Ingênua que sou, talvez até mais do que a própria velhinha de Taubaté, sempre acreditei que os nobres parlamentares eleitos para as duas casas do congresso nacional eram representantes da vontade popular. Ao menos eu votava tendo essa crença em mente.
Tolerei diversas vezes a inação dos presidentes da Câmara e do Senado, acreditando que não era mesmo o momento certo de pautar o impeachment do ex-presidente, dadas as terríveis contingências internas e externas causadas pela pandemia de covid. Fiz de conta que não percebi a tragédia da atuação em longo prazo das bancadas da bala, do boi e da bíblia, acreditando que o novo governo eleito teria forças e credibilidade para decretar o fim de tantas excrescências legislativas. Me irritei com a conduta misógina, racista e fundamentalista de figuras emblemáticas da atual composição do Congresso, mas deixei para lá acreditando que elas seriam punidas pela própria Casa, uma vez colhidas as abundantes provas de falta de decoro parlamentar.
Ultimamente, no entanto, eles não cansam de superar minhas expectativas mais pessimistas e de me causar perplexidade dia sim, outro também, com muitas de suas recentes decisões, sempre tomadas “na calada da noite” (desculpem o jargão, coisa de velha mesmo) e sem que elas tivessem passado por comissões especializadas ou discussão ampla com setores organizados da população.
Embora 72% dos brasileiros tenham repudiado o tarifaço de Trump e sua tentativa de intervir nas deliberações da mais alta corte brasileira, 53% tenham se manifestado a favor da prisão de Jair Bolsonaro e 55% se dizerem contrários à anistia dos golpistas de 8/1, nossos ínclitos parlamentares acharam legítima a iniciativa de obstruir a pauta de votações do Congresso, como se sua principal função legislativa fosse a de proteger aliados de sua causa ideológica ou defender interesses próprios em detrimento de causas importantes para a população, como a isenção de imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais. Além de pretenderem desconhecer as estatísticas e não se deixarem abalar diante da crescente imagem negativa do Congresso (que rivaliza com a do Judiciário e a do Executivo, diga-se de passagem), as recentes manifestações de rua serviram para evidenciar que eles não se envergonham de tomar a vontade da parte tenebrosa do rebanho bolsonarista-raiz como a do todo da população brasileira.
Juro que tenho me esforçado para entender os gestos kafkaescos dessa turma, de prestar continência à bandeira americana, apoiar as atuais e futuras sanções aos ministros do STF, não compreender o significado exato do conceito de soberania nacional e não perceber nenhuma consequência negativa do tarifaço imposto pelo mito-mor da extrema-direita mundial para a manutenção de seus próprios empregos e recuperação da economia, mas confesso que está sendo muito difícil, quase impossível, não ceder ao desejo de dar umas boas palmadas em seus traseiros flácidos, como faria sem pestanejar qualquer boa mãe latina.
Vou pedir ajuda espiritual a São Benedito, Santo Expedito e Santa Rita de Cássia das causas milagrosas, para voltar a acreditar que todo esse nonsense pode ser superado em breve, preferivelmente antes das próximas eleições. Se não der certo, prometo sair à rua com cartazes de apoio à internação obrigatória de toda essa gente alienada. No fim, como mostrou Machado de Assis, é bem possível que eu me junte a eles voluntariamente no hospício e até acabe por liberá-los, já que estatisticamente não passo de minoria da minoria da população brasileira.
Como dizia um amigo meu, não sei se sou eu que estou certa e eles errados ou se eles é que estão certos e eu me engano redondamente, mas, em última instância, por ser uma em meio a milhares, sei que sou eu que preciso mudar e me adaptar. Que os anjos e santos me ajudem a voltar a apostar cegamente na força da democracia brasileira. Amém.
(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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