a sensações eminentemente femininas, admito que ele é reflexo de um provável trauma meu de infância. Nasci num mês de fevereiro e fico esbaforida só de pensar no calor que qualquer recém-nascido era obrigado a enfrentar naquela época. Para quem não sabe, o costume era colocar no bebê primeiro uma camisetinha pagão para absorver a umidade da pele, por cima vinha um macacãozinho de um tecido mais encorpado que cobria os pés (ou, pior ainda, eram colocados sapatinhos de lã) e, na sequência, o bebê era enrolado num cueiro, com os braços presos para baixo. Inacreditavelmente, aquele infeliz temaki gigante era acomodado no berço, coberto por uma mantinha de lã. Como se não bastasse, não raras vezes as janelas do quarto do bebê eram mantidas fechadas, just in case…
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
