Fuck you, Musk!

Brasil: A primeira-dama insulta Elon Musk
Tribune de Genève, Genebra, Suíça

José Horta Manzano

“A função dela é dormir comigo!” – lançou uma vez um conhecido político cearense, então candidato à Presidência, quando lhe perguntaram qual era a função de sua mulher. A boutade, proferida bem antes do Movimento #MeToo, rendeu umas poucas críticas apagadas e acabou ficando por isso mesmo. Frases desse naipe, naquele tempo, não eram ainda vistas como crime de sexismo.

Os tempos mudaram, é verdade, mas não a ponto de virar o mundo de cabeça pra baixo. Frases como a do político, pronunciadas hoje, haviam de lhe valer aborrecimento. O #MeToo botou freios a manifestações públicas de masculinidade brutal. E é melhor assim.

“Fuck you, Musk!” – foi a inacreditável frase pronunciada pela primeira-dama(!) da República do Brasil, diante de um microfone num meeting. Dizem que as primeiras palavras que se aprendem de uma língua estrangeira são os palavrões. Pois imagino que dona Janja esteja deslumbrada com a primeira lição da língua de Shakespeare. Recomendo que passe urgentemente para a segunda lição a fim de enriquecer seu vocabulário.

Se ainda estivéssemos no tempo dos castigos corporais, seria o caso de se esfregar pimenta malagueta nos lábios da primeira-dama. A sociedade tem evoluído. Não se chamam mais os pais de senhor e senhora, é verdade, mas o avanço social também não é tão rápido assim. À mesa, entre a comida de sal e a banana, ainda não é costume soltar frases graciosas do tipo “Vai te fo***”.

Se não convém fazer esse tipo de gracinha entre quatro paredes, menos ainda num discurso público, aberto, sem filtros, sem saber a que ouvidos vai chegar. O fato de a frase ter sido pronunciada em inglês não embala as palavras num mistério só accessível aos iniciados. Bem ao contrário, facilita a difusão pela mídia mundial.

Durante quatro anos, Bolsonaro muito nos envergonhou, a nós que vivemos no estrangeiro e que fomos obrigados a aguentar insinuações e risadinhas a cada vez que ele escorregava e soltava uma das suas. Quando Lula voltou ao Planalto, eu já imaginava que não ia fazer um governo fantástico, mas pelo menos esperava que não nos envergonhasse como o capitão.

Falsa esperança! Com as falas que refletem seu ranço antiamericano, tem conseguido se colocar sempre do lado errado do tabuleiro. Em vez de procurar se juntar aos melhores, prefere se amaziar com China, Rússia, Irã, Venezuela, Cuba, Nicarágua – enfim, com todas as ditaduras que há pelo mundo.

Não bastasse isso, sua mulher, que não recebeu mandato de ninguém para exercer função política ou governamental, põe-se a dar palpites (públicos) em assuntos variados, geralmente com opinião clivante. E agora, com o palavrão de ontem, subiu ao cume da montanha. É o cúmulo da desenvoltura irresponsável!

Não morro de amores por esse senhor Musk, mas se trata de um visitante estrangeiro de passagem por nosso país, por ocasião de um evento organizado pelo presidente de nossa República. Cai muito mal a esposa desse mesmo presidente dirigir palavras ofensivas ao forasteiro. Sem contar que já é de conhecimento público que Musk terá cargo ministerial no próximo governo americano.

“Quem nasceu pra tostão nunca chega a milréis”, dizia-se faz um século. “Quem pode, pode; quem não pode se sacode”, dizíamos faz meio século.

É preciso alguém de bom senso soprar ao pé do ouvido da primeira-dama que está na hora de ela se sacudir porque está exagerando e, ao expor sua raiva e seus recalques, acaba prejudicando o próprio marido. E, de tabela, o povo brasileiro.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.