Passaporte vacinal

José Horta Manzano

Até dois dias atrás, vacinação era miragem distante, coisa de país rico. Ontem, o Brasil foi o 52° país a dar início à vacinação, transformando a miragem em realidade. Estivéssemos num contexto menos pedregoso, seria um momento de alegria e de alívio no estilo “agora, vai!”. Infelizmente, o país atravessa tempos estranhos, agressivos, emperrados, emburrecidos. Estamos em fase de demolição, não de construção. É bom tomar cuidado, que é sempre possível despencar um fragmento de parede lá de cima.

Até que o último brasileiro seja imunizado vai levar entre um e dois anos, mas o importante é que, finalmente, a roda começou a girar. Percalços, haverá muitos. É bom não esquecer que temos no Planalto um clã inteiro de Bolsonaros. Desgraça pouca é bobagem, como diz o outro. Um Bolsonaro incomoda muito a gente, dois Bolsonaros incomodam muito mais. E assim por diante.

Na Europa, a vacinação começou faz mais de mês. Pesquisas detectam que, à medida que o programa avança, baixa o número de antivax – aqueles que recusam a imunização. Trata-se de efeito manada virtuoso. Ao constatarem que o amigo, a vizinha, o colega ou a vovó se vacinaram e não sucumbiram, vão-se animando e deixando pra lá conselhos perniciosos como os de nosso sábio presidente. No fundo, fica claro que a aversão à vacina era apenas a face visível de um inconfessado medo de injeção, coisa de criança.

Na Europa, já se discute a criação de um passaporte vacinal, um documento a comprovar que o titular foi imunizado contra a covid. Determinados países exigem que todo visitante prove ter sido imunizado contra a febre amarela, exigência que não choca ninguém, pois não? Imagine agora o quadro. Um país como Israel, que dentro em breve terá vacinado toda a população, não vai querer que estrangeiros infectados reintroduzam o vírus no país. É permitido crer que vão logo passar a exigir que visitantes provem ter sido vacinados.

Mesmo no interior de um país, a questão vai surgir e impactar a circulação das gentes. Passados os primeiros tempos, parte da população terá sido imunizada, enquanto outra parte continuará desprotegida e exposta ao vírus. Companhias aéreas, empresas de transporte, teatros, restaurantes, faculdades não desejam que seus veículos ou seus estabelecimentos voltem a ser focos de infecção. Assim, vão pressionar para a criação de algum tipo de documento que garanta que o titular está imunizado. Estes serão admitidos, enquanto os demais darão com o nariz na porta.

Há que ter em mente uma verdade científica. Quanto mais tempo um vírus circula, mais risco há de ele sofrer mutações. Um dia, uma delas pode bem revelar-se mais contagiosa que as anteriores, como aconteceu na Inglaterra. Pode também surgir uma mutação que provoque quadro ainda mais grave de infecção – atingindo, inclusive, populações mais jovens. São cenários que a Saúde Pública de todo país ajuizado quer absolutamente evitar.

Eis por que, na sociedade pós-covid, nova segregação periga juntar-se às existentes: a discriminação contra os não-vacinados.

A vida dos outros

Carlos Brickmann (*)

Há tempos já se sabe que os estoques de oxigênio líquido na região Norte são precários. Que fez o governo? Aumentou, no final do ano, os impostos de importação. De acordo com a BandNews FM, a alta do dólar já elevara os custos. Com os impostos, um cilindro grande, que custava R$ 1.000, foi para os atuais R$ 1.600. O governo foi apanhado de surpresa? Talvez – mas por falta de atenção.

Houve reunião do Ministério da Saúde em Manaus, descrita com precisão pela repórter Malu Gaspar na revista Piauí de janeiro. Um dos momentosos temas em debate foi a vida sexual do governador de São Paulo, João Doria. Frase de Zoser Plata Bondim Hardman de Araújo, assessor do ministro da Saúde: “Doria é o maior pau pequeno, um boiola”.

Faltam leitos, oxigênio? Bobagem. O tema é Doria – pau dele, pau nele.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Cervus et amici eius

José Horta Manzano

Cervus aeger est.
Gravi morbo aeger est.
In campo procumbit, gemens.
Animalia, quae cervi amici sunt, ad eum veniunt.
Bos advenit et dicit,
“Salve, amice!”
Cervum salutans, bos cervi pabulum devorat.
Lepus quoque cervum visitat, et dicit,
“Speramus fore ut convalescas!”
Sic dicens, lepus cervi herbam comedit.
Ovis advenit, et cervi gramina carpit.
Et caper, et equus…
Omnes cervi amici, eum visitantes, pabulum eius comedunt.
Cervus convalescit, sed fame oppressus est.
“Ubi est pabulum meum?” cervus clamat.
“Ubi gramina? Ubi herba?”
Cervus et vitam et pabulum perdit.
Haec fabula docet:
Cave amicos stultos;
Ex eis plus damni quam emolumenti habebis.

O cervo e seus amigos

O cervo está gravemente doente e geme estirado no chão. Os animais, que são seus amigos, vão chegando.

Vem o boi e diz: “Olá, amigo!”. Nem bem cumprimenta e logo devora a comida do cervo.

A lebre também vem visitar e diz: “Esperamos que sares logo!” Dito isso, ela come o capim.

Chega a ovelha e pasta a grama do cervo. E a cabra, e o cavalo… Todos os amigos do cervo, ao visitá-lo, comem a comida dele.

O cervo melhora, mas está fraco e varado de fome. Ele exclama: “Onde está minha comida? Cadê a grama? Cadê a relva?” Além de perder a comida, o cervo perde a vida.

Esta fábula ensina que quem se cerca de amigos ignorantes obtém mais perdas que ganhos.

Nota 1
O texto português, fabricado por este escriba, é adaptação livre do texto latino.

Nota 2
Esta fábula foi colhida na encorpada coleção da latinista Laura Gibbs.

Nota 3
Ao ler a fábula, não pude deixar de pensar na corrida de nosso enfraquecido presidente em direção aos amigos duvidosos que ele acredita ter no Centrão. Todos vêm paparicá-lo mas, quando tiverem se fartado no pasto presidencial, o fim do namoro pode ser a inanição.

Gente que virou coisa – 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 2

Há gente que virou coisa. A história registra o caso de alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras de todos os dias. Não são muitos. Aqui está um deles.

 

Macadame
Na virada do século 18 para o 19, o engenheiro escocês John Loudon McAdam (1756-1836) ocupava o posto de administrador das estradas da Escócia.

Os meios de transporte não haviam evoluído muito desde o tempo dos romanos. Em muitos sentidos, haviam até involuído. Enquanto as estradas que partiam de Roma eram calçadas com paralelepípedos, nem todas as que saíam de Londres eram revestidas. Mas o revestimento de paralelepípedo apresentava o inconveniente de chacoalhar os veículos.

Mr. McAdam inventou então um meio bom e barato de calçar as estradas escocesas. Criou uma técnica inovadora que, assentando camadas de pedras de calibres diferentes, permitia revestimento sólido, firme e mais liso. As carroças e diligências podiam rodar sem chacoalhar tanto.

Na falta de nome, o novo revestimento foi chamado com o nome do inventor. McAdam era, e macadame ficou. Embora seja menos utilizado atualmente, o termo aparece em nossa língua desde os anos 1850.

Como curiosidade, note-se que o filme Midnight Cowboy (1969), estrelado por Dustin Hoffman e conhecido no Brasil com o título Perdidos na Noite, recebeu o nome de Macadam Cowboy nos países de língua francesa.

(continua)

Esqueceram de aprender com os erros

José Horta Manzano

Em abril do ano passado, a epidemia de covid começava a assustar o mundo. No entanto, no Brasil, muita gente fina jurava que a doença nunca chegaria ao país, visto que o clima tropical não convinha ao vírus. Era a primeira de uma longa série de patacoadas pronunciadas desde então. A fala da ‘gripezinha’, obra de nosso capitão, veio logo engrossar a série. Aliás, em qualquer série de patacoadas, a participação do presidente é garantia de boas pérolas.

Naquele momento, pouco ou nada se sabia sobre o novo vírus. Na Europa, por uma razão ignorada, a Itália foi atingida mais cedo e mais duramente que os vizinhos. Embora o país conte com estrutura sanitária de alto nível, o súbito aumento no volume de doentes apanhou a todos de surpresa. Hospitais lotados, pacientes em macas nos corredores, cortejos de carros fúnebres circulando na escuridão da noite – foram cenas chocantes que marcaram aquelas semanas.

Primeiro país a sofrer um assalto maior da epidemia, a Itália se defendeu como pôde. A maciça investida do vírus desequilibrou a ação do governo e transtornou a vida dos cidadãos. Toda essa confusão estava ligada à emergência da situação e à inexistência de precedentes. Foi compreensível.

Quando se alastrou com força para os outros países, que já tinham assistido aos dissabores italianos e já tinham tido tempo pra se preparar, o ataque viral encontrou terreno mais organizado. O horror visto na Itália nas primeiras semanas não se repetiu nos vizinhos.

O princípio de que o ser humano aprende com as desgraças não parece aplicar-se, infelizmente, a nosso país. Os erros se repetem e, como é sabido, acarretam as mesmas consequências.

by Kleber Sales

Neste segundo ano em que o planeta vive em função da pandemia e mergulhado nela, o que está acontecendo estes dias em Manaus é um rematado absurdo. É situação surreal, inconcebível, insuportável. Estivéssemos num país africano miserável, ainda passava. Mas no Brasil? Como é que conseguimos chegar a esse ponto de descaso?

Há certamente uma cadeia de responsabilidades, que incluem a direção de hospitais, autoridades municipais, estaduais e federais. No nível operacional, como é possível que os encarregados esperem que pacientes morram asfixiados para só então botar a boca no trombone pra denunciar a falta de oxigênio? Por outra, se denunciaram e não foram escutados, aí o enguiço é feio. Até que nível chegou o grito de alarme? Até o topo? Doutor Pazuello, o mago da logística, é a autoridade máxima. Acima dele, somente o doutor maior, Jair Bolsonaro. Estavam a par da catástrofe anunciada?

Tivemos quase um ano para nos preparar. Somos 200 milhões de almas, com um sistema nacional de saúde que funciona há décadas, com um corpo médico e paramédico de excelência, com indústria que produz os insumos básicos para assistir os doentes de covid. Numa federação como a nossa, não se podem tolerar horrores como os de Manaus. São a negação da solidariedade e da coesão nacional.

Pergunta
A simbólica visita de reconforto a um hospital manauara, que nosso chefe de Estado está programando, foi marcada para quando mesmo?

Gente que virou coisa – 1

José Horta Manzano

Você sabia?

Capítulo 1

Num passe de mágica, Monteiro Lobato criou Emília, a boneca que virou gente. É muito raro ver coisa que se tornou gente. Em geral, a transformação é de mentirinha e só ocorre na imaginação do autor.

No sentido inverso, também há gente que virou coisa. Estou me referindo a alguns personagens que, em geral involuntariamente, cederam o próprio nome a alguma coisa. São nomes próprios que acabaram se tornando palavras comuns.

Silhueta
Etienne de Silhouette (1709-1767) era o alto funcionário encarregado de fiscalizar as finanças da França ao tempo do rei Luís XV. Rigoroso e implacável, granjeou impopularidade por tentar impor reformas que elevavam impostos a níveis confiscatórios.

Para zombar dele, os detratores representavam apenas o contorno de sua imagem, com o miolo vazio, recortado com tesourinha. Com isso, enfatizava-se que se tratava de personagem vazio, como o contribuinte empobrecido, cuja substância tinha sido tragada pelos pesados impostos.

Com o passar do tempo e por extensão, o nome de Monsieur de Silhouette passou a designar também as figuras humanas recortadas em papel, em que se descartava o excesso e se deixava unicamente o miolo. Entre nós, o substantivo comum foi aportuguesado para silhueta.

(continua)

Todo brasileiro é um feriado

José Horta Manzano

Certas pessoas têm o dom de bolar tiradas de efeito, um recurso que não está ao alcance de qualquer um. Não é questão de inteligência, nem de estudo, nem de aplicação: é dom. Quem tem, consegue; e quem não tem, não adianta insistir, que não vai dar certo. Quem é bom nessas artes pode ser chamado de frasista – um bambambã na criação de frases.

O pernambucano Nélson Falcão Rodrigues (1912-1980), conhecido simplesmente como Nélson Rodrigues, foi jornalista, cronista, escritor e dramaturgo. Era excelente frasista. Algumas de suas tiradas ficaram na história. O magistral título deste artigo é de sua autoria.

De sua coleção de máximas, extraí algumas que, a meu ver, se enquadram com perfeição no clima de manicômio que nosso atual governo impõe ao país.

E esta vale como sinistra advertência para a marca que essa malta de desajustados deixará na história.

Vacina em duas doses?

José Horta Manzano

General Pazuello – oficial que, apesar de ostentar três estrelas no galão, funciona como ordenança do capitão – está diante de um problema logístico. Dada sua fama de especialista na área, sua decisão deverá ser correta. Certo? Não sou general nem sou especialista em logística, mas desconfio que ele esteja escolhendo caminho equivocado.

O mundo anda correndo atrás de imunização contra a covid. Muitos querem, mas a vacina é pouca. Os laboratórios não dão conta. Se metade da humanidade tivesse de ser vacinada, seriam 4 bilhões de doses, volume que nem todos os fabricantes somados conseguiriam produzir em tempo razoável. O Brasil então, que dormiu no ponto e não passou encomenda, vai ter de esperar mais que os outros.

A entrega de vacinas prevista para os próximos meses não cobre as necessidades brasileiras. Pfizer e Astra-Zeneca, os principais fornecedores, preconizam que se apliquem duas doses espaçadas por um intervalo de quatro semanas. Revelam que a imunização adquirida após a primeira dose decresce e precisa ser reforçada pela segunda aplicação.

Países ajuizados decidiram seguir a recomendação dos fabricantes. Acreditam que mais vale imunizar corretamente, com duas doses, a faixa mais vulnerável da população para, em seguida, passar à fase seguinte e cuidar dos demais. Outros governos tomaram a decisão de fornecer a primeira dose a um número maior de cidadãos; a segunda dose virá se e quando estiver disponível, ainda que o prazo recomendado de 4 semanas tenha estourado.

Adivinhe por qual caminho doutor Pazuello está pensando optar? Pelo segundo, naturalmente. No papel, fica bonito: um número maior de indivíduos se sentirá protegido; no duro, não terão sido corretamente vacinados, mas pouco importa, visto que sai bem nas estatísticas. No frigir dos ovos, nem os vulneráveis nem os demais vão estar devidamente imunizados. Ao espaçar as duas doses, não se sabe o que pode acontecer. Talvez o efeito da primeira tenha se desmilinguido, o que obrigaria o paciente a receber não duas, mas três aplicações.

Pode ser que o ordenança do capitão ainda mude de ideia, nunca se sabe. Mas acho difícil. Como se sabe, a proteção da saúde dos brasileiros nunca esteve entre as prioridades daquele pessoal.

Covidiot

José Horta Manzano

Do outro lado do mundo, pelas bandas da Austrália, o dicionário de referência se chama Macquarie, equivante ao Houaiss ou ao Aurélio. Diferentemente dos nossos, que são um tanto estáticos, o dicionário australiano demonstra vitalidade.

A cada fim de ano, promove uma espécie de concurso para designar as palavras do ano. Entram na lista palavras novas; mas podem também concorrer palavras existentes, cujo uso tenha aumentado no ano que passou.

Para o ano 2020, entre as vencedoras, aparece o neologismo covidiot, termo que dispensa tradução. O dicionário define como covidiot a pessoa que se recusa a seguir conselhos de proteção da saúde voltados a conter o alastramento da covid, tais como desleixo na distanciação social, participação em ajuntamentos, etc. Para ilustrar o significado, o Macquarie preparou um cartaz com a foto de uma praia lotada.

 

 

Manchete de Brasil247, 10 jan° 2021

Leio hoje que nosso ministro do Turismo, o sanfoneiro que faz fundo musical às falas do chefe, ficou feliz com o que viu no último fim de semana. Comemorou as imagens de superlotação nas praias brasileiras.

Mostrando que é seguidor fiel da doutrina do capo, alegra-se de ver o maior número possível de gente se contaminando. Se possível, sem vacina no horizonte. É isso daí, pô!

Chá de revelação

Eduardo Affonso (*)

Os amigos vão chegando. Alguns, avessos a modismos, não escondem o desconforto.

– Mas precisava mesmo fazer chá de revelação? Antigamente não tinha nada disso.

– Não tinha, tia Cotinha. Agora tem. Os tempos são outros.

Grupinhos se formam pelos cantos, sem ninguém se aproximar muito da mesa de comidas, em cujo centro há uma caixa envolta em celofane. Pelo protocolo – a coisa podia ser novidade, mas já tinha protocolo – comidas e bebidas só serão servidas depois do estouro do balão.

– E tem chá mesmo, ou é só modo de dizer?

– Só modo de dizer, tia. Não é porque é chá que tem chá. Igual chá de cadeira, chá de sumiço.

– Pelo menos uns biscoitinhos eles podiam adiantar, né?

Tia Cotinha estava de dieta, e não tinha interesse em revelação nenhuma. Só e tão somente em poder comer sem moderação, fosse o que fosse, enquanto as atenções estivessem voltadas para outra coisa.

– Sabe que cores vão usar?

– Não faço ideia. Pelo jeito, melhor não esperar nada convencional.

– Convencional é a última coisa que espero aqui.

– Só falta ser bege e dourado, e a gente que adivinhe o que cada cor quer dizer.

Alguém se aproxima da mesa dos salgados, pede silêncio, desembrulha a caixa, e dela salta um balão bege preso por uma fita dourada.

– Não falei que ia ter bege e dourado?

– Já pode pegar os salgadinhos?

– Não, tia, precisa estourar o balão primeiro.

Sobe a música. É “My way”, em ritmo cigano.

– E eu achando que o dourado era o pior que podia acontecer…

– Essa música é enorme e ainda repete. Tem mesmo que esperar até o fim pra pegar a comida?

Como se Deus ouvisse os apelos da tia Cotinha, a música é interrompida ainda na primeira parte, bem no “The record shows, I took the blows / But I did it my way” e uma voz anuncia:

– Dona Cotinha, sendo a senhora a tia favorita, queremos convidá-la a estourar o balão e…

Tia Cotinha não se faz se rogada. Com agilidade inusitada, toma a agulha das mãos do mestre de cerimônias, posiciona-se o mais perto possível dos pães de queijo, se inclina em direção ao balão, e puff! voam quadradinhos cor de chumbo por sobre a mesa de salgados.

Ecoam discretos aplausos e alguém aumenta de novo o som do celular – os Gipsy Kings agora na parte do “I ate it up and spit it out / I faced it all and I stood tall”.

Tia Cotinha se apossa da bandeja antes que outro parente mais afoito o faça.

– Papelzinho cinza significa o quê? – pergunta, com um pão de queijo pela metade, ao moço de terno preto que comanda o evento.

– Cremação. Se fosse enterro seriam papeizinhos roxos.

– Ah, tá.

A sobrinha, prima do morto, só percebe quando o segundo pão de queijo já foi devorado e o resto da travessa está bem embiocado no fundo da bolsa.

– Tia Cotinha!

– Vamos embora, Maria Alice. E no meu, por favor, contrata um bufê melhorzinho, que o pão de queijo tá borrachudo. E nada de cinza e roxo, pelamordideus! Quero púrpura e prata. Púrpura, tá entendendo, Maria Alice? Púrpura!

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Quiproquó

José Horta Manzano

Quiproquó(*), substantivo dicionarizado, é a expressão latina quid pro quo nacionalizada. Em português, assim como nas demais línguas latinas, o sentido original foi mantido. O significado é ‘isto por aquilo’ ou ‘uma coisa pela outra’. A expressão é geralmente utilizada quando há troca acidental e involuntária.

Um quiproquó pode gerar situação cômica ou até uma baita encrenca. Se, na hora da troca de presentes de Natal, você se enganar e entregar ao sobrinho de 8 anos a bolsa de água quente que era destinada à vovó, o quiproquó vai terminar em gargalhadas. Já se você tiver a infelicidade de chamar a namorada pelo nome errado, pode ter certeza de que o quiproquó não vai sair barato.

Aqui do meu posto de observação, estou vendo nascer um quiproquó originado pelas (pobres) palavras presidenciais. Já faz tempo que doutor Bolsonaro clama pelo voto impresso. Embora venha sendo eleito e reeleito por três décadas pelo sitema eletrônico, mostra-se cético quanto à confiabilidade da urna eletrônica. E não perde ocasião para exigir o tal do ‘voto impresso’.

Nas análises que tenho lido, os autores parecem ter entendido que o presidente, movido talvez por impulso saudosista digno de um Itamar Franco, gostaria que tornássemos a votar por meio de cédula de papel, como se fazia nos tempos de antigamente. Os analistas comentam, então, que isso seria um retrocesso, uma tentativa de ressuscitar um passado morto e enterrado.

A mim, não parece ser esse o desejo do presidente. Pela minha decriptagem, ele não está pedindo que a urna eletrônica seja abolida; gostaria que lhe fosse acoplada uma mini-impressora. O eleitor votaria apertando botões, como está habituado. Só que, em vez de ir embora de mãos abanando, receberia, ainda dentro da ‘cabine’, um papelzinho impresso com o nome do(s) candidato(s) escolhido(s). Com isso, imagina o doutor, o eleitor teria certeza de que seu voto foi para o candidato certo.

Cartaz de meados dos anos 1920 que denunciava o ‘voto de cabresto’.

Quando se trata de acompanhar o raciocínio de Bolsonaro, todo cuidado é pouco. Em decorrência de sua mente pedregosa, seu raciocínio tortuoso e seu vocabulário indigente, a tarefa é árdua. Sua fala exige interpretação, como se ele se exprimisse numa daquelas línguas mortas que os linguistas tentam reconstruir. Se o que o presidente deseja é realmente o que entendi, o remédio é complexo e arriscado.

Em primeiro lugar, seria preciso investir uma nota para comprar uma impressora para conectar em cada uma das 400 mil urnas em uso. Se cada dispositivo custar 100 reais, o gasto será de 40 milhões. Sem contar a quantidade industrial de tinta e de minirrolos de papel. E o agravamento do problema de urnas enguiçadas.

Em segundo lugar, a novidade seria porta aberta para a volta do voto de cabresto, enterrado há décadas. Voto de cabresto ocorre quando o poderoso do lugar (prefeito, homem político influente, patrão de usina, fazendeiro ou o que for) intima a seus comandados que votem em tal candidato. Com a urna eletrônica, não há meio de controlar se a ordem foi cumprida. Já quando o infeliz volta com o papelzinho na mão, não tem como escapar: é obrigado a mostrar ao patrão. Caso não tiver votado conforme a ordem, sofrerá as sanções reservadas aos desobedientes.

Talvez, na mente delirante do doutor, seja exatamente essa a ideia – poder controlar o voto dos humildes, seja por via do patronato fiel à ‘causa’, seja pelos bons cuidados da seita evangélica à qual o eleitor está afiliado. Que São Judas Tadeu nos acuda!

(*) Desde que o malfadado Acordo Ortográfico (AO90) entrou em vigor, a palavra quiproquó perdeu o trema (era qüiproquó). Com isso, a lista de armadilhas e de inseguranças de nossa língua engordou. Meus cultos leitores sabem que não se pronuncia kiproquó, mas sim kuiproquó.

Vista a baixa frequência de uso desse termo, os mais jovens, que nunca viram um trema pela frente, não vão ter como memorizar. É permitido crer que, dentro de alguns anos, a pronúncia padrão terá virado kiproquó. A boa notícia é que, até lá, o doutor terá pendurado as chuteiras – uff! Estaremos lidando com problemas novos. Novos?