Reflexões – 2

José Horta Manzano

Fugiu da escola
Em 16 de fevereiro, Bolsonaro esteve em Moscou. Foi recebido por Vladímir Putin. Diante das câmeras, expressou solidariedade com a Rússia. Em seguida, confidenciou o seguinte: “A leitura que eu tenho do presidente Putin é que ele é uma pessoa também que busca a paz.

Exatamente oito dias depois, as tropas de Putin (aquele que “busca a paz”, segundo Bolsonaro), invadiram a Ucrânia, um país independente e soberano. Vê-se que o capitão deve ser péssimo estrategista, visto que é bem ruinzinho de leitura. Devia voltar pr’a escola.

Brics
O capitão está aperreado com a reunião do Brics – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, prevista para junho próximo em formato virtual. Encarregada da organização, a China não fala em cancelamento do encontro. Nem há por que cancelá-lo. Portanto, ele deve ocorrer.

Uma semana depois de Bolsonaro ter prestado “solidariedade à Rússia”, Putin deu sinal verde a seus exércitos para a invasão da Ucrânia. Ao agir assim, tornou-se um pária  e foi banido dos países mais avançados (Europa ocidental, América do Norte, Japão, Austrália). O banimento deve durar por muitos anos.

O capitão está metido numa saia justa.  Precisa ter em mente que ele próprio também está sendo olhado de soslaio pelos dirigentes de países decentes. O encontro do Brics está cada vez mais parecendo um fórum de autocratas confirmados e aspirantes a autocrata. Faltar a uma reunião virtual não pega bem, visto que, salvo uma crise de intestino solto, não há desculpa.

Então, vai ou não vai?

China
O que devia incomodar o capitão é outra coisa. A organizadora do evento é a China “comunista”, que ele escolheu como sua arqui-inimiga favorita. Virtual ou não, participar da reunião é como entrar na casa do inimigo! Será que os devotos não vão se escandalizar?

Até na hora de escolher seu pária favorito ou seu inimigo preferencial o capitão se empepina.

Reflexões – 1

José Horta Manzano

A prestação de solidariedade que Bolsonaro fez à Rússia não me sai da cabeça. Ao fazer a jura de submissão diante de Putin, ele esboçou uma reverência, daquelas que se costumam reservar para a rainha da Inglaterra.

Porque que razão ele pronunciou a frase da “solidariedade”, visivelmente ensaiada? Vamos ver.

Putin é o modelo ideal no projeto que o capitão rumina para si. Para Bolsonaro versão 2022, Trump é o passado; o presente se chama Putin. O dirigente russo é a norma, a referência de tudo o que o capitão gostaria de ser. E de ter!

O ditador russo reina sozinho. Os outros poderes são marionetes, todos controlados por ele. O Legislativo vota as leis que Putin determinar. O Judiciário põe na cadeia quem Putin mandar.

A imprensa livre desapareceu. A Nôvaia Gaziêta, último jornal livre, fechou algumas semanas atrás. Adversários políticos e oponentes ao regime desapareceram: ou foram envenenados ou estão passando alguns anos num simpático campo de reeducação na Sibéria.

A tevê aberta é toda estatal e só conta ao povão a verdade putiniana. Um cidadão brasileiro comum está mais bem informado sobre o que ocorre na Ucrânia do que um cidadão russo comum.

É com esse paraíso que o capitão sonha: ter o poder absoluto, como Putin. E também possuir bilhões de dólares, evidentemente. Igualzinho ao autocrata russo.

Mas nossa realidade tupiniquim é diferente. Na minha opinião, a probabilidade de o capitão realizar seu sonho está próxima de zero. Nem mesmo se, por desgraça, fosse reeleito.

Não é angelismo da minha parte. É que nosso andar de cima é amebóide, uma enguia escorregosa que ninguém consegue apreender. Na minha concepção de “andar de cima”, ponho todos: parlamentares, magistrados, militares de alta patente e civis de alta estatura. Todos estão de olho no dinheiro, sim, mas o instinto de sobrevivência fala mais alto. Todos sabem que, com um Bolsonaro ditador, correriam perigo de ir parar atrás das grades.

O capitão pode (e ainda vai) causar estragos enormes ao país, mas não conseguirá implantar sua sonhada ditadura. Bolsonaro é um saco vazio, sem estofo. Sem ajuda, não pára em pé. Só está lá até hoje porque está sendo escorado.

Ucrânia: o pós-guerra

José Horta Manzano

Um assíduo leitor que se assina Ricardo fez um comentário interessante no artigo Perigo por 100 anos, publicado faz alguns dias. Achei que podia interessar a todos. Publico aqui o comentário e minha resposta.

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Minha resposta
Hitler e Napoleão estão longe de ter causado à humanidade o estrago que essa estúpida guerra de Putin está provocando.

Nenhum dos ditadores belicosos do passado conseguiu a façanha de unir contra si todos os países da Europa como é o caso atualmente. Com a exceção notável da pouco significativa Bielo-Rússia (que alguns dizem ser “a última ditadura da Europa”), Putin conseguiu ressuscitar na Europa inteira o medo do urso russo, que assustou durante séculos, mas que andava hibernando havia 30 anos, desde a queda do Muro de Berlim.

Nenhum dos ditadores do passado conseguiu, como Putin, a façanha de esfomear o povo de dezenas de países espalhados pelo globo. As primeiras vítimas são os duzentos milhões de habitantes do norte da África (Egito, Argélia, Tunísia, Marrocos), que se encaminham para convulsão social em virtude da fome. Como outros países, eles são inteiramente dependentes do trigo da Ucrânia e da Rússia para fazer o pão, principal alimento da região. E esse trigo não chega mais. Quando os estoques acabarem, problemas graves vão surgir.

Quanto à Otan, ela não podia entrar na guerra como cobeligerante, nem muito menos fazer ataque preventivo à Rússia. A Otan é uma organização defensiva, não ofensiva. Foi criada logo depois da Segunda Guerra como contraponto ao Pacto de Varsóvia, que reunia os países que orbitavam em torno da União Soviética. Sempre funcionou como redoma de proteção para os países europeus que estavam fora da órbita comunista. Seu objetivo não é dar o primeiro tiro, mas responder imediatamente a um ataque inimigo. O Artigo 5° do Tratado reza que, se qualquer dos países-membros for atacado, o ataque será considerado como se fosse contra todos os signatários. A resposta, portanto, será dada por todos, em esforço coordenado.

Putin sabe muito bem disso, tanto é que não atacou os países baltas, por exemplo, que são pequenos e aparentemente indefesos. É que os três são membros da Otan. Quem está apreensivo atualmente é o povo da Moldávia, pequena e pobre vizinha da Ucrânia, que tem o PIB per capita mais baixo da Europa, que não é país-membro da Otan nem da União Europeia. No entanto, visto o fiasco protagonizado na Ucrânia pelo antes temido exército russo, dificilmente os generais de Moscou se arriscarão a atacar um segundo país, ainda que Putin esperneasse.

A decepção
A decepção dos peritos militares do mundo todo com o desempenho do exército russo é enorme. Nem mesmo os serviços de inteligência americanos, que costumam ser muito bem informados, previam um fracasso dessa magnitude. (Se previam, não deixaram vazar nada. Ficaram quietinhos.)

Imaginando que a guerra seria curta, a Rússia lançou milhares de mísseis sobre a Ucrânia. Passados dois meses e meio, não conseguiu capturar nenhuma cidade importante, perdeu sua nave-almirante (Moskvá, o encouraçado capitânia), perdeu mais algumas naves importantes e centenas (talvez milhares) de tanques. Quanto às perdas humanas, as estimações variam entre 15 mil e 30 mil homens e uma dezena de generais. Ainda por cima, o exército teve de abandonar a ideia de invadir e ocupar a capital, Kiev. Um vexame.

Nestas alturas, o estoque de mísseis russos de boa qualidade está praticamente exaurido. Eis por que eles tiveram de reduzir o front e encolher a linha de combate. Abandonaram as amplas ambições iniciais e agora limitam-se ao sudeste da Ucrânia. É exatamente a faixa litorânea que ambicionam tomar, o que incomoda a Turquia, dona do litoral do outro lado do Mar Negro.

Para fazer mísseis de boa qualidade, a Rússia precisa importar componentes eletrônicos dos Estados Unidos. Mas, ai! O comércio está embargado! Nada se vende, nada se compra. Mercadoria americana não entra mais na Rússia. Portanto, nada de míssil de boa qualidade. Os soldados de Putin às vezes lançam algum foguete de segunda categoria, tipo “buscapé”, que acaba atingindo edifício de habitação ou cemitério.

Daqui pra frente, a Rússia entra obrigatoriamente em declínio. Ainda que se aproxime da China, será a “sleeping partner” da sociedade, a parceira secundária do gigante asiático. Viverá na dependência dos caprichos de Pequim.

O futuro
O grosso das exportações russas é constituído de matérias primas: gás, petróleo e trigo. Todas as exportações estão sob crescente embargo dos países ocidentais. Dentro em pouco, as trocas comerciais entre a Rússia e o Ocidente cessarão e hão de permanecer em estado de hibernação por dezenas de anos. A China, por mais boa vontade que tenha, não será capaz de absorver sozinha a produção russa.

A Ucrânia receberá (já está recebendo) bilhões de euros e dólares para a reconstrução. Levará décadas, como foi o caso da Europa após a Segunda Guerra. Pontes, viadutos, aeroportos, estradas de rodagem, redes de saneamento e de eletricidade, edifícios públicos e privados terão de ser refeitos.

A desminagem do país – principalmente dos campos cultivados, onde o trator, a colhedeira e o arado podem roçar uma bomba e matar quem estiver por perto – será um problema a enfrentar com atenção. Vai levar muitos anos para desminar as terras aráveis.

A Rússia terá de se virar sozinha. Materialmente, não foi bombardeada nem destruída, o problema é mais profundo. Os russos terão de cuidar sozinhos de seus demônios. Um flagrante fracasso, como essa guerra de Putin, costuma levar a uma troca de regime. Mas, quando se fala em Rússia, toda previsão é arriscada. Vamos ver no que vai dar.

Por muitos e muitos anos, o país conservará seu armamento nuclear, mas continuará com extrema dificuldade para comprar ou desenvolver armas de alta tecnologia.

A consequência maior é que o medo do urso vermelho voltou à ordem do dia na Europa e na América do Norte. Desde já, no quesito imagem, a Rússia perdeu feio.

Estocando vento

José Horta Manzano

Era 25 set° 2015. Dilma discursava num evento patrocinado pela ONU. Como de costume, falava de modo confuso, com frases que nem sempre tinham começo, meio e fim. Talvez até quisesse dizer algo, mas a mensagem não passava, como se entre ela e o ouvinte houvesse uma parede. Algum som passava, mas as frases chegavam rateando.

Lá pelas tantas – pra quem quiser recordar, é fácil encontrar no youtube –, Madame afirma que o Brasil tem hidroelétricas e que a água é de graça. Diz também que o Brasil também tem vento, mas que não dá pra estocar vento.

Ah, pra quê! Ela foi alvo de uma avalanche de críticas, sarcasmos e gozações. Jornais publicaram charges, o fruteiro da esquina deu risada, o motorista de aplicativo comentou com um sorriso maroto, até o porteiro do condomínio tirou uma casquinha e abanou a cabeça.

Somada ao fato de haver afirmado dois anos antes que acreditava no ET de Varginha, essa da estocagem do vento selou a entrada de Madame no panteão das personalidades excêntricas. (Dizem que um rico que age fora dos padrões normais é excêntrico, mas um pobre nas mesmas condições é louco. Que cada um tire suas conclusões.)

Estadão, 12 mai ’22

Mas o mundo gira. Sete anos depois do vento de Madame, parece que os cientistas estão descobrindo modo de armazená-lo. Isso pode ser visto de duas maneiras. Pode-se dizer que não passa de coincidência e que a fala da doutora não tem nada a ver com a descoberta dos cientistas. Pode-se também dizer que Madame era uma visionária com o dom de levantar um problema antes de todo o mundo. Talvez tenha sido inspirada pelo ET de Varginha, vai saber.

Agora, que estamos no caminho da solução do problema da estocagem do vento, Madame está 50% perdoada. Para receber absolvição completa, tem de revelar ao país se a ideia foi dela ou se foi sugestão do ET. Depois disso, o nó estará desfeito. Conforme for, passaremos todos a acreditar tanto na estocagem de vento quanto no ET.

Agora, sem brincadeira, tente comparar por um instante a personalidade de Madame com a do capitão.

Têm características comuns. São ambos irritadiços, mandões, incompetentes, ignorantes, presunçosos, desbocados, sectários. Devem ter outros pontos em comum que não me ocorrem neste momento.

Mas têm diferenças importantes. Da boca de Madame, não me lembro de ter ouvido palavrão soltado em público. Já da boca do capitão, cruz-credo! Quando ele se prepara para falar, é bom tirar rápido as crianças da sala. Ele próprio não se dá ao respeito, razão pela qual não pode esperar pelo respeito de ninguém. Do jeito que se comporta, o capitão é tão respeitado quanto o pinguço que, acotovelado no bar da esquina, resmunga palavrões.

O grande estrago que Madame provocou no país foi de ordem econômica, com sua “nova matriz”, que já veio bichada e com prazo vencido. Mas a economia, sabe como é, estraga-se hoje, amanhã está consertada. Não se lembra como o Plano Real deu um jeito, num piscar de olhos, numa inflação que fermentava havia 50 anos?

Já o estrago provocado pelo capitão é bem mais profundo. Os milhares de quilômetros quadrados de floresta destruída não crescerão nunca mais. Ele acelerou o caminho da desertificação de nosso território. As armas distribuídas a torto e a direito não voltarão ao fornecedor; parte considerável delas vai irremediavelmente terminar nas mãos do crime organizado. As terras da União doadas a grileiros, agora com escritura passada em cartório, não voltarão ao cofre da viúva – são nacos de nosso território ofertados aos amigos do rei, e perdidos para sempre.

A lista é longa. Poderia citar dezenas de exemplos. O problema é que, a cada linha que escrevo, vai batendo o desânimo. Paro antes que venha a depressão.

Conclusão
Acho que até a doutora, apesar da ignorância, da mandonice e da incompetência seria menos nociva para “essepaiz” que o capitão. Se este blogueiro (que jamais votou no PT) tivesse de escolher entre os dois, não hesitaria um instante.

Perigo por 100 anos

Bomba da Segunda Guerra não explodida encontrada em canteiro de obras

José Horta Manzano

Na quarta-feira 11 de maio, Herr Olaf Scholz, o chanceler alemão (sucessor de Angela Merkel) fez uma declaração um tanto desanimadora.

Começou lembrando que “Todos os que vivem na Alemanha sabem que as bombas que caíram durante a Segunda Guerra Mundial continuam a ser encontradas até hoje e que os alertas continuam”.

Na sequência, foi ao ponto principal e fez uma advertência: “Portanto, é bom a Ucrânia ir se preparando desde já para enfrentar durante 100 anos as consequências desta guerra”.

E completou: “Sabe-se que guerras dessa magnitude deixam consequências de longo prazo. Todas as bombas que estão sendo lançadas agora ficarão muito tempo no solo”.

Um bocado deprimente, a observação do chanceler é desalentadora mas pertinente. Em todos os países europeus que sofreram bombardeios na última guerra mundial, volta e meia se encontra uma bomba enterrada – às vezes profundamente. São artefatos que caíram de um avião, não explodiram, ficaram enterrados, mas, ao menor descuido, podem explodir.

França, Inglaterra, Bélgica, Itália, Holanda – além da própria Alemanha – são países que sofrem até hoje consequências de bombardeios intensos. A guerra terminou faz 77 anos, mas o risco continua elevado.

O grande perigo surge quando se faz uma escavação urbana – para erguer edifício, construir metrô, enterrar cabos elétricos, instalar tubulações. Se uma grande bomba é descoberta, equipes de desminagem são chamadas. As autoridades mandam evacuar os quarteirões adjacentes e os profissionais cuidam de desarmar o artefato.

Calcula-se que o subsolo de Berlim contenha cerca de 3000 artefatos não explodidos. Os berlinenses caminham sobre um barril de pólvora. Infelizmente, acidentes ocorrem. São relativamente raros, mas o risco está sempre presente.

Numa Alemanha cujo território ainda está recheado de bombas que não explodiram e permanecem enterradas, aconteceu um drama recentemente. Foi em dezembro passado, num canteiro de obras perto da estação ferroviária de Munique. As escavadeiras roçaram numa bomba de 250kg, que explodiu e deixou 4 feridos. Até o tráfego ferroviário teve de ser interrompido.

Muitas gerações futuras de ucranianos continuarão correndo o risco de viver sobre um solo minado. E não há nada que o cidadão comum possa fazer. O que está feito, está feito – as bombas e os mísseis não explodidos estão lá e lá vão continuar.

Daqui pr’a frente, a quantidade só pode aumentar. O futuro depende dos neurônios desequilibrados de uma pessoa só: Vladímir Putin.

Nunca ninguém imaginou que um homem sozinho pudesse tomar a humanidade inteira como refém.

Observação
Quando fala em “100 anos”, até que o chanceler alemão está sendo otimista. Se hoje, quase 80 anos depois do último bombardeio, Berlim ainda esconde 3 mil bombas no subsolo, a conta não fecha. Os netos dos bisnetos das crianças ucranianas de hoje ainda estarão pisando em bombas.

Personalidade caricata

José Horta Manzano

Certas personalidades do mundo artístico ou político são fáceis de caricaturar. Outras, um pouco menos. Há os que chamam a atenção por algum atributo físico; há outros que deixam como marca a maneira peculiar de se vestir; outros ainda impressionam por algum comportamento fora dos padrões.

No exterior, os desenhistas têm sido mais assíduos em desenhar charges sobre Bolsonaro do que eram nos tempos do Lula. O capitão não chama a atenção por atributo físico nem pelo vestuário: o que impressiona mesmo são suas ideias, sua grosseria, seus baixos instintos, seu modo explícito de destruir o futuro da terra em que nasceu e do povo que o elegeu.

O leitor estrangeiro pode não ler a mídia brasileira nem assistir ao Jornal Nacional, mas as charges publicadas na mídia local de cada país se encarregam de dar o recado e mostrar a todos quem é o homem que preside o mais populoso país latino.

Nunca encontrei charge suave de Bolsonaro. Todas elas traem a indignação do desenhista estrangeiro, que nada mais faz que botar no papel a revolta dos leitores de bom senso diante do modo bolsonárico de governar.

Aqui está uma seleção de charges colhidas em Oropa, França e Bahia. (Bahia não, era só pra rimar.)

 

by Antonio Rodríguez, desenhista mexicano

 

 

Um Bolsonaro de verdade!!!
by Joep Bertrams, desenhista holandês

 

 

Vou varrer a política… e o meio ambiente!
by Brandan Reynolds, desenhista sul-africano

 

 

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

 

 

O Semeador
by Joep Bertrams, desenhista holandês

 

 

Enquanto isso, no Brasil…
by Kak, desenhista francês

 

 

by Marian Kamensky, desenhista austríaco

 

 

Alusão ao filme de Charles Chaplin “O Grande Ditador”, de 1940.
by Kunturis, desenhista grego

 

 

Oba! Graças à covid, estou conseguindo rapar a floresta amazônica inteirinha!
by Marian Kamensky, desenhista austríaco

 

 

by Plantu, desenhista francês

 

 

Desordem em andamento
(trocadilho em inglês com as palavras Ordem e Progresso)
by Antonio Rodríguez, desenhista mexicano

 

 

Plano Bolsonaro para o Desenvolvimento da Amazônia
Os índios têm terras demais!
by Solal Comics, França

 

 

O Brasil tem que continuar avançando! Feliz ano novo! Boa saúde!
by Vadot, desenhista belga

 

 

Bolsonaro, presidente do Brasil
by Placide, desenhista francês

 

 

Estamos de volta!
(A ditadura pelas urnas)
by Patrick Chappatte, desenhista suíço

 

O imperador do Japão

José Horta Manzano

Numerosos pontos ligam Bolsonaro e Lula, os dois principais concorrentes às presidenciais de outubro. Um ponto importante é o fato de ambos serem homens do passado.

Bolsonaro continua a viver com os pés fincados nos anos de chumbo que o Brasil viveu quando eram os militares que davam as cartas. Ele imagina ressuscitar a ditadura. Aliás, na sua cabeça, não é bem assim – a questão não é nem de reimplantar o sistema que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

De fato, por mais autoritário que fosse o regime daquela época, até que havia certa rotatividade no topo do Executivo. Do 31 de março até a eleição de Tancredo, cinco generais se sucederam no comando da nação.

Na cabeça de nosso aprendiz, não é assim que deve funcionar. Ele imagina ser guindado à cabeça de um regime sem rotatividade, sem alternância, sem mudança. Pretende permanecer no topo sozinho, como um Führer, um Duce, um Conducător, um Lider Máximo. Até a queda final, que pode ser por deposição ou coisa pior. Tudo que sobe acaba caindo um dia. Mas cada um se ilude como pode, não é mesmo?

Lula, nesse ponto, não pensa igualzinho a Bolsonaro. Por ter exercido a Presidência – pessoalmente ou por procuração – durante 14 anos, já perdeu as ilusões. Os quase 600 dias de cadeia lhe ensinaram que, quanto mais alto for o coqueiro, maior será o tombo. Sua parecença com Bolsonaro, em matéria de ligação com o passado, é forte, mas não se pode dizer que sejam idênticos.

Lula, que alguns dizem ser esperto como raposa, não quer (ou não consegue) entender que o mundo mudou. Não estamos mais nos anos 1970, em que ele subia numa caixa de sabão à frente da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, fazia um discurso inflamado para os companheiros, dizia o que lhe passava pela cabeça, e tudo ficava por isso mesmo. Ele ainda não se compenetrou de um fator inexistente à época mas fortíssimo hoje: o politicamente correto.

Nascido nos EUA anos atrás e potencializado por internet e redes sociais, a tendência a se exprimir de maneira politicamente correta impõe linguagem pasteurizada, isenta de palavras e expressões que possam, de perto ou de longe, ser consideradas ofensivas por esta ou aquela categoria de cidadãos.

Outro dia, Lula dircursou numa cerimônia de um partido chamado Solidariedade. (Abram-se parênteses: Este blogueiro acredita que todos os partidos deveriam se chamar Solidariedade. Afinal, ser solidário deveria ser a característica maior de todo afiliado. Fechem-se os parênteses) Lula sabe que muitos, neste país, acalentam o sonho de implantar o semipresidencialismo. No afã de demolir essa ideia que o horroriza, tirou do bolsinho uma metáfora infeliz. Referiu-se ao imperador do Japão de forma depreciativa.

Ato contínuo, uma torrente de críticas desabou. Deputados petistas se sentiram incomodados. Até (ou principalmente) a comunidade japonesa ressentiu-se da menção desairosa.

Sabe-se que história e geografia não são ocupam lugar preferencial nos parcos conhecimentos de nosso guia. Sabe-se que, apesar de ter passado 8 anos como presidente do país, outros assuntos devem ter lhe parecido mais interessantes – afinal, ler e estudar dá uma preguiça! História, geografia e geopolítica ficaram de fora.

Vai aqui um conselho ao Lula. Dificilmente ele lerá estas linhas, mas algum assessor bem-intencionado talvez possa transmitir-lhe a ideia.

Ô Lula! Da próxima vez que vosmicê quiser trazer a imagem de um homem poderosíssimo, use uma figura que não existe, mas que impressiona. Aqui estão algumas metáforas que não vão incomodar ninguém:

Ele age como se fosse o sultão de Samarcanda!

Ele pensa que é o imperador da Quirguízia!

Ele se acha o emir da Mongólia!

Deixo aqui a pista. Seus assessores certamente encontrarão outras variantes, que é pra não bater sempre na mesma tecla.

Aproveite, que conselho meu é grátis e desinteressado. Como dizia um irmão meu, “se é de graça, até injeção na veia”.

Candidatura oficial

José Horta Manzano

Não é todos os dias que uma eleição que só se realizará daqui a 5 meses, num país de importância estratégica próxima de zero, desperta tamanho interesse.

Ou por acaso alguém já viu a grande mídia internacional se interessar por eleições em países tão grandes e tão periféricos como o nosso, tais como Indonésia (275 milhões de habitantes) ou Paquistão (225 milhões de almas)?

No caso brasileiro, há a junção de duas forças antagônicas.

De um lado, está o governo Bolsonaro, com sua procissão de desgraças de alcance mundial: destruição da Amazônia e de outros biomas, aproximação com regimes autoritários ou ditatoriais, tratamento agressivo e insultuoso dispensado a personalidades estrangeiras, gestão catastrófica da economia.

De outro, está o recall do governo Lula. Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar na lenda do Lulinha paz e amor, pai dos pobres e protetor dos desvalidos, fato que, aliás, pouco interesse apresenta fora do país. Porém, visto do exterior, o Lula transmitiu a ideia de estabilidade constitucional, e respeito às instituições. Se foram descobertos muitos casos de corrupção grossa, foi porque a Lava a Jato muito investigou. Desde que ela foi enterrada pelo capitão, é compreensível que a descoberta de peculatos e outras maracutaias tenha ficado prejudicada.

Na torcida para ver o Brasil livre de um governante que incentiva a instabilidade, parece que o mundo torce pela eleição de Lula. Guardadas as devidas proporções, equivale à torcida mundial pela eleição de Joe Biden e cancelamento de Donald Trump.

 

Em inglês (Guardian, Reino Unido)

 

Em francês (Le Monde, França)

 

Em italiano (Il Giornale, Itália)

Em sueco (Västerbotten-Kuriren, Suécia)

Em alemão (Spiegel, Alemanha)

 

Em inglês (South China Morning Post, Hong Kong)

 

Em russo (Krasnaya Vesna, Rússia)

 

Em espanhol (El Mundo, Espanha)

 

Imunidade arcaica

Ascânio Seleme (*)

Nenhum país concede tantas imunidades aos seus parlamentares quanto Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Do grupo de ex-ditaduras do Cone Sul, apenas o Chile está fora da lista de piores num estudo feito em 90 países pelos professores e pesquisadores Karthik Reddy, Moritz Schularick e Vasiliki Skreta.

Os quatro países refletiram em suas leis preocupação que teve origem nas ditaduras, procurando defender os parlamentares da má vontade de um governante de botas.

Na maioria dos países pesquisados as imunidades são limitadas. Na Inglaterra não há qualquer imunidade parlamentar, nem mesmo para o primeiro-ministro. O que deve ser inalcançável pela Justiça é o voto do representante popular, não as suas opiniões e palavras.

O exagero pode significar que não importa o que diga o parlamentar, nada lhe será imputado. Essa é a questão de Daniel Silveira. Alega que a ameaça que fez ao Supremo, aos ministros e seus familiares era opinião e deve ser protegida. Não foi opinião, foi crime e precisa ser punido.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 7 maio 2022.

Apelo

Carlos Brickmann (*)

Bolsonaro faz campanha contra as urnas eletrônicas e deve saber do que fala: sempre teve seus votos clicados em urnas eletrônicas, elegeu-se e elegeu seus três filhos mais velhos. Levanta suspeita de fraude nas eleições de 2018, que o levaram à Presidência. Será que ele sabe algo de que não sabemos?

Lula declarou que a ONU não é levada a sério. Lula também deve saber das coisas. Pois não é que um comitê da mesma ONU concluiu que ele foi vítima de procuradores parciais e de um juiz parcial na Operação Lava Jato?

Um apelo aos dois principais candidatos à Presidência: contem tudo!

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Crônica policial

Fábrica Nespresso nas bucólicas colinas de Romont (Cantão de Friburgo, Suíça),
onde foi descoberta a droga.

José Horta Manzano

A marca Nespresso pertence à multinacional suiça Nestlé, maior grupo de laticínios do planeta e uma das gigantes do ramo alimentício. É interessante notar que as cápsulas de café Nespresso são todas fabricadas na Suíça e, em seguida, exportadas para o mundo todo.

O café, importado em quantidades industriais dos grandes países produtores – Brasil, Vietnam, Colômbia, Indonésia, Etiópia –, é torrificado, moído, preparado e acondicionado numa das três usinas suíças.

A notícia saiu na quinta-feira 5 de maio, mas os fatos podem ser anteriores. Numa das fábricas de cápsulas Nespresso, em meio a sacas de café em grãos, foram encontrados 500 quilos de cocaína “padrão exportação” com grau de pureza de 80%. A polícia foi chamada. Por alto, calcula-se que o valor da carga atinja os 50 milhões de francos suíços – em torno de 250 milhões de reais.

Aberto o inquérito, descobriu-se que a droga estava distribuída em 5 contêineres provenientes do Brasil. Segundo a polícia, trata-se de uma das mais importantes apreensões de droga jamais efetuadas no país.

O que se sabe até agora é que a carga desembarcou no porto de Antuérpia (Bélgica), de onde subiu o Rio Reno de barco até o porto fluvial de Basileia (Suíça). A quantidade de cocaína é tão enorme, que se supõe tenha havido um erro de logística no meio do caminho. O mercado suíço é pequeno demais para tanto pó.

Sem esboçar um sorriso, o porta-voz da polícia suíça informou que em nenhum momento a droga entrou em contacto com o café. O apreciador (de Nespresso) pode continuar degustando sem susto seu café favorito, seja ele Intenso, Volluto ou Fortissio.

Dificilmente se saberá quem despachou a droga e quem era o destinatário. Há sempre muito laranja no meio, o que dificulta chegar aos verdadeiros donos do negócio. É certo que, no meio do caminho, tinha uma pedra. E alguém tropicou. Francamente, com um prejuízo de 250 milhões de reais, alguma cabeça é capaz de rolar.

Quem manda aqui sou eu

by Lezio Júnior, desenhista paulista

José Horta Manzano

Um jornalista italiano do Corriere della Sera entrevistou estes dias Serguêi Márkof. O entrevistado, que foi conselheiro pessoal de Putin de 2011 a 2019, dirige hoje o Instituto de Estudos Políticos de Moscou. Conhece muito bem o ditador.

Quando o entrevistador, curioso, lhe perguntou que critérios Putin adota para escolher ministros, assessores e auxiliares, respondeu: “É simples. Ele põe sempre a pessoa errada no lugar certo. Assim, no final, quem decide tudo é ele mesmo.”

Pode parecer engraçado, mas temos no Brasil um presidente que faz igualzinho. Em cargos importantes, bota sempre gente que não entende do riscado, assim quem acaba decidindo é ele mesmo. Já repararam?

Lembre-se do Pazuello, o “especialista em logística” que, em plena emergência sanitária nacional, cometeu o irreparável: despachou respiradores para o estado errado.

Não se esqueça do Salles, o ministro do Meio Ambiente que se mancomunou com uma máfia de madeireiros marginais.

Tenha em mente o Milton Ribeiro, ministro da Educação até outro dia, que andou metido com venda de verbas oficiais contra barras de ouro.

A lista de incapazes que cercaram (e ainda cercam) o presidente é longa como prontuário de delinquente recidivista.

Ah! O Bolsonaro tem outra característica putiniana. Além de tomar a si todas as decisões, decide mal, exatamente como o russo. Ainda agora acaba de vetar verba para a Cultura, mostrando que continua firme no propósito de perenizar o atraso da nação. Sua decisão foi tão mal tomada quanto a do colega Putin, com sua desastrada invasão do país vizinho, seguida de feroz mordaça na mídia do país.

Tanto o capitão quanto o ditador russo tentam seguir métodos soviéticos em pleno século 21. Não se dão conta de que o mundo mudou. Num universo mergulhado na internet, em que a informação circula, é evidente que métodos stalinianos não funcionam mais.

Ainda dá tempo

José Horta Manzano


Num mundo polarizado como o nosso, tentar se equilibrar em cima do muro pode não ser a melhor solução.


Poucos dias antes da invasão da Ucrânia, quando batalhões russos, em quantidade impressionante, já se amontoavam junto à fronteira, Bolsonaro foi a Moscou prestar reverência ao ditador Putin.

A guerra de conquista prestes a ser lançada não lhe pareceu motivo válido para suspender a viagem nem para acrescentar, de última hora, uma “visita de médico” a Kiev – nem que fosse pra equilibrar a posição brasileira.


 

Solidariedade “à” Rússia (sic)

Uma vez em Moscou, declarou – sem ter sido indagado – que o Brasil se solidarizava com a Rússia. Foi mais um erro monumental provocado por seu inexistente senso de geopolítica – fato raro mesmo entre seus antecessores mais incapazes.

Estivéssemos sob outras latitudes, sua carreira terminaria naquele instante e seu futuro eleitoral estaria comprometido por décadas, talvez para sempre. Mas não estamos sob outras latitudes. As nossas são tropicais.

Estourada a guerra, ninguém exigiu do presidente um posicionamento definitivo. E ele não se posicionou. Ficou, pois, o dito pelo dito mesmo. Ficou cimentada a posição do Brasil: todos nós nos solidarizamos com a Rússia. E ponto final. Pô.

Até certo ponto, é compreensível que o capitão procure amigos aqui e ali. Afinal, ele é rejeitado pelo mundo civilizado, justamente em razão das incivilidades que vem cometendo desde que vestiu a faixa. Parodiando a expressão inglesa “serial killer” (assassino em série), eu diria que nosso presidente é pessoa “serially incivilized” (um incivilizado inveterado).


 

Num mundo em plena turbulência, o Brasil precisa de aliados

Procurar amigos é uma coisa; bater à porta de ditadores ferozes e sanguinários é outra, bem diferente. Em vez de solidarizar-se com autocratas belicosos, Bolsonaro estaria mais inspirado se se dedicasse a aparar as arestas e aplainar as relações com os ofendidos. Os que foram por ele agredidos são justamente nossos aliados e parceiros tradicionais, dirigentes de países com os quais compartilhamos interesses comuns.

Se ele um dia ofendeu a esposa de Macron, ignorar a existência da França não é a melhor solução. Veja o resultado: o presidente francês acaba de ser reeleito para mais 5 anos no Eliseu. Se Bolsonaro não procurar consertar esse deslize, as relações franco-brasileiras permanecerão curto-circuitadas esse tempo todo, o que não é boa coisa.

Se insultou o presidente argentino, afastar-se do personagem não é o melhor remédio. Há que ter em mente que a Argentina não vai se mudar amanhã. Não vai sair do lugar e continuará sendo nossa vizinha pela eternidade.


 

É hora de virar a página dos insultos passados e olhar para a frente

Com a carta de desculpas redigida por Temer e assinada por Bolsonaro, este último conseguiu aplacar a indignação dos brasileiros com as barbaridades proferidas naquele 7 de Setembro de triste memória. Que convoque Michel Temer de novo e lhe confie a missão de preencher as lacunas de nossa diplomacia mambembe! O ex-presidente, que é culto, não é ministro de Bolsonaro nem deve favores ao capitão, saberá encontrar termos contritos mas não servis para expressar uma guinada no posicionamento internacional do Brasil neste momento grave para a humanidade.

Enquanto o destino do planeta se decide nas margens do Mar Negro, nenhum país tem o direito de virar a cara e fazer de conta que não é com ele. O peso populacional do Brasil, se não houvesse outra razão, nos obriga a nos posicionar claramente. Se Bolsonaro não sabe o que fazer – e as palavras pronunciadas em Moscou mostram que não sabe – que tome conselho com quem sabe.

A guerra acabará. Bolsonaro passará. Mas o Brasil ficará. Os brasileiros das próximas décadas não podem ser reféns das más decisões de um presidente pusilânime.

Observação
Na verdade, distorcendo a norma gramatical, o capitão não disse que o Brasil se solidarizava com a Rússia, mas que se solidarizava à Rússia. O fundo foi tão desastrado, que ninguém se preocupou com a forma.

Conservadorismo e defesa da família

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Eu estagiava num hospital psiquiátrico, como parte obrigatória da graduação em psicologia clínica. Uma de minhas pacientes era uma jovem franzina, tímida, na casa dos vinte e poucos anos, que pouquíssimo falava sobre sua vida pregressa. Dado seu mutismo quando questionada sobre as emoções que se agitavam em seu universo interior, era difícil para mim obter informações confiáveis sobre os motivos que a haviam levado a ser internada e que alimentavam delírios religiosos frequentes.

Decidi então submetê-la ao teste de Rorschach para colher subsídios que pudessem determinar a melhor forma de abordar o caso. Esse teste, também chamado de “teste dos borrões de tinta”, consiste na apresentação, em uma sequência padrão, de 10 pranchas com manchas aleatórias, em branco e preto ou coloridas, e a solicitação de interpretação simbólica das figuras formadas – mais ou menos como acontece na brincadeira de identificar formatos nas nuvens em movimento no céu que se pareçam com pessoas, animais ou objetos.

A cada prancha apresentada, ela respondia com uma evidente mistura de curiosidade e medo. Depois de se deter por alguns minutos escaneando visualmente mas em silêncio os detalhes com total interesse, ela se retraía súbita e inexplicavelmente, dizendo: “Não estou vendo nada… só meu pai consegue ver”. O comportamento e a frase esdrúxulos se repetiram ao longo de todo o teste. Cada vez mais intrigada com aquela clara proibição interna de revelar conteúdos profundos, resolvi então reapresentar as 10 pranchas, uma a uma, perguntando: “O que seu pai vê aqui?”

Naquele instante, o psiquiatra que supervisionava o estágio entrou na sala e me lançou um olhar furioso. Como eu ousava alterar as regras do jogo irresponsavelmente, confundindo ainda mais a cabeça da garota? Fiz um intervalo, saí da sala e contei a ele o que estava acontecendo. Expliquei que, como o teste é projetivo, isto é, depende da projeção de percepções, emoções e sentimentos pré-existentes no psiquismo do paciente e que só são liberados quando há autorização da censura interna, eu precisava apostar que ela estaria driblando a própria censura ao assumir as percepções do pai como suas e trazendo à tona os elementos necessários para compreender as razões de sua falta de autonomia. Ele consentiu.

Minha estratégia foi um sucesso. Ela produziu um farto material para investigação, na maior parte das vezes com conteúdo de violência sexual. Entrou num frenesi verborrágico ao entrar em contato com uma prancha em que há uma mancha vermelha, com respingos espalhados sobre um fundo preto, que interpretou em meio a muita angústia como vagina sangrando, penetração violenta, sensação de fragmentação do corpo.

Comecei a escarafunchar o histórico familiar da paciente, na tentativa de descobrir as raízes dessas percepções. Sabia que o pai da garota era pastor de uma igreja fundamentalista cristã e era tido na comunidade como modelo de moralidade exemplar. No entanto, ninguém sabia informar como eram as relações dele no interior da família, com a esposa e com a filha.

Contrastando o material colhido no teste com esses fatos, foi-se revelando aos poucos que a garota não só era vítima aterrorizada de um pai autoritário, que se pretendia também possuidor de moralidade religiosa inatacável, mas havia sido estuprada seguidas vezes por ele e dele havia engravidado aos 14 anos. Forçada a abortar para não manchar a reputação do pai na comunidade, com o silêncio cúmplice da mãe, ela colapsou sob o fardo da opressão sexual e enlouqueceu.

Diagnosticada como esquizofrênica, ela passou a ter delírios religiosos, durante os quais se via como a Virgem Maria, a única pessoa isenta de pecado que poderia aceitar a missão de conceber o filho de Deus, representado pelo pai pastor. A morte forçada do filho também se encaixava à perfeição nesse contexto de autoridade divina inquestionável. Só ele sabia o que era melhor para ela e ela não podia duvidar das intenções e desígnios “sagrados” dele.

Sem o saber, eu havia encostado num fio desencapado em que entravam em curto o horror sexual real e a fantasia da pureza espiritual. Ela se refugiava nas alucinações místicas para escapar da loucura de sua realidade familiar. A partir dali, percorremos juntas toda uma Via Crucis de reinterpretações, avanços, quedas e retrocessos, até que ela se abrisse para a possibilidade de ajuda terapêutica. Esse caso me ajudou a entender não só o papel da cisão esquizofrênica na tentativa de restaurar a coesão do Eu mas também a aprofundar minha compreensão da violência contida na estrutura patriarcal de nossa sociedade.

Agora, com a campanha eleitoral de 2022 já em andamento, constato estarrecida que um grande número de candidatos insiste em apresentar-se ao público como “conservador”, repisando orgulhosamente o tema da “defesa da família” como trunfo eleitoral. Inevitavelmente, o caso dessa jovem esquizofrênica volta à minha cabeça e me força a perguntar: A qual família eles se referem, afinal? À família patriarcal, branca, de classe média/alta, heteronormativa? Àquela mesma família em cujo seio se instala a imensa maioria dos casos de pedofilia, estupro, abuso sexual, perversões e violência doméstica? Àquele tipo de família em que deve haver um abafamento compulsório de casos de homossexualidade e transgeneridade, mesmo que isso termine em suicídio de crianças e jovens?

Se é a esse tipo de família que precisamos voltar para reestruturar nossa sociedade, estamos de fato perdidos. Se ele fosse realmente tão poderoso para gerar harmonia social, convivência democrática e progresso, por que vivemos tempos tão sombrios de ódio e intolerância radical? Quando a esse modelo patriarcal se junta a noção de um Deus Pai todo-poderoso, guardião dos costumes para o alcance de elevação espiritual, não há como vislumbrar um futuro de mínima sanidade psíquica, de respeito às diferenças e de reafirmação da cidadania para o avanço das pautas das minorias.

O foco central da família patriarcal cristã sempre esteve na exigência de pastoreio rigoroso da sexualidade… feminina apenas, é bom lembrar. Segure suas cabras que meu bode vai sair para pastar. O duplo padrão de moralidade sexual do patriarcado continua a se vender como salvação da lavoura nacional ‘against all odds’ e, no atual contexto de direito à “liberdade de expressão” sem limites, deriva muitas vezes para um padrão de masculinidade tóxica que ainda seduz politicamente muitas cabeças jovens.

Claro que há famílias saudáveis, bem-estruturadas e funcionais em todos os estratos sociais, raciais e religiosos, mas ninguém se atreve a questionar de que forma esse modelo fantasiado de família de comercial de margarina se encaixa com a realidade da imensa maioria das famílias brasileiras em que as mulheres são as chefes, as provedoras e os modelos inspiracionais, em meio a muita carência, fome, desemprego e violência sexual/social.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Donbas ou Donbass?

Donbas / Donbass

José Horta Manzano

Com a estúpida guerra que se instalou em território ucraniano, a palavra está no noticiário diário. A mídia brasileira hesita entre as duas formas Donbas e Donbass – com um S final e com dois. Qual é a grafia correta?

Pra começar, vamos ver qual é o significado do termo. O Rio Donets(1) é um curso d’água de certa importância. Nasce em território russo, entra na Ucrânia, irriga mais de 700km de terras desse país, em seguida volta a terras russas para desaguar no Rio Don. No total, o Donets percorre mais de 1000 quilômetros.

Desde o fim do século 19, a bacia do Rio Donets é conhecida pela abundância de minas de carvão natural. A conjunção de um curso d’água importante e da presença de carvão deu origem à siderurgia e à indústria pesada que se estabeleceram na região. É uma das razões pelas quais a Rússia faz o que pode para anexar essa província a seu território.

A palavra bacinus tinha, no latim medieval, numerosas variantes: baccinus, bassinus, bachinon e até bacca. Em espanhol, o étimo caiu em desuso, mas permanece vivo no italiano bacino, no português bacia e no francês bassin. Com o significado de “conjunto de terras ligeiramente inclinadas”, como em “bacia amazônica”, o russo e o ucraniano tomaram emprestada a forma francesa bassin, transliterada бассейн (russo) e басейн (ucraniano). Ambas são pronunciadas “basséin”.

A palavra Donbas (Donbass) nada mais é que a contração da expressão Донецкий бассейн (=Donetski bassein, em russo) ou Донецький басейн (=Donetski basein, em ucraniano). Donbas (Donbass) é a Bacia do Rio Donets.

A grafia russa requer dois ss, enquanto a ucraniana se contenta com um só. Dado que a bacia carbonífera se estende pelos dois países, eu diria que ambas as grafias são aceitáveis. Os ucranianos certamente ficarão mais felizes se transliterarmos com um S só – Donbás.(2)

(1) Tanto em russo quanto em ucraniano, o final “ets” indica o diminutivo. Portanto, Donets é “pequeno Don”, em referência ao Rio Don, o mais importante da região. No Brasil, tendo em vista que grande parte dos cursos d’água têm nome indígena, a oposição entre o maior e o menor é indicada pelos termos mirim (pequeno) e guaçu (grande), empréstimos da língua tupi. Em Santa Catarina, por exemplo, temos os Rios Saí Mirim e Saí Guaçu. Em São Paulo, estão os rios Apiaí Mirim e Apiaí Guaçu.

(2) Acentuei o á para indicar que o acento tônico cai na sílaba final. Em ambas as línguas.

Os brutos também amam

Ruy Castro (*)

Mais de um antigo faroeste de Hollywood já mostrou a sequência em que alguém parado numa esquina é baleado no peito por um bandido, mas se salva porque leva no bolso interno do paletó uma Bíblia, que lhe apara a bala. Woody Allen, um dia, propôs outra ideia: o sujeito está parado na esquina e alguém lhe atira no peito uma Bíblia. Mas ele se salva porque traz no bolso uma bala, que lhe apara a Bíblia.

Milton Ribeiro, pastor, teólogo, professor, ex-reitor universitário e ex-ministro da Educação de Jair Bolsonaro, tentou descarregar sua pistola Glock calibre 9 mm, que trazia dentro de uma pasta de couro, ao fazer o check-in no balcão do aeroporto de Brasília para embarcar para São Paulo. Como a pasta estava muito cheia – certamente lotada de Bíblias –, Ribeiro tinha pouco espaço para manobra e a arma disparou, atravessando o coldre e a pasta e atingindo o chão, com os estilhaços ferindo de leve duas pessoas que não tinham Bíblias para protegê-las.

Por que um homem de atividades tão pias precisaria andar armado? Será por ter afirmado que a homossexualidade é fruto de lares desajustados, pregado a não inclusão de deficientes com não deficientes em sala de aula e defendido em público o espancamento de crianças como forma de educá-las? Ou por ter se revelado um benigno protetor de lobistas desamparados, intermediando a exploração de prefeitos por seus colegas pastores Arilton e Gilmar, para atender a um pedido de Bolsonaro? Afinal, hoje nada disso é crime. E, se for, será agraciado com o indulto presidencial.

Ribeiro é registrado como colecionador, atirador e caçador, o que o autoriza a andar por aí armado. Deve ter em casa um estoque de munição ao lado de sua coleção de Bíblias, muitas das quais trazem sua foto na página 3, disputando com Moisés a autoria do Pentateuco.

E mais respeito com ele, que integra também a Comissão de Ética Pública da Presidência da República.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Cinco anos de adiamento

“Frexit”, o Brexit da França
Objetivo do programa da candidata Marine Le Pen

 

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 30 abril 2022

Na Europa, desde a derrota do nazi-fascismo, ao final da Segunda Guerra, as ideias da extrema direita foram guardadas em geladeira. Não é que tenham sido erradicadas, longe disso, que a capacidade do ser humano de armazenar baixos instintos é infinita. É que, durante as décadas seguintes, toda alusão a essas ideias trazia lembranças dolorosas a uma população que havia presenciado a guerra e seu cortejo de morte e miséria. Por longos anos, nada que pudesse trazer à memória bombardeios e privações teve lugar à mesa.

O tempo passou e a geração que havia assistido ao desastre provocado por ideias extremistas foi pouco a pouco desaparecendo. No entanto, mesmo com o rareamento de testemunhas oculares, a ressurgência do extremismo de direita continuou tímida: um ameaço de surto aqui, outro acolá, nada mais. Nem a débâcle da União Soviética e o abandono da doutrina comunista foram capazes de sacudir o torpor da direita extrema.

Desde sempre, ideias de retraimento, de fechamento sobre si mesmo, de defesa de uma hipotética pureza étnica, de cerceamento à livre circulação, de hermetismo diante da imigração circularam em surdina. Mas permaneceram subjacentes, como bomba à espera de um detonador. Um dia, sem que ninguém tivesse antecipado, surgiu o estopim. Veio personificado no dirigente do país mais poderoso do planeta. Chamava-se Donald Trump.

Os que votaram por sua reeleição devem julgar que foi bom presidente. Já os 7 milhões de votos de diferença com que Joe Biden o superou amortecem essa percepção. Na política externa, o homem fez estragos. Pirotecnia, como a que pôs em prática com o dirigente da Coreia do Norte, nem sempre é o melhor caminho para resolver problemas internacionais.

O pior legado de Trump foi sem dúvida sua adesão explícita à doutrina do fechamento sobre si mesmo, escancarada pela tentativa de construção de um muro de contenção na fronteira por onde entram os indesejados. Sua desenvoltura desinibiu movimentos subterrâneos ao redor do mundo, que criaram coragem para se expor à luz do meio-dia.

Dirigentes de figurino abertamente reacionário – como o italiano Salvini, o húngaro Orbán, o esloveno Jansa e o próprio Bolsonaro – não teriam se sentido tão à vontade para subir ao palco se Trump não lhes houvesse antes carpido o terreno. A expressão é batida, mas continua verdadeira: Trump abriu a caixa de Pandora. Os males lá trancafiados despertaram de um torpor de sete décadas.

Comparado com o de outros países da Europa, o sistema político francês é sui generis. Por um lado, o presidente da República, eleito pelo sufrágio popular direto, detém poder muito grande, herdeiro que é de um rei guilhotinado há dois séculos. Por outro lado, o voto distrital puro aliado a um bipartidarismo de facto tendem a dar ao presidente maioria no Parlamento, tornando-o (quase) tão poderoso como os reis do passado.

A campanha eleitoral francesa foi acompanhada com lupa pela União Europeia. De fato, caso a vitória fosse favorável à extrema direita de Marine Le Pen, a Europa, como a conhecemos, deixaria de existir. Embora a candidata extremista tenha suavizado o discurso e arredondado os ângulos de seu programa, mantinha a firme intenção de retirar seu país da Otan e da Europa. Mais que isso, tencionava pôr fim à livre circulação das gentes, restabelecer os controles nas fronteiras, abandonar o euro, ressuscitar o finado franco francês. E, para coroar, aproximar a França da Rússia e firmar pacto militar com Putin.

Se a União Europeia resistiu ao Brexit, não resistiria à saída da França – membro fundador, o maior em superfície, o segundo em economia, o único detentor de armamento nuclear. Para Vladímir Putin, uma vitória de Madame Le Pen seria notícia estupenda. Seria prenúncio do enfraquecimento e talvez do desmonte da União Europeia, sonho acalentado por Moscou. Seria um revés para Otan, organização que é pedra no sapato de Putin. Por fim, seria um sinal verde para candidatos a autocrata ao redor do globo, um dos quais aliás ocupa atualmente o Palácio do Planalto.

Desta vez, passou. Mas foi por pouco. O mundo democrático ganhou cinco anos de adiamento, a duração do novo mandato de Macron. Em 2027 voltamos a conversar. Se, daqui até lá, um conflito nuclear não tiver extinguido a humanidade.

Devolvido 77 anos depois

José Horta Manzano

Naquele fim de abril de 1945, os combates no norte da Itália se travavam com ferocidade. As tropas nazistas, que tinham ocupado a região por mais de um ano, estavam em franco recuo diante do avanço das forças americanas. Mas não era uma retirada pacífica: metralhadoras matraqueavam e canhões ribombavam.

No vilarejo de San Pietro in Gù, perto de Vicenza, uma garotinha chamada Meri Mion estava para completar 13 anos. Na véspera do aniversário, assustadas pelos combates que se aproximavam do povoado, a mãe e ela passaram a noite escondidas no sótão da pequena granja familiar.

Na manhã seguinte, o ambiente parecia mais calmo. Dando uma espiada na ruela em frente de casa, viram que os soldados alemães haviam desaparecido. Os que circulavam agora usavam outros uniformes e falavam uma língua diferente: eram os americanos. No vilarejo, o tiroteio havia cessado.

Entenderam logo que os novos soldados não vinham com a intenção de oprimir, mas para liberar o país dos ocupantes nazistas. Feliz com a notícia, a mãe resolveu fazer um bolo de aniversário para os 13 anos da menina. Foi um bolo caseiro, simples, que as privações do momento não permitiam muita fantasia.

Saído do forno, o bolo foi posto pra esfriar no peitoril da janela da cozinha. Mais tarde, na hora de conferir se o doce já estava na boa temperatura, quase não acreditaram: o bolo havia desaparecido! O aniversário foi meio triste.

Na época, todos os habitantes do vilarejo ficaram sabendo do sumiço do bolo. Como todos ali se conheciam, ninguém ousaria roubar o bolo de um vizinho. A travessura certamente era obra de um grupo de soldados americanos famintos. Com o passar do tempo, Meri foi crescendo, e a história do bolo surrupiado foi se perdendo.

Estes dias, como fazem todos os anos, jovens soldados do exército americano visitaram a região para uma pequena cerimônia de comemoração da retomada de Vicenza. Meri Mion recebeu convite para comparecer. Ficou um tanto intrigada: “Por que estão me convidando?”.

Em 28 de abril, exatamente no dia em que completava 90 anos, a menininha que não tinha podido comemorar seu 13° aniversário teve uma surpresa. Em meio às celebrações militares, um punhado de jovens soldados americanos, devidamente uniformizados, lhe entregaram um belíssimo bolo de aniversário. Com direito a “Parabéns a você” cantado em italiano e em inglês. Era um ressarcimento por aquele que lhe havia sido furtado 77 anos antes.

Feliz, Meri – agora uma nonagenária – declarou que pretendia compartilhar o presente com filhos, netos e demais membros da família.

Com informações do site oficial do Exército dos EUA.

Quase-verdades

José Horta Manzano

No Brasil, todos se lembram das irritantes “quase-verdades” do Lula. Na época, pensávamos que, com esse discurso, ele tinha descido ao ponto mais baixo que um presidente pode atingir. Era engano.

Com Bolsonaro, já não temos meias verdades: o capitão mente descarada e compulsivamente. Despudoradamente. E ninguém parece se importar mais com isso. Uns chegam até a aplaudir. Essa indiferença mostra uma complacência perigosa para o futuro das relações sociais entre cidadãos deste país.

Lula e Bolsonaro passarão, mas o tecido social que eles esburacaram permanecerá. Se a mentira já não choca, é sinal de que a confiança desapareceu. Como viver numa sociedade em que todos desconfiam de todos?

Desconfiança dá muito trabalho e consome muita energia. Se esse fator um dia entrar no cálculo do PIB nacional, o resultado será desastroso. Devemos estar abaixo do Afeganistão.

O paletó

José Horta Manzano

A primeira foto
Treze anos separam estas duas fotos. A primeira, de novembro 2009, mostra um Lula ainda galhardo recebendo Nicolas Sarkozy. O então presidente da França, tendo acreditado nas promessas do demiurgo, trazia no bolso de trás o contrato de venda dos caças de última geração franceses Rafale. A euforia não ia durar muito.

Naquela altura, nem Lula nem Sarkozy podiam imaginar que cada um deles teria, anos mais tarde, de enfrentar a justiça. Lula foi o primeiro. Perdeu, e teve de passar ano e meio à sombra. Sarkozy, já condenado em primeira instância a 3 anos de prisão (dos quais um em regime fechado), recorreu e espera atualmente a decisão da segunda instância.

Lula purgou parte de sua pena. A virulência de Bolsonaro, a violência de sua gestão e os escândalos de corrupção que pipocam em torno da Presidência acabaram minimizando os “malfeitos” do Lula. Comparadas ao que se vê hoje, as diabruras dos “aloprados” de outrora parecem pecadilhos infantis.

A segunda foto
A segunda foto, bem recente, mostra um Lula que soube resistir a um excesso de procedimentos estéticos e que hoje não exibe o rosto tipo Barbie como Putin. Assim mesmo, um certo envelhecimento é visível. É da vida.

O distinto leitor talvez tenha reparado num detalhe que acompanha nosso guia em ambas as fotos: a camisa. Trata-se de um modelito pseudandino (quando se podia escrever pseudo-andino ficava mais claro), confeccionado por afamado alfaiate de La Paz. A camisa – será um blusão? – foi oferecida ao Lula por Evo Morales, então todo-poderoso chefão boliviano, aquele que se apossou de uma refinaria da Petrobrás com anuência do lulopetismo, lembra?

Pelo estado impecável em que se encontra a camisa-blusão, ela parece ter sido feita com tecido de qualidade superior. (Americano talvez? Ui! Cala-te, boca!) Quem passa muito tempo encarcerado costuma economizar roupa. É que, em países mais organizados, presos usam uniforme. Não foi o caso do Lula. Passou ano e meio trancafiado na sede da PF de Curitiba, numa suíte com banheiro e esteira particulares. Não usou uniforme. Deve ter usado muito pouco a camisa. E deve ter cuidado muito bem dela.

E daí?
E daí? Se lhe deram de presente, é dele. Usa quanto e quando quiser.

Será?
A partir do momento em que um cidadão se apresenta como pré-candidato a um cargo público, atrai os holofotes. Deve então tomar certas precauções e prestar atenção no que diz, onde vai, com quem vai, como se veste.

O Lula já parece ter entendido que não convém aparecer em público vestindo camiseta vermelha ornada de foice e martelo. Se fizesse isso, abriria uma avenida à voz crítica dos que temem um “comunismo” morto e enterrado há 30 anos.

Ninguém exige que nosso guia apareça em público trajando terno e gravata, que ficaria demasiado artificial. Assim mesmo, se eu pudesse dar a ele um conselho, acho que ele devia evitar trajes exóticos como a “guayabera” (uniforme de caribenhos e dos bondosos irmãos Castro), o chapelão do hondurense Zelaya e, naturalmente, a camisa-blusão do Evo Morales. São peças de vestuário que remetem a “compañeros” sulfurosos. Exibir essas relíquias é abrir o flanco para ataques do adversário.

Nos tempos que correm, basta uma boca fechada e pouco de recato no vestuário pra ser logo visto como presidenciável. A que ponto chegamos, não?

Quem avisa, amigo é.