Os disparates de Lula

by Sam Jovana, desenhista mineira

José Horta Manzano

Os disparates de Lula parecem suaves se comparados aos de Bolsonaro. Assim mesmo, embora pronunciados em linguagem decente, não deixam de ser disparates. Tenho às vezes a impressão de que Lula nunca antes atravessou um período de graça como o momento atual.

Aquele meio Brasil que viu na sua eleição uma luz no fim do túnel está aliviado e leniente com suas primeiras besteiras. Esse contingente de brasileiros tende a ser condescendente com as escorregadelas do novo presidente. São eleitores que reagem como se o Lula fosse um iniciante na política, um eleito de primeiro mandato.

Quanto à outra metade do Brasil – os eleitores que votaram em Bolsonaro – é de imaginar que o comportamento do ex-presidente derrotado não tenha agradado. O Datafolha ainda não publicou nenhuma pesquisa a respeito, mas Bolsonaro deve ter deixado um contingente de decepcionados. Sua fuga para o exterior é um crime de abandono de incapazes.

Tanto faz que o chefe seja chamado de Führer, Duce, Conducător, Caudillo, Comandante ou Mito – o próprio de uma seita extremista é a devoção incondicional ao messias. Ele concentra todos os atributos: a sabedoria, o discernimento, a força e a coragem. Um Führer que fraqueja, foge, se esconde no exterior, e deixa os devotos ao deus-dará é uma paulada na moleira. Um contrassenso. Um golpe duro. Um tranco capaz de abalar toda a paróquia.

Isso me faz acreditar que, frustados com o comportamento do líder, muitos dos que votaram nele estão atualmente menos propensos a se opor com veemência a Lula. O Mito fugido nem ao menos apresentou uma boa desculpa para a atitude. Se estivesse sob mandado de prisão, por exemplo, seria compreensível. Mas não há, por enquanto, nenhuma medida decretada contra ele. Se não volta, é porque não quer.

Voltemos agora ao período de graça do Lula. Acho que ele, inebriado com a renovada sensação de poder, não está percebendo que o tempo passa rápido e o tempo de bonança está escorrendo por suas mãos. A ampulheta é implacável.

Ele já disse que respeitar regras fiscais é bobagem. Já levantou o espantalho de nova moeda a ser compartilhada entre Brasil e Argentina. Já tratou seu antecessor de genocida, igualando-se a ele em despudor. Já prometeu financiamento para a exploração de gás na Argentina, quando o Brasil tem milhares de obras paralisadas. Mais de uma vez, já chamou Temer de ‘golpista’. Já repetiu que o impeachment de Dilma foi ‘golpe’, uma distorção da verdade histórica.

Eu me compadeço de um Lula que, aos 75 anos, culpado ou não, purgou 580 dias de cárcere. Compreendo que essa privação de liberdade tenha deixado ressentimentos. Mas não acredito que seja este o melhor momento para esconjurar velhos rancores. Os brasileiros, que anseiam por um ar puro e livre de miasmas, não merecem ser bombardeados com patacoadas.

Presidente, não estrague essa “janela de oportunidades” – como se diz hoje em dia – com declarações ruidosas e desnecessárias. Chega de poluição declaratória. Vá direto ao ponto. Dê aos brasileiros o que eles estão precisando receber.

Como se dizia antigamente: “Ô Lula, aproveita enquanto o Brás é tesoureiro, que essa sopa vai acabar!”(*)

(*) Em outras versões desse sábio ditado, o polivalente Brás é carcereiro.

Kintsugi

Prato de Rosina Wachtmeister após restauro Kintsugi

José Horta Manzano

Um dia um prato que estava pendurado na parede da cozinha despencou e se espatifou no chão. Eu gostava muito da peça, uma porcelana pintada pela artista austríaca Rosina Wachtmeister, especializada em retratar gatos estilizados.

Rosina teve um percurso de vida peculiar. Nascida na Áustria em 1939, emigrou para o Brasil, junto com a família, quando estava com 14 anos. Passou a adolescência e o início da vida adulta em Porto Alegre, onde aprendeu Pintura e Escultura na Escola de Belas Artes. Aos 28 anos, casou-se com um italiano e voltou para a Europa. Estabeleceu-se na Itália, onde vive até hoje. Está com 83 anos.

Chateado com o prato espatifado, fui à internet pra ver se conseguia encontrar outro igual. Nada feito, era uma série limitada. Nesses sites em que particulares vendem velharias, encontrei pratos semelhantes, mas nenhum tão bonito como o meu. De repente, não me lembro onde, li um artigo que falava de Kintsugi.

Trata-se de uma técnica japonesa de restauração de objetos de porcelana e cerâmica quebrados. Os japoneses são um povo que não despreza a velhice, antes, respeita e valoriza pessoas e coisas antigas.

A filosofia nipônica parte do princípio que peças antigas têm grande valor por carregarem uma longa vivência. Quando se quebram, devem ser restauradas. E as cicatrizes não precisam ser disfarçadas, ao contrário, devem ser acentuadas para mostrar que o objeto é antigo e tem valor. O reparo é feito com cola misturada com ouro em pó, de maneira que as cicatrizes fiquem bem aparentes.

Meu prato quebrado não tinha tanto valor, ao ponto de merecer ser consertado com pó de ouro. Numa loja de bricolagem, encontrei a cola e um pó dourado, feito não sei de quê, mas de cor bonita e preço abordável. Não foi difícil consertar o objeto, que voltou a ser dependurado exatamente no mesmo lugar de onde havia despencado.

Lembrei desse episódio estes dias, quando vi foto dos caquinhos a que ficaram reduzidos vasos chineses vandalizados nos palácios da República pelos discípulos de Seu Mestre. Os restauradores vão ter muito trabalho. Não acredito que venham a recorrer ao kintsugi.

Quando tudo é permitido

Michael Krüger

José Horta Manzano

Michael Krüger (1943-) é um prolífico escritor e tradutor alemão com cerca de 40 livros publicados. É um frasista. Já fez afirmações tais como: “Sobre a literatura universal, paira uma nuvem de álcool” ou “De fato, quando se pensa bem, as pequenas coisas não dão futuro; precisamos de grandeza”.

Entre suas afirmações há uma, bastante conhecida, com a qual não tenho certeza de concordar: “Quando tudo é permitido, há poucos conflitos”. É um dito que pede reflexão. Em certos relacionamentos amorosos, pode até funcionar, dependendo da índole de cada parceiro. En nível universal, quando se estuda a relação entre todos os indivíduos de uma sociedade, a coisa aperta.

Como se sabe, a liberdade de cada um termina onde começa a entrar em atrito com a liberdade do outro. Se tudo for permitido, como propõe Krüger, fatalmente haverá atritos. Em teoria, até a estupidez selvagem do 8 de janeiro na Praça dos Três Poderes seria permitida – um ultraje à vida civilizada.

A esse propósito, lembro uns versinhos antigos, às vezes atribuídos a Winston Churchill. Dependendo do país e da época, a quadrinha circula com versões diferentes. Na atualidade, seria assim:

Na Inglaterra, tudo é permitido, menos o que é proibido.
Na Alemanha, tudo é proibido, menos o que é permitido.
Na Coreia do Norte, tudo é proibido, até o que é permitido.
No Brasil, tudo é permitido, principalmente o que é proibido.

Isso é só pra fazer graça, que, na realidade, não é assim. Ainda bem.

Resenha – 3

by Guy Valls (1920-1989), desenhista francês

José Horta Manzano

A queda
Quando o cidadão está lá em cima, forte e poderoso, é cortejado por todos. Já quando desce do pedestal, vai aos poucos escorregando para o ostracismo. O caso de Bolsonaro é mais grave ainda. Dado que, quando presidente, exorbitou, ofendeu, insultou, extrapolou e magoou, sua queda dramática o transforma em indivíduo tóxico. Todos o abandonam e ninguém quer ter o próprio nome ligado a ele. A queda é vertiginosa.

Nos EUA, numerosos parlamentares fazem pressão sobre Joe Biden para que dê um jeito de impedir a estada do capitão em território estadunidense. Que seja expulso o mais rápido possível.

Na Itália, parlamentares horrorizados com os acontecimentos de Brasília também se insurgem contra o capitão. Ele não se encontra na Itália (por enquanto), mas sua figura paira como mancha indesejada. É que em novembro de 2021, em sua passagem pela Itália, Bolsonaro recebeu uma homenagem por parte da prefeita da cidadezinha de origem de seus antepassados. Concederam a ele a cidadania honorária do município de Anguillara Veneta. Depois do golpe de Estado fracassado do 8 de janeiro, diversos eleitos pressionam a prefeita para que anule o título concedido. Não querem ver o nome da cidadezinha associado ao do “Trump dos trópicos”.

Na minha visão, é uma bênção que Bolsonaro esteja no exterior. A cada dia longe da pátria, sua fama de fujão vai se afirmando e sua aura vai empalidecendo. Dependesse de mim, faria tudo para que ele nunca mais pisasse solo brasileiro. Quanto mais longe estiver, melhor será. O homem é nocivo e perigoso demais.

Ecos do 8 de janeiro
Encontrei na imprensa alemã as expressões mais veementes para descrever os terríveis acontecimentos de nosso 8 de janeiro em Brasília.

A malta que invadiu os palácios foi chamada de “Armee des Wahns”, ou seja, Exército da Loucura. Excelente definição.

Li também a afirmação seguinte: “Die Wut der Massen entstammt dem Gift des Populismus”, que se traduz por “A fúria das massas tem origem no veneno do populismo”, uma verdade histórica.

Parafraseando movimentos como a “Internacional Socialista” e a “Internacional Operária”, a mídia alemã tascou outra boa etiqueta para a turba:
“Die Internationale der Verschwörungsgläubigen”, que é
“A Internacional dos Crentes da Conspiração”.

Avaliação Lula x Bolsonaro
Pesquisa do Ipec apura que 55% dos brasileiros acreditam que o governo Lula será melhor que o governo Bolsonaro. Deduz-se que os demais, ou seja 45% dos brasileiros, são de outra opinião. Os números (55% x 45%) se aproximam do resultado do segundo turno (51% x 49%). Em outros termos, quem votou no Lula acha que o novo governo será melhor que o anterior. E quem votou Bolsonaro persiste em acreditar que bom mesmo era antes. Nem precisava de pesquisa.

Roraima
Bolsonaro passou quatro anos hostilizando a Venezuela, fechou embaixada, tirou pessoal diplomático, diabolizou o regime. Esbravejou e cantou de galo em cima do desprezível vizinho. Mas não se preocupou em conectar a rede de energia elétrica roraimense à rede brasileira. Roraima é o único estado da Federação cuja rede elétrica é desconectada do resto do país. Até hoje, é a Venezuela que fornece energia ao estado.

O capitão bradava: “Que ninguém ouse botar a mão na Amazônia!”, enquanto entregava a segurança energética de um vasto pedaço de nossa Amazônia aos caprichos de um ditador estrangeiro. Mais uma vez está feita a prova de que o nacionalismo dele é só de fachada, pra inglês ver.

Surpreendente
Em carta escrita nesta quarta-feira 18 janeiro 2023 e endereçada aos dirigentes do mundo inteiro, que estão atualmente reunidos no Fórum Econômico de Davos (Suíça), mais de 200 bilionários provenientes de 13 diferentes países afirmam que querem pagar mais impostos. Estudos especializados indicam que o patrimônio dos ultrarricos aumentou em 50% nos últimos dez anos.


“Vocês, nossos representantes no mundo, têm de aumentar nossos impostos, e isso tem de começar agora. Trata-se de uma medida simples e de bom senso.”

Trecho da carta


Na lata, ao tomar conhecimento da carta, o ministro francês da Economia convidou todos a irem morar na França. Explicou que se tratava de um dos países onde se pagam mais impostos no mundo e completou: “Saberemos cobrar de todos vocês”. Bem-vindos!

Resenha – 2

José Horta Manzano

Por que parou? Parou por quê?
O frisson do momento fica por conta dos escritos que a PF encontrou ao esquadrinhar os guardados de Anderson Torres, ministro de Bolsonaro, ora refugiado nos EUA.

Pelo jeitão do documento, não se trata de “rascunho”, como tenho lido. As letras impressas e o juridiquês caprichado revelam que o texto não é um devaneio rabiscado em papel de padaria ao fim de uma noite de uísque abundante. Longe disso, é a prova de que havia trama para revirar o resultado das urnas, e que o projeto estava em estado adiantado. O “rascunho” é, na verdade, uma minuta pronta para ser impressa em papel timbrado e assinada pelo capitão.

Discute-se sobre a autoria. Discute-se sobre a constitucionalidade do frustrado decreto. Discute-se sobre o peso que a descoberta vai exercer na culpabilidade de Bolsonaro. Todas essas questões são válidas e justas. No entanto, a meu ver, uma pergunta paira no ar, intrigante e sem resposta:

Por que é que a minuta foi descartada sem nunca virar decreto?

Responder a essa pergunta equivale a esclarecer o mistério.

Caçoar do Lula
O jornalista e escritor português Ricardo Araújo Pereira é conhecido por seu afiado senso de humor. É dele a fala seguinte (que já vem com sotaque):

“Agora, é tempo de caçoar do Lula. Sem medo de que este governo vá falhar. Até porque vai falhar. Já agora, aproveito para dar essa novidade. O governo brasileiro vai falhar por dois motivos: primeiro, por ser um governo; segundo, por ser brasileiro. É uma combinação que costuma ser fatal.”

Ironia do destino
O destino costuma espalhar cascas de banana na estrada para apanhar incautos. Ai de quem não prestar atenção.

Dia 5 de janeiro, uma empertigada primeira-dama convocou a Rede Globo para narrar o “estado de ruína” em que os Bolsonaros haviam deixado o Palácio do Planalto. Uma ponta de tapete esfiapada, uma quina de móvel esgarçada, um estofado rasgado – coisas desse jaez.

Não se sabe exatamente qual era a intenção da boa senhora, se era acusar os locatários antigos de serem selvagens ou se era para embasar futura requisição de verba para reforma.

Mal sabia a primeira-dama que, apenas três dias depois, nada mais restaria do mobiliário do palácio. O que lhe tinha parecido “ruína” tinha sido apenas aperitivo da desolação que viria depois.

KFC
No começo do mês, o canal de tevê TF1, o de maior audiência na França, não deixou passar em branco a imagem insólita. Enquanto Lula recebia as honras de presidente e assumia suas funções em Brasília, um solitário ex-presidente, despejado do poder e homiziado nos EUA, comia uma fritura no KFC. Com as mãos, como é de lei.

Fuga inútil
Contropiano, jornal comunista italiano online, repica o que afirmaram veículos da mídia brasileira e revela que Bolsonaro pensa em homiziar-se na Itália para evitar possível prisão no Brasil.

Dois meses atrás, lembrei a meus distintos leitores a triste e decepcionante história de Henrique Pizzolato, diretor de marketing do Banco do Brasil nos tempos do Petrolão e da Lava a Jato. Titular de dupla nacionalidade – brasileira e italiana – o cidadão, enrolado com a justiça brasileira, julgou que refugiar-se na Itália seria excelente ideia. Depois de muitas peripécias, terminou extraditado pela Itália e recolhido diretamente à Papuda, onde cumpriu a pena imposta.

Nos dias de hoje, está cada vez mais difícil escapar ao próprio destino. Incluído na lista vermelha da Interpol, nenhum réu tem mais sossego. Não estou aqui para dar pistas a Bolsonaro, mas ele que se lembre que, uma vez inculpado, não adianta fugir porque será perseguido até seus últimos dias. Onde quer que esteja, inclusive na Itália.

Digital
Em certos aspectos, o universo petista continua a se comportar como se estivéssemos nos anos 1980, na era pré-internet. A esse propósito, o jornalista Pedro Dória publicou um artigo pertinente do qual um trecho vai aqui abaixo.

“Este governo, o governo Lula, é um governo terrivelmente analógico. E, num momento de democracia em risco, o governo não pode se dar ao luxo de ser analógico.”

Vaidade

José Horta Manzano

Os seguidores do “mito” são de uma ingenuidade comovente. Acreditam em qualquer coisa que se diga. Encampam qualquer notícia, desde que venha de fonte amiga, como grupo de zap-zap por exemplo. Se a origem lhes parecer confiável, engolem sem filtro, sem raciocinar, sem analisar.

Se circula no grupo a notícia de que convém apelar para extraterrestres, já vão fazendo sinais para o alto procurando um E.T. Se Seu Mestre disse que as urnas são viciadas, já espalham a informação como se fosse verdade bíblica. Esses indivíduos fazem jus à apelação “zumbis”. Embora sejam do gênero humano, comportam-se como irracionais.

Aderem ao “mito”, sim, mas não abandonam o mundo como quem entra para o convento. A par da devoção à seita, mantêm uma vida secular que os faz parecerem normais. Como todos os humanos, conservam qualidades e defeitos. A vaidade está entre essas características.

Será a vaidade uma qualidade? Um defeito? A pergunta é quase filosófica. Não me cabe definir. Na vida de todos os dias, a vaidade pode ser bem útil. É ela que faz o pesquisador se esforçar para apresentar um resultado fora de série, de olho nos louros. Serve também para incentivar um artista a dar o melhor de si em busca dos aplausos. Mas a vaidade tem seus limites.

Imaginem o distinto leitor e a graciosa leitora que o assalto ao centro do poder, que sacudiu Brasília domingo passado, tivesse ocorrido 20 anos atrás, numa época em que ninguém tirava foto com telefone celular. Tendo em mente que o quebra-quebra se desenrolou longe de repórteres e cinegrafistas, simplesmente não haveria imagens.

Sem imagens, seria praticamente impossível provar a presença de quem quer que seja. As autoridades encarregadas de estabelecer responsabilidades estariam de mãos atadas. Mas a vaidade – e a ingenuidade – dos participantes entregou o ouro.

Peito aberto e rosto descoberto, todos fizeram questão de se identificar. Acreditando nas ‘fake news’ que davam como certa a intervenção das Forças Armadas, desinibiram-se. Quebraram, arrebentaram e roubaram à farta.

Só que… deu errado. Em vez de Forças Armadas, quem agiu foram as Forças da Ordem. Confiscados, os telefones deduraram toda a patota. Se bem que nem precisava confiscar celular, que muita gente fez “laives” da destruição.

Antigamente, nenhum criminoso queria saber de publicidade. Quanto mais longe dos holofotes, mais seguro operava. Nossos “zumbis” devem imaginar que são estrelas do cinema. Ainda não entenderam que as coisas podem dar errado e, nesse caso, o melhor é fugir sem deixar rastro.

Por não terem entendido, estão agora sendo apanhados por terem sucumbido à vaidade de postar laives e selfies mostrando sua participação nos atos criminosos.

A agressão à democracia foi longe demais. Quem ajudou a espalhar o caos vai ter de responder. Colhido pela polícia, cada participante não vai nem precisar tirar foto na delegacia – selfies coloridos já circulam pelas redes.

Perdel mané

PERDEL MANÉ

José Horta Manzano

Muitos comparam a depredação de prédios públicos ocorrida ontem em Brasília com os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, quando arruaceiros, agindo sob a égide de Trump, invadiram e devastaram o Capitólio de Washington. Estão errados.

Os pontos comuns entre os dois quebra-quebras são dois. Em primeiro lugar, não foram atos fortuitos nem espontâneos, mas orquestrados e dirigidos. Em segundo lugar, foram ambos montados “em defesa” de um ex-presidente que, embora derrotado nas urnas, se debatia para voltar ao poder. As semelhanças terminam aqui.

O ataque ao Capitólio tinha um objetivo definido. A ideia era impedir que o Congresso, reunido naquele momento, certificasse a eleição do presidente Biden. Já a agressão ao centro do Poderes de nossa capital federal não teve pretexto. Foi barbárie em seu estado puro, organizada por mentes malignas e executada por mercenários broncos.

Ninguém me convencerá de que os integrantes daquela turba – que já chegaram com paus, marretas e bombas de tinta spray – eram cidadãos tranquilos que estavam passeando com a família na Praça dos Três Poderes quando, de repente, largaram mulher e filhos e correram pra arrebentar o palácio mais próximo. Não. São mercenários a soldo de gente poderosa, que tem interesse em ver o circo pegar fogo.

Aos investigadores, resta perguntar “Cui bono?” – a quem interessa o crime. Com tantas pistas e tantas testemunhas, não há de ser difícil descobrir.

Aos planejadores, resta o exemplo de como não se deve agir. É verdade que as autoridades que cuidam da Segurança Pública atravessam um momento delicado, em que os titulares antigos já se foram, e os novos ainda estão em fase de instalação. Que se instalem rapidamente e que se organizem.

Os ataques de ontem fornecem um caminhão de informações preciosas. Que sejam utilizadas para evitar que tais ataques se repitam.

Resenha – 1

Lula 3: o ministério.
Ao fundo, a logomarca do novo governo.

Novo logo
Tenho uma certa birra com essa alteração da dita “Marca Brasil” que presidentes se acostumaram a fazer no início do mandato. Nossa Constituição elenca os símbolos do país. Logotipo e logomarca não estão entre eles. Não conheço o sistema em vigor em cada um dos países do mundo, mas, daqueles que conheço, nenhum criou esse costume bizarro.

Mas vamos ser condescendentes: ainda que não esteja estipulado pela Carta Magna, proibido não é. O que atrapalha é que cada novo presidente imponha sua marca e jogue fora a anterior. Fica claro que a intenção é mostrar os feitos de seu governo e não de outros. Não me parece boa coisa.

Além disso, o logo do governo atual me parece infantiloide, colorido demais. Me faz lembrar quando apareceram as primeiras impressoras em cor. Para experimentar a deliciosa novidade, muita gente escreveu cartinhas de amor em que cada letra tinha uma cor.

Esse logo aquareloso de Lula 3 parece ser resposta ao desafio lançado pelos ultrabolsonaristas:

“– Nossa bandeira nunca será vermelha!”

“– É, mas nosso logo será multicolor! E vê se não amola!”

Bolsa de apostas
Não sei se já está circulando algum bolão de apostas sobre o tempo que Bolsonaro permanecerá em autoexílio no exterior. Há quem diga que, para o fim do mês ou, no máximo, em fevereiro estará de volta. Não é o que eu acho. Vamos raciocinar.

Por que é que ele fugiu para o estrangeiro pouco antes do fim do mandato? Para permitir que o Lula ficasse sozinho e à vontade debaixo dos holofotes? Claro que não. Fugiu porque tinha medo de ser preso à zero hora do dia 1° de janeiro.

Aceita essa premissa, a conclusão é que o capitão não voltará enquanto o risco de prisão existir. Não lhe parece coerente?

Com seu comportamento cavalar, Bolsonaro arrebanhou uma penca de inimigos nestes últimos quatro anos. Entre eles, os ministros do STF, com principal ênfase em Alexandre de Morais. Não se imagina que esses magistrados venham a dar moleza para quem os insultou dia sim, outro também.

Portanto, o risco de cadeia é elevado e assim vai continuar por muito tempo. Bolsonaro não volta tão cedo.

O 6 de janeiro
Faz hoje 2 anos que violentos apoiadores de Donald Trump – incitados pelo próprio – decidiram tomar de assalto o Congresso dos EUA. Pensando bem, a ideia de que um bando de pessoas, em sua maioria armadas de telefones celulares, fossem capazes de derrubar o governo americano só podia caber na cachola de terraplanistas alienados.

Nosso 6 de janeiro tupiniquim foi bem mais melancólico. A turba de apoiadores extremistas do presidente perdeu o embalo ao constatar que o chefe tinha abandonado a arena para refugiar-se no exterior. Desistiram de invadir imóveis e queimar veículos. Jururus e murchinhos, baixaram as orelhas e tomaram chá de sumiço. De lembrança, deixaram a sujeira na porta do quartel.

Reunião ministerial
Bem fez Lula quando, em sua primeira reunião ministerial, advertiu os 37 ministros que “quem fizer algo errado será convidado a deixar o governo”. O caminho é esse. A nação espera que não tenham sido palavras ao vento, lançadas só pra enfeitar a ata do encontro.

Que a advertência seja efetiva e impeça que ministros escorreguem para a prática de “malfeitos”. Se essa prática tivesse estado em vigor desde o início de Lula 1, não teriam existido nem mensalão nem petrolão.

Feliz ano novo a todos!

Poderia ter sido pior

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 31 dezembro 2022

Virada de ano é o momento de dar uma parada, olhar pra trás, olhar pra frente e buscar, na euforia efêmera do espocar dos fogos, ânimo pra seguir adiante.

Cada um tem a idade que tem, não há como evitar. Se fosse um carro, este escriba, que já rodou mundo, contaria muitos quilômetros no odômetro. Me lembro dos ensolarados anos 60 e 70, quando o futuro nos pertencia e um fusquinha era nosso objeto de desejo. Mas os anos passaram e o panorama mudou. As cidades brasileiras se estufaram e engoliram, em congestionamentos crônicos, nossos ingênuos objetos de desejo. Quanto ao futuro, já nem temos certeza de que nos pertença. Entre crise climática, pandemia e ameaça nuclear, nem sabemos se futuro haverá.

Constato, consternado, que nosso fluxo migratório se inverteu. Meio século atrás, o número dos que escolhiam o Brasil para se estabelecer e recomeçar a vida era muito superior ao de brasileiros que se iam. Na atualidade, cresce a cada ano o contigente de brasileiros desiludidos, que abandonam nosso país em busca de um futuro melhor em outras terras. O país do futuro já não atrai aquele mundaréu de gente e já não cativa nem seus próprios cidadãos. Dá dó assistir impotente a essa fuga de braços e de cérebros, gente que, no futuro, só voltará para as férias.

Hoje à meia-noite (se o mundo não acabar daqui até lá), teremos tirado o pé de 2022, um ano agourento. No nível mundial, a invasão da Ucrânia nos fez retroceder oito décadas a um período em que Herr Hitler, julgando que faltasse Lebensraum (espaço vital) a seus súditos, armou suas tropas e invadiu países soberanos. Era um tempo que, até outro dia, todos acreditávamos superado, morto e esconjurado. Putin nos ensinou que nenhuma verdade é eterna e que não convém baixar a guarda.

Essa ressurgência da guerra tem infligido horrores ao povo agredido. Até países que, embora distantes da cena bélica, dependem dos grãos ucranianos estão em estado de insegurança alimentar. Assim mesmo, os russos poderiam até ter invadido algum país da Otan, o que acenderia o braseiro de uma guerra mundial. Felizmente, não o fizeram. No fundo, poderia ter sido pior.

Nosso capitão, que vive hoje seu último dia de mandato, foi outro que aprontou. Não chegou a cogitar invadir o Paraguai nem recuperar o Uruguai, mas um dia ousou ameaçar os Estados Unidos (!), explicando a Biden que “Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”. Mas, para alívio de nossas angústias, ficou no blá-blá. Não despachou tropas em direção ao grande irmão do Norte. Veja você que, no fundo, poderia ter sido pior.

O negacionismo científico do presidente, que tinha se manifestado já no estouro da pandemia com a sonegação de vacina e oxigênio, continuou firme e adentrou 2022. Verbas foram negadas a tudo o que, de perto ou de longe, estivesse no campo da ciência. Universidades federais e bolsistas viram sua dotação fortemente diminuída ou até suprimida. Talvez o capitão tenha tido ganas de mandar fechar universidades em todo o território nacional e acabar de vez com esses “perigosos ninhos de comunistas”. Não o fez. Veja você que, no fundo, poderia ter sido pior.

O golpismo, característica inerente ao capitão, manteve-se empinado. A cada ocasião que lhe pareceu propícia, Bolsonaro avivou a chama. Jamais deixou cair a peteca. A ideia fixa que o atormenta desde os tempos da caserna não enfraqueceu. Queria porque queria dar um golpe de Estado. No caso dele, seria um “autogolpe”, variante tipicamente latino-americana já testada por numerosos governantes de nossa região. Talvez por não se sentir escorado pelas Forças Armadas, Bolsonaro não ousou ir às últimas consequências. Tivesse ido, estaríamos vivendo um caos que a imaginação mais fértil não consegue avaliar. Veja você que, no fundo, poderia ter sido pior.

De susto em susto, de tranco em tranco, de solavanco em solavanco, chegamos ao fim de um ano que não deixará saudades. Amanhã acordaremos aliviados por ver o fim de um ciclo atroz, mas também apreensivos por ver a volta de Luiz Inacio ao poder. Nós, os que escrevemos sobre política nacional, baixaremos enfim a arma. Mas Lula que se cuide: nossa metralhadora é rotatória. Que ele não bobeie, se não “vai ter pólvora”.

Feliz ano novo a todos.

Na antevéspera do gozo – 2

Brasília: Praça dos 3 Poderes em construção

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há mais de cinco anos detectei pela primeira vez uma sinistra coincidência entre momentos de pré-júbilo nacional e a ocorrência de alguma tragédia ou reviravolta frustrante na vida institucional brasileira. Dei a esse fenômeno inusitado o nome de “antevéspera do gozo” e desde então comecei a me perguntar das razões para seu surgimento.

Analisando alguns acontecimentos históricos ligados a momentos de grande mobilização cívica interrompidos abruptamente – como a rejeição da emenda das Diretas Já depois de 21 anos de ditadura e após expressivas manifestações de rua da sociedade civil, a morte de Tancredo Neves antes de assumir o cargo presidencial e consolidar a transição para a volta do regime democrático, o acidente aéreo fatal que atingiu Eduardo Campos, a principal novidade da campanha ao lado de Marina Silva, a poucos meses da eleição presidencial de 2014, e até a morte do ministro do STF Teori Zavascki, o único que poderia enquadrar os desvios éticos de Sérgio Moro e conduzir a Operação Lava Jato com segurança jurídica e imparcialidade até o final -, cheguei à conclusão que temos, como cultura, um caráter evidentemente histérico.

Com isso quero dizer que estamos perpetuamente surfando na crista de uma onda de excitação coletiva que jamais encontra descarga completa e impede que seja zerada a tensão política acumulada. Quando sentimos que se aproxima o momento do gozo final, algo em nós inexplicavelmente se assusta, se tranca e recua. E, quando se bloqueia a energia libidinal, ela por assim dizer “apodrece” qual água estagnada e contamina outras áreas do psiquismo. A incapacidade de entrega amorosa plena termina gerando desprazer e frustração, o que, por sua vez, deriva para a formação de irracionalidades, perversões, neuroses, fanatismo, misticismo, etc. A potência orgástica se perde e se divide em uma série de gratificações secundárias.

Se confirmado, esse traço cultural histérico explicaria ainda outras duas tendências com as quais venho trabalhando para entender a brasilidade: o baixíssimo comprometimento da população com processos (de qualquer tipo, mas especialmente os de construção democrática) e a ânsia de obter resultados praticamente imediatos, ou expectativa de mudança mágica da realidade. Em segundo lugar, a bipolaridade estrutural que nos faz oscilar entre momentos de eufórica autoestima {como acontece quase sempre no futebol e no carnaval) e outros de depressão (síndrome do vira-lata) e autocondenação (principalmente em períodos pós-eleitorais, com a sistemática repetição da crença de que brasileiro não sabe votar).

Ainda não sei quais e quantos outros fatores estão em jogo, mas posso apostar que a recusa em juntar forças para o atingimento de um orgasmo-cidadão está ligada ao eterno confronto entre nossas raízes africanas e indígenas de valorização da coletividade e a herança conservadora e individualista de nossos colonizadores portugueses. Aparentemente, isso se deve às pesadas noções de culpa e pecado da tradição judaico-cristã herdada deles que interferem em nosso caráter original de afetividade despudorada, espontaneidade e liberalidade sexual.

Pois bem, parece que está prestes a acontecer de novo. Desde 30 de outubro, nem um dia se passa sem que ouçamos a profecia: “O ladrão não vai subir a rampa”. Como, desta vez, Deus parece ter optado por não chamar para seu reino nenhum dos candidatos finalistas nem a figura mais odiada do bolsonarismo, Alexandre de Morais, as deserdadas viúvas do Mito resolveram tomar nas próprias mãos a tarefa de desconstrução final do estado democrático de direito. Depois dos emocionantes manifestos em favor da democracia que reuniram mais de um milhão de assinaturas, o que deveria ser uma festa popular de regozijo com a vitória da esperança de reconquistarmos credibilidade internacional e de recuperar nosso já devastado meio ambiente foi brutalmente interrompida com bloqueio de estradas federais, manifestações abertamente golpistas na frente de quartéis, ações de caráter explicitamente terrorista e nazifascista e até aberrações de cunho religioso messiânico, como a de clamar por intervenção extraterrestre através de celulares.

Embora nada de mais terrível tenha acontecido até este momento, seja por obra e graça da incompetência e planejamento amadorístico das ações dos golpistas ensandecidos ou por pura conivência mal dissimulada das autoridades de plantão, temos de convir: nada impede que acordemos horrorizados no dia 1º de janeiro de 2023 ao assistirmos ao vivo e em cores a um atentado contra o novo presidente em plena Praça dos Três Poderes. Garanto que muita gente já perdeu o sono revivendo mentalmente as cenas dantescas de partes do cérebro de John Kennedy voando longe ou, mais recentemente, da morte em público do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe.

A parte moralista do nosso Eu coletivo, que chafurda cada dia mais no fundamentalismo religioso mais rastaquera, entra novamente em campo para alertar: esse parceiro que nos está sendo reapresentado como salvação de nossas fraquejadas libidinais não é confiável, já abusou de nossa confiança anteriormente, não dá para nos entregarmos de mão beijada a ele sem contarmos com alguma forma de salvaguarda contra seus ideais liberalizantes nos costumes. E se ele achar que não somos moças de família por cedermos ao desejo? E se gostarmos da experiência e quisermos repeti-la, como ficará nossa imagem pública? Emancipação para quê? Não, melhor nos mantermos dentro das 4 linhas do patriarcado cristão heteronormativo!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Até breve!

by Bill Bell (1934-) artista norte-americano

Queridos leitores,

Estamos chegando ao fim de um ano difícil. A gente não vê a hora que este 2022 se acabe, se vá e não volte. E bola pr’a frente.

Vou deixá-los em paz por alguns dias. Vosso sossego só será quebrado pelo artigo que escrevo para o Correio Braziliense, e que publico no fim do mês. Depois disso, só volto no ano que vem.

Desejo a todos boas festas de Natal e fim de ano. E um 2023 mais risonho que todos os anos anteriores.

Obrigado a todos pela audiência, que me honra e alegra.

Tudo é fake

José Horta Manzano

Dê uma olhada na foto acima. Até que não está tão mal, não é? Mas alguma coisa atrapalha. Parece esquisita, um pouco fora de esquadro. Mostra um cenário bonitinho, de Natal idealizado. Dá pra entender a intenção de quem teve a ideia, só que o conjunto ficou pra lá de bizarro.

De fato, a porta de vidro e a armação metálica que aparecem por detrás do cenário estragam o efeito de casinha mágica. A neve que cai tem dois defeitos: 1. Não costuma nevar com céu azul; 2. O gramado (capim?) não recebeu nenhum floco e continua verdinho. O efeito fake incomoda.

Tem mais. Os quatro personagens vestidos de preto não combinam de jeito nenhum com casinha de cartão postal. A presença inquietante dessas quatro silhuetas abafa o som do Jingle Bell.

Agora vou contar uma coisa: essa imagem mostra só uma parte da foto original. Se você ainda não adivinhou, clique aqui pra ver a fotografia original por inteiro.

O rei

José Horta Manzano

Aqui na terrinha, nossa atenção está focalizada na PEC do estouro, na escolha do ministério de Lula, na soltura de um indivíduo condenado a mais de 430 anos de prisão – coisas de deixar de olho arregalado.

Enquanto isso, além-fronteiras, os olhos da imprensa nos observam sem dar importância aos escândalos habituais. Neste momento, não enxergam outra coisa que não seja o agravamento da enfermidade do rei Pelé.

O Brasil é particularmente ingrato com seus ídolos. Se o mundo nos reverencia como “pátria do futebol”, a contribuição de Edson Arantes do Nascimento é fundamental.

É verdade que Pelé atuou faz tempo. Suas últimas aparições no gramado datam de quase meio século. Aos ouvidos de quem tem menos de 40 anos, o nome do “rei” deve soar como soa para nós o nome de Arthur Friedenreich, grande craque cuja longa carreira começou no tempo em que o futebol era amador e se chamava foot-ball. O “Tigre”, como era conhecido, atuou de 1909 até 1935. Quando de seu último jogo, tinha 43 anos.

Assim mesmo, saibam que devemos muito a Pelé, herói de uma época em que jogador não estava preocupado com a oxigenação do cabelo nem com a mansão à beira-mar nem com o jatinho próprio estacionado no hangar mais próximo. Jogador apenas jogava. Mas como jogava!

Aqui está um apanhado de artigos, publicados na mídia europeia, que tratam do agravamento das condições de saúde do “rei”.

 

O receio pela saúde de Pelé aumenta

 

 

Pelé continua no hospital – o câncer se espalhou

 

 

O câncer de Pelé avança

 

 

Estado da legenda brasileira tem piora drástica

 

 

O câncer progrediu e pede atenção por disfunção renal e cardíaca

 

 

Câncer do craque brasileiro progrediu

 

 

A pequena rainha

Bicicleta 2

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José Horta Manzano

Você sabia?

O pouco caso que se faz da bicicleta no Brasil contrasta com o prestígio de que ela goza em outras partes do mundo. Na Europa em particular. Na França, por sinal, tem o apelido de «petite reine» ― a pequena rainha.

Os primeiros veículos de transporte pessoal apoiados sobre duas rodas já existiam desde princípios do século XIX. No entanto, não eram dotados de pedal, o que tornava seu uso problemático na subida.

Nos anos 1860, o estabelecimento parisiense Maison Michaux lançou a bicicleta com pedais, novidade absoluta para a época. A partir de então, o veículo se popularizou. Numa época sem automóveis, poder triplicar ou quadruplicar a velocidade de deslocamento era uma revolução!

A minha também é Peugeot!

A minha também é Peugeot!

A Europa do Norte conheceu, em poucos anos, uma revoada de “magrelinhas”. A novidade teve especial sucesso em regiões de planície ― é fácil entender por quê. Norte da França, Inglaterra, Bélgica, Holanda, norte da Alemanha, norte da Itália são bons exemplos.

Com a popularização, o novo veículo foi objeto de melhoramentos constantes. Foi-se tornando mais confiável, mais seguro, mais resistente, mais veloz. Quem fala em velocidade, pensa em competição. Foi exatamente o que aconteceu.

Na virada do século XIX para o século XX, surgiram grandes concursos nacionais de corrida por etapas. Cada país fez questão de ter o seu. O Tour de France (1903), o Giro d’Italia (1909), a Vuelta a España (1935), competições prestigiosas, têm sido disputadas sem interrupção até hoje. Só foram suspensas durante períodos de guerra.

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Trecho da corrida Paris-Roubaix

Além dos incontornáveis concursos nacionais, que duram de uns poucos dias a três semanas, há inúmeras corridas regionais ou locais, com duração de algumas horas. Uma das mais antigas é a Paris-Roubaix, que se realiza a cada ano, sempre no mês de abril.

Como seu nome indica, o percurso original levava da capital a Roubaix, no extremo norte, fronteira com a Bélgica. Já faz quase 50 anos que, apesar do nome, a largada é dada em Compiègne, a uns 70km da capital. Essa corrida é conhecida como Inferno do Norte.

Campeão Paris-Roubaix 2013

O troféu da corrida Paris-Roubaix

A razão de qualificativo tão drástico é o fato de uma parte da corrida se efetuar em estrada de paralelepípedos (em geral úmidos, visto que a região é chuvosa). Sem ser ciclista, cada um pode imaginar o que esses 257 km representam de sacolejo, escorregão e pneu furado.

Ciclistas belgas constituem a vasta maioria dos campeões do passado. De cada duas edições, nos últimos 50 anos, uma foi vencida por um corredor belga.

Uma curiosidade dessa corrida é o troféu. O vencedor tem direito a… um paralelepípedo! Limpinho, lavado, escovado, montado sobre uma base, é verdade, mas sempre paralelepípedo será. O mais difícil é, depois de horas de suadeira, ainda encontrar força para fazer o tradicional gesto de levantar os 15-20kg do troféu e exibi-lo à multidão.

Até hoje, a História não registra nenhum vexame.

Publicado originalmente em 13 abril 2014.

A Copa que não é copa

Copa Jules Rimet

José Horta Manzano

Você sabia?

A primeira competição mundial de futebol foi sediada pelo Uruguai em 1930. O vencedor, que era justamente o dono da casa, recebeu da Fifa um troféu chamado “Vitória”. Anos mais tarde, estatueta será rebatizada “Copa Jules Rimet” em homenagem ao antigo presidente da Fifa que idealizou a competição.

A copa era obra do escultor francês Abel Lafleur. Media 35 cm de altura, pesava 3,8 kg e era feita de prata de lei folheada a ouro. Tinha um ar austero que combinava com a época de sua criação, os anos que antecederam a Segunda Guerra mundial.

O trato, estipulado por Jules Rimet, era que o vencedor de cada Campeonato Mundial guardasse a taça por quatro anos e em seguida a devolvesse à Fifa para que fosse entregue ao novo vencedor. O primeiro país que ganhasse o campeonato três vezes ficaria definitivamente com o troféu.

Em 1970, o Brasil venceu a competição pela terceira vez e tornou-se dono da taça definitivamente. Quatro anos antes, na Copa de 1966 organizada pela Inglaterra, o troféu tinha sido roubado durante uma exposição. Foi encontrado embrulhado com jornal, num jardim público, debaixo de uma moita. Enquanto isso, a Fifa já tinha providenciado uma cópia. Esse episódio criou grande confusão, de modo que ninguém até hoje sabe ao certo se a taça que o Brasil recebeu em 1970 era a original ou a cópia.

Com o Brasil tendo se tornado dono do troféu, a Fifa abriu concurso para criação de uma estatueta de substituição. O vencedor foi o artista italiano Silvio Gazzaniga. Sua obra é a que aparece a cada quatro anos e é entregue ao país vencedor – e beijada pelos jogadores. A peça principal é de ouro maciço 18 quilates, mede 36,5 cm e pesa 5 kg. A base, de 13 cm de altura, é ornada com duas placas de malaquita.

Copa Fifa

Esse novo troféu, que circula desde 1974, é propriedade da Fifa. Só aparece na cerimônia final do campeonato a fim de ser erguido e beijado. Logo após, quando se apagam as luzes, é recuperado e guardado em lugar seguro. O país vencedor recebe então uma cópia de aparência idêntica, mas feita de prata de lei folheada a ouro. Como diziam os antigos, “o seguro morreu de velho”.

Desde 1974, quando foi apresentado pela primeira vez, o troféu vem recebendo centenas de beijos. Pelo bem da saúde dos beijoqueiros, espera-se que a estatueta seja desinfetada antes de descansar no cofre à espera da próxima Copa do Mundo.

Agora é que vem a curiosidade. A Jules Rimet, criada em 1930 e entregue definitivamente ao Brasil em 1970, era uma verdadeira copa, ou seja, tinha a forma de um copo com borda octogonal que podia até ser enchido de vinho. Com ela, o campeonato fazia jus ao nome de Copa do Mundo (ou simplesmente Copa, para os íntimos).

Mas o troféu atual, que representa um globo terrestre erguido por duas figuras humanas, está longe de ser uma taça. Em princípio, não faz mais sentido chamar o campeonato de Copa, porque o prêmio final não é um copo nem uma copa. O evento podia ser chamado de “Globo do Mundo”, mas acho que o nome não ia pegar.

Velhos hábitos são renitentes. Até hoje somos muitos a chamar de Copa uma Copa que já faz meio século que não tem copa.

Espanhol: Copa del Mundo
Francês:  Coupe du monde
Sueco:    Världscupen
Italiano: Coppa del Mondo
Inglês:   World Cup
Russo:    Кубок мира (Copa do Mundo)
Sérvio:   Светски куп (Copa do Mundo)
Turco:    Dünya Kupası (Copa do Mundo)

A mudança do capitão

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José Horta Manzano

A imprensa publicou este flagrante do carregamento dos pertences do capitão (clique na imagem para ampliar). Os jornais descrevem como “mudança” do presidente, mas eu acredito que seria mais apropriado falar em “despejo”, que é a palavra adequada para o caso de alguém ser impedido de ficar, e sair de má-vontade.

Noto alguns detalhes curiosos. O objeto que está para subir no caminhão deve ser bem pesado, visto que há seis carregadores atarantados em torno, com ar de conjecturarem sobre o melhor modo de operar.

Note que o objeto não está saindo da residência presidencial (Alvorada), mas do Palácio do Planalto, centro nevrálgico do Executivo, onde fica o escritório do presidente, o gabinete do ódio e onde despacham os generais palacianos.

Pelo jeitão, se objeto não for um desconhecido mumificado, há de ser uma estátua representando uma figura humana em tamanho real. Estátua? Saindo do escritório presidencial? Como assim? Será que o capitão estaria subtraindo parte do patrimônio nacional, como Lula já fez no passado?

Pode ser que seja uma estátua de propriedade de Bolsonaro, trazida por ele para enfeitar sua sala. Ué, mas até as emas de Brasília sabem que Bolsonaro odeia a arte! Coisa mais esquisita.

Ouriços tchecos em Kiev

Suponho que a Presidência conte com uma governanta ou com um funcionário encarregado de controlar tapetes, quadros, mobiliário e outras obras de arte. Se o objeto misterioso tiver sido “tomado emprestado por descuido”, a verdade deve aparecer da próxima vez que fizerem o inventário. Por enquanto, fica o mistério.

Outro detalhe interessante é a proteção antitanque de guerra, aquela fileira de “ouriços tchecos” que se estendem de borda a borda da rampa. Inventados pouco antes da Segunda Guerra, esses dispositivos de aço espesso e resistente são de grande eficácia em situação de batalha urbana. Impedem a passagem de todo veículo leve ou pesado e até de tanques de guerra.

Na rampa do Planalto, estão pintadinhos de branco, que é pra evitar chocar alguém. Quem terá mandado instalar? O presidente quase ex-presidente ou o ex-presidente quase presidente? Ao subir a rampa, dia 1° de janeiro, será que Lula & acompanhantes vão ter de saltar por cima desses obstáculos? Vai ser um espetáculo pra lá de gracioso, não percam!

Pra vocês verem quanto uma foto despretensiosa pode nos revelar. Basta observar.

Licence to kill

License to kill – Autorização para matar

José Horta Manzano

Arthur Lira, presidente da Câmara, corre pra fazer aprovar com rapidez uma PEC visando a transformar automaticamente ex-presidentes da República em senadores vitalícios.

A PEC propõe proibir ex-presidentes de voltar a concorrer a cargos eletivos, mas garantir que continuem para sempre cobertos pela imunidade presidencial.

Digam o que disserem, pra mim esse negócio é verdadeira autorização para delinquir. Daqui para a frente, todo presidente será intocável pelo resto da vida, ainda que tenha cometido crimes e barbaridades iguais aos de Bolsonaro ou até piores.

Se o projeto vingar, Bolsonaro estará tranquilo pelo resto de seus dias. E Lula pode trambicar de novo com sítio em Atibaia, triplex no Guarujá ou lingotes de ouro nas Bahamas, tudo com garantia de impunidade até seu último dia de vida.

É sério ou estão brincando? Afinal, que país é este?

Fronteira entre os pés e a cabeça

Hôtel Franco-Suisse
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José Horta Manzano

Você sabia?

Muitas das fronteiras entre o Brasil e os países vizinhos cruzam zonas escassamente povoadas, notadamente na região amazônica. Uma linha demarcatória tanto pode seguir cursos d’água – caso em que será dita «fronteira natural», como pode ser representada por divisor de águas ou por traçado artificial riscado num mapa. Neste caso, teremos uma «fronteira seca».

Fronteiras secas costumam ser assinaladas por balizas plantadas no solo. Antigamente, eram de pedra. Hoje em dia, é mais comum o concreto. A elas dá-se o nome de marcos divisórios ou geodésicos.

No Brasil, certos trechos de fronteira contam com balizas bastante espaçadas, uma aqui, outra quilômetros adiante. No fundo, tanto faz, que pouca gente passa de um lado para o outro. Na Europa, dada a densidade da população, fronteiras são demarcadas com bastante rigor.

Marco divisório suíço

O Tratado de Dappes, acertado em 1862 entre a França e a Suíça, delimita com precisão um trecho da fronteira entre os dois países na região dos Montes Jura. O acordo, concluído em dezembro daquele ano, ficou programado para entrar em vigor em fevereiro do ano seguinte.

Um certo Monsieur Ponthus, proprietário de um terreno no povoado de La Cure, ficou sabendo que seu lote seria atravessado pela nova fronteira. Aproveitou-se do intervalo e, pelas caladas e às pressas, erigiu imóvel provisório bem em cima da linha. A intenção era de contrabandear chocolate, tabaco e bebidas alcoólicas.

Assim que o tratado entrou em vigor, a construção era fato consumado – e com porta dos dois lados da fronteira, faz favor. E assim foi ficando. Com o tempo, os sucessores do esperto cavalheiro ampliaram o imóvel e o transformaram em hotel-restaurante. O estabelecimento funciona até hoje.

Alguns quartos do hotel oferecem ao hóspede a curiosa possibilidade de dormir com a cabeça na Suíça e os pés na França. Ou vice-versa. Na escada que leva ao segundo andar, o 7° degrau marca a fronteira entre os dois países. Alguns asseguram que a linha verdadeira passa pelo 13° degrau. A controvérsia persiste.

O hotel e a fronteira

Durante a Segunda Guerra, com a França ocupada pelo exército alemão enquanto a Suíça permanecia neutra, a singularidade do local deu margem a uma movimentação sui generis. Além do contrabando habitual, inúmeros judeus perseguidos pelos nazistas conseguiram escapar entrando pelo lado francês e saindo do outro lado, já na Suíça, onde os alemães não podiam intervir. Dizem que outros fugitivos seguiram o mesmo caminho – paraquedistas ingleses entre eles. É verdade que não durou muito tempo. Militares alemães logo se deram conta do vazamento e condenaram portas e janelas do lado francês. Depois de tudo emparedado, ninguém mais passou.

Impávido, o Hôtel Franco-Suisse continua lá até hoje. Nestes tempos modernos, sem os controles de antigamente, a alfândega é relíquia de outras eras.

O imóvel representa um quebra-cabeça administrativo tanto para a França quanto para a Suíça. A situação é tão intrincada que Paris e Berna preferem empurrar com a barriga e deixar como está. Não vale a pena travar batalha judicial por tão pouco.

Publicado originalmente em 6 jul° 2015.