Myrthes Suplicy Vieira (*)
Eu tinha cerca de 18 anos. Com a arrogância típica dos que ainda não haviam sofrido perdas importantes, construí uma frase de efeito para impressionar meus amigos: “Se as pessoas pudessem se odiar com a mesma liberdade interna com que amam, o mundo seria um lugar melhor”.
Acreditava piamente que a diminuição da hipocrisia social seria libertadora, na própria medida em que se abria automaticamente a possibilidade de o outro retrucar e apresentar sem pudor suas próprias ‘verdades’, mostrar outras perspectivas comportamentais, expor diferentes visões de mundo que resultassem em maior acolhimento das diferenças. Sabia que havia o risco de o insultado causar uma dor ainda maior naquele que houvesse dado início à divergência, mas me parecia que valeria a pena autorizar-se a fazer uma profunda faxina interior e livrar-se dos próprios preconceitos, medos, ilações indevidas e ressentimentos. Só não contava então com o surgimento de uma inovação tecnológica que permitisse que os haters se escondessem atrás de uma tela, anônimos e aspirando à impunidade. Para que minha tese de então funcionasse, compreendo agora, era preciso que o embate se desse presencialmente, olhos nos olhos.
Mostrei a frase a um amigo, que era um famoso ator de cinema, teatro e televisão. Durante uma entrevista, ele a utilizou todo orgulhoso para marcar seu posicionamento contra a censura. Foi um Deus nos acuda. A polarização que se sucedeu abriu meus olhos para a inconsequência última da mensagem. Descobri o óbvio: odeia-se, quase sempre, aquilo que nos perturba e nos assusta por existir também dentro de nós. E pouquíssimas pessoas têm estrutura emocional flexível o suficiente para digerir certas verdades que tentamos esconder a qualquer preço.
Coragem aliada à transparência, essa era a mensagem pretendida. Não a mera expressão exibicionista de desgosto, repúdio. Hoje assisto aterrorizada à expansão irreprimível dos ódios gratuitos, da oposição ferrenha a qualquer pessoa que possa nos colocar limites, do gabar-se de ter a coragem de dizer o que todo mundo pensa, mas não ousa comunicar, sem medo das consequências da própria verborragia iconoclasta. Da petulância de julgar indistintamente e acusar sem provas qualquer um que se transforme em obstáculo para a implementação de nossos projetos mais secretos.
O cenário de final de feira é tão nauseabundo que me resigno a inverter a lógica da primeira frase. A partir de hoje, passo a afirmar uma crença ainda mais revolucionária e libertadora: a de que “se as pessoas ousassem se amar com a mesma liberdade interior com que se odeiam, o mundo seria um lugar melhor”.
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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