Djin, djan, tchn

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Ainda não sei ao certo como grafar essa onomatopeia. Algumas vezes o som sai mais parecido com djin e outras como djan ou tchn. Só sei que é automático: toda vez que eu me condeno por alguma coisa – como ter esquecido um compromisso, ter derramado o café ou deixado a comida queimar, perder a cabeça e gritar com minha já assustada cachorra – produzo sem querer esse som.

Estou falando de um estalo de língua involuntário, que lembra mais ou menos aquele tapa na testa que sinaliza esquecimento, vergonha ou arrependimento. Uma voz interna repete: “como você foi fazer isso?”, “como você é idiota, atrapalhada e teimosa”, “você já está velha demais para ainda não ter aprendido autocontrole”.

Acontece também quando quero demonstrar lamento por ter recebido uma notícia triste, quando alguém me nega alguma coisa ou me acusa de algo injustamente, ou ainda quando assisto a alguma reportagem sobre guerras/genocídios, fome, violência contra minorias ou a estupidez de algum governante ameaçando cortar verbas para a educação, cultura, saúde ou assistência social – ou, pior, tentando impor um retrocesso em direitos humanos conquistados a duras penas. Ultimamente, como todos bem podem imaginar, a frequência desses estalos tem sido tão alta que no final do dia minha língua parece estar em carne viva.

Fico sempre extremamente curiosa para saber se mais alguém tem essa mania, ainda que não ouse perguntar pelo medo de estar constrangendo a pessoa ou de ela achar que eu penso que ela é louca. O mais perto que já cheguei de descobrir se há um equivalente desse tique nervoso entre nós ou em outras partes do mundo foi ao ver o famoso tsc, tsc, tsc, facilmente encontrado em gibis, principalmente americanos. Não sei por que esse jeito deles de grafar o som precisa ser repetido três vezes – deve ser por necessidade de enfatizar a discordância, a incompreensão ou por causa da típica mania de grandeza que eles têm, sabe-se lá.

No meu caso, o “djin” ou “djan” ou “tchn” acontece uma única vez a cada lembrança ou sensação de desalento. De qualquer maneira, me parece que a semelhança termina aí. Acredito que o “tsc” elevado ao cubo sinaliza mais propriamente a condenação de terceiros, enquanto meu estalo único indica no mais das vezes autorrecriminação e só eventualmente tristeza ou falta de esperança.

Mas, você pode estar se perguntando, que importância tem isso? Nenhuma, admito. É só a vontade de saber se já posso começar a frequentar as reuniões dos Neuróticos Anônimos ou se alguma outra alma perturbada pode querer me fazer companhia.

Essa coisa de sons onomatopaicos como grafados nas diferentes culturas me intriga desde sempre. Não entendo por qual razão nós juramos de pés juntos que o pato faz “quá, quá, quá” enquanto os americanos e ingleses acham que na verdade ele faz “quack, quack”. Para mim, esse seria logicamente o som de um pato com soluço, não é verdade? O mesmo se aplica ao “au, au” ouvido pelos brasileiros versus o “woof” (que, para mim, é o latido exclusivo de cães de grande porte) ou o “bark” ouvido pelos falantes da língua inglesa.

Outro dia, ouvindo um pássaro cantando claramente “bem-te-vi”, fiquei me perguntando como estrangeiros decodificariam esse som. Corri para o Google e descobri que eles o chamam de “kiskadee”, embora o som traduzido ao pé da letra desse algo como “I saw you well”. Que maluquice! Só falta agora descobrir que o “tsc, tsc, tsc” seja, na verdade, o meu “djin” ou “tchn”, como diriam os cariocas.

Da mesma forma, nunca consegui entender como alguém pede socorro urgente gritando “au secours”. Até terminar de pronunciar a expressão, a vítima já morreu, não é mesmo? É bem verdade que o “help” é mais direto e rápido quando comparado ao nosso “socorro”, mas que se há de fazer? Somos prolixos por natureza.

Isso tudo me ocorre em paralelo quando constato que hoje em dia se deve escrever “ensino a distância”, sem o acento. Para mim, duas frases com significado diferente poderiam ser escritas dessa forma: 1) Eu ensino [o conteúdo] a distância [entre dois polos], e 2) Eu ensino à distância [de longe].

Aliás, dentre todas as regras impostas quando da reforma ortográfica elaborada para aproximar o falar do português brasileiro e o português de Portugal, as duas que mais me incomodam desde sempre são a de “à distância” sem crase e o “para”, do verbo parar, igualmente sem acento – isso sem mencionar que é preciso colocar o chapeuzinho no verbo pôr para diferenciá-lo da preposição. Lembro que no primeiro dia de vigência da nova norma a Folha de São Paulo escolheu como chamada principal a frase: “Passeata para a Avenida Paulista”. Ela poderia ser interpretada tanto como passeata em direção à Avenida Paulista quanto como passeata que interrompeu o trânsito na mesma avenida. Como distinguir entre elas?

Bom, por falta de um assunto mais estimulante, paro por aqui. Se uma pessoa misericordiosa achar por bem se manifestar em meu apoio, e criar coragem para me dizer que ela também passa os dias estalando a língua sem querer, vou ser eternamente grata. Já basta a desesperança de não ter dinheiro suficiente para retomar minha terapia.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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