José Horta Manzano
Você sabia?
Frontaleiro é neologismo que acabo de inventar. Serve para designar pessoas que trabalham num país e residem noutro. Não é sinônimo perfeito de nossa palavra fronteiriço.
Em princípio, os frontaleiros cruzam a fronteira diariamente, ida e volta. Dependendo da distância entre o domicílio e o trabalho, há até quem faça o trajeto quatro vezes por dia. São os que têm tempo de almoçar em casa.
Embora frontaleiros existam em outros pontos do mundo, são fenômeno corriqueiro em certas regiões da Europa: na Suíça, por exemplo. A população economicamente ativa do país é de cerca de cinco milhões de indivíduos dos quais 300 mil são frontaleiros, contingente que atravessa a fronteira duas vezes por dia.
Duas razões principais fazem que a Suíça exerça forte atração sobre as regiões imediatamente vizinhas: os salários helvéticos são mais elevados e a oferta de empregos da vizinhança é baixa.
Durante os últimos anos, o Banco Nacional Suíço se empenhou em manter o valor do franco suíço artificialmente baixo a fim de socorrer exportadores e favorecer a vinda de turistas. Conseguiu seu intento à custa de comprar bilhões de euros. Mas tudo tem seu limite e a hora chegou de tomar outro rumo.
Vendo que não fazia mais sentido insistir nessa política de conter artificialmente a alta do franco, o banco central deixou de comprar euros e abandonou a moeda nacional duas semanas atrás. Permitiu, assim, que a flutuação siga as leis do mercado. A consequência foi imediata: o franco suíço valorizou-se 20% com relação ao euro e a todas as outras moedas. Subiu às alturas e lá ficou.
Nossos 300 mil frontaleiros, que recebem em franco e gastam em euro, abriram sorriso de orelha a orelha: da noite para o dia, tinham recebido 20% de aumento, presente do céu! O salário subiu enquanto as despesas domésticas continuam as mesmas. Maravilha!
Mas tem um porém. Algumas empresas suíças, especialmente as de setores voltados à exportação, passaram a enfrentar grande dificuldade em vender seus produtos que, em 24 horas, se tornaram vinte porcento mais caros.
Os funcionários frontaleiros, conscientes da ameaça que isso representa para seu próprio emprego, estão propondo a seus empregadores – espontaneamente! – uma diminuição de salário. Não fazem isso por compaixão, mas para salvaguardar o emprego.
Não há felicidade perfeita. Às vezes, há que saber entregar os anéis para salvar os dedos.


Adoro neologismos mas fiquei com a impressão de que “frontaleiros” não torna evidente desde o início seu significado. Que tal chamá-los de “transiteiros”?
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Excelente! Adotado. Sabe que isso rende uma análise geo-psicossociológica? Pois veja.
Como estão do lado de dentro, os suíços só veem os forasteiros sem ver a fronteira. Em consequência, fazem abstração da linha demarcatória e qualificam os visitantes de «frontaliers» – os fronteiriços.
Para os visitantes, que cruzam fisicamente a fronteira todos os dias, a linha é realidade tangível. Autodenominam-se «transfrontaliers» – os transfronteiriços.
Já para você, que está longe do palco, a fronteira é mera linha traçada num mapa. Você tende a dar maior ênfase ao ir e vir. Assim, enxerga em cada um deles um «transiteiro».
Interessante, não é?
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