Afinal, somos latinos ou não? Está aí uma dúvida que vem percorrendo o Brasil estes últimos tempos. Acredito que, na origem dessa onda, esteja o inoxidável Donald Trump, com sua guerra declarada contra imigrantes legais e ilegais. Nos EUA, às pessoas originárias de países hispano-americanos, dá-se o nome genérico de “latinos”. Parece que a apelação não se aplica a nós. De qualquer modo, brasileiros nunca fizeram questão fechada de ser considerados “latinos”.
Abre parênteses. Não é tanto que imigrantes sejam nocivos à economia dos EUA, nem que roubem empregos dos americanos. Afinal, costumam executar tarefas que os nacionais recusam. E tem mais: se esses estrangeiros estão lá, é porque trabalham, se assim não fosse, já teriam voltado a seus países. Mas o presidente americano faz esse espalhafato todo porque acredita que livrar-se de imigrantes seja o desejo profundo de seu eleitorado. Seus eleitores podem não ser portentos das ciências, mas sabem contar dinheiro. Ainda que estejam instalados numa fazenda perdida no Meio-Oeste, por certo apreciam poder contar com mão de obra barata dos imigrantes no momento em que precisam. Fecha parênteses.
Eu estava falando de latinidade. No fim de semana passado, um artista porto-riquense cujo nome artístico está longe de ter sonoridades latinas (Bad Bunny) deu shows em São Paulo. Dia seguinte, a imprensa informou que o “Coelhinho Mau” (em tradução livre e não autorizada) tinha incitado o povo brasileiro a reconhecer-se como latino. Enxergar-se como latino depende muito do significado do termo “latino”.
Se, para ser considerado latino, basta ter uma língua latina como língua oficial, o povo brasileiro é tão latino quanto os guatemaltecos, os angolanos e os romenos. Sendo assim, há duas dúzias de “povos latinos” nas Américas, mais uma dúzia na Europa, mais meia dúzia na África.
Se, por seu lado, para ser considerado latino, precisa pertencer a uma suposta etnia latina, aí a coisa se complica. Nem os Romanos, dois milênios atrás, se diziam latinos. Consideravam-se simplesmente Romanos. A nacionalidade do Império Romano não era concedida assim tão facilmente. Portanto, falar em etnia latina exclui muita gente.
Se admitimos que a definição de “latino” depende da língua falada, as coisas se descomplicam. Nesse caso, as Américas contêm vinte e poucos países de fala espanhola, um de fala lusitana (nós), mais alguns intrusos de língua francesa, que não deixa de ser língua latina (Canadá e algumas ilhas caribenhas).
Muitos puristas, por razões que me escapam, preferem excluir a língua francesa da lista de línguas latinas faladas nas Américas. Preferem fazer de conta que há só espanhol e português. Nesse caso, melhor seria falar de América Ibérica, que faz mais sentido.
Os que se entusiasmam com o despertar de nossa latinidade merecem ser informados de que mergulhar no repertório deste ou daquele artista, fosse ele o “Coelhinho Mau”, não significa adotar a integralidade da cultura hispano-americana, e muito menos as músicas que se tocam do México à Patagônia.
Nos cinquenta anos mais produtivos da música popular brasileira – dos anos 1930 aos anos 1980 –, a música latino-americana cantada em espanhol era bastante tocada e apreciada por aqui. Tango, carnavalito, mariachi, bolero, rumba, mambo, valsa venezuelana, cumbia, valsa peruana, milonga, guarânia, cha-cha-cha eram ritmos bastante apreciados, cantados e dançados.
Lucho Gatica (cantor chileno, o Rei do Bolero), José Mojica (tenor mexicano que abandonou Hollywood para tornar-se sacerdote franciscano), Trio Los Panchos (um porto-riquense e dois mexicanos), Pedro Vargas (cantor mexicano), Cantinflas (cômico de cinema) eram conhecidíssimos e vendiam bem por aqui.
Em 1937, Amado Régis compôs a música “O samba e o tango”, que foi gravada por Carmen Miranda. A letra tinha uma parte em português (o samba) e outra em espanhol (o tango), com o ritmo que se alterava no meio da música, variando entre tango e samba. Está no youtube pra quem quiser ouvir.
Dolores Duran (1930-1959), que escreveu letra e música de “A noite do meu bem”, um marco do cancioneiro nacional, não tinha sido batizada com esse nome. Seu sobrenome verdadeiro não era Duran e seu prenome não era Dolores. Foi registrada como Adileia Silva da Rocha. O pseudônimo foi adotado na onda das músicas da América Hispânica, onipresentes naquela época. Dolores, dona de uma bonita voz, cantou samba, samba-canção, muito bolero (em espanhol) e outros ritmos.
Pois veja vosmecê. A profusão de músicas em espanhol daqueles anos não nos insuflou sentimentos de “latinidade” ou de pertencimento à América Hispânica. O “Coelhinho Mau” ainda vai ter de comer muito feijão antes de incutir esse tipo de sentimento a nossa gente.
Logo nós, que estamos há 500 anos olhando para o Atlântico, de costas para nossos vizinhos…

Pingback: – Latinidade | DISCUTINDO CONTEMPORANEIDADES