A avó da Europa

Lago de Lucerna (Suíça)
aquarela pintada pela rainha Victoria em 1868

José Horta Manzano

Recordes são feitos pra serem batidos. Antes do longo reinado de Elizabeth II, o recorde de longevidade no trono britânico tinha sido proeza de sua bisavó, a rainha Victoria (1819-1901), que subiu ao trono em 1837 e reinou por 64 anos, até sua morte.

Aos 21 anos, em 1840, casou-se com Albert, um príncipe alemão. Tiveram nove filhos e quarenta netos. Muitos descendentes se casaram com membros da realeza europeia.

Seus bisnetos – contando só os legítimos – são 142. Entre eles, há gente conhecida: a rainha Elizabeth II e o marido Philip, o rei Juan Carlos I da Espanha e sua mulher Sofia, o rei Constantino II da Grécia e sua mulher Anne-Marie.

Além desses descendentes que se casaram com primos distantes, há outros: o rei Harald V da Noruega, o rei Carl XVI Gustaf da Suécia, a rainha Margrethe II da Dinamarca, o rei Peter II da Iugoslávia e o rei Michel I da Romênia.

Nesse elenco, só aparecem os bisnetos que se tornaram reis; ficam de fora príncipes, duques, viscondes e quetais.

Victoria enviuvou em 1861, aos 42 anos. Daí pr’a frente, perdeu gosto pela vida. Vestiu-se de preto e nunca mais abandonou o luto. Alguns anos depois da morte do marido, chegou a um estado de grande cansaço, de desânimo, de estafa. Hoje o diagnóstico seria certamente mais sofisticado; na época, falou-se de esgotamento nervoso.

Foi organizada uma viagem de algumas semanas à Suíça. Para espairecer e mudar de ares, a rainha veio em 1868. Testemunhas relatam que ela adorou a temporada. Dado que ela falava alemão, pôde conversar com gente do povo, especialmente com trabalhadores agrícolas. Ficou encantada de ver que as vacas tinham nome e que, quando seu nome era pronunciado, cada uma respondia ao chamado e se aproximava. Na Inglaterra, tinha disso não.

A rainha, que gostava de pintar, registrou a paisagem que vislumbrava do Lago de Lucerna. É a imagem que ilustra este artigo.

Victoria é, de certa forma, a “avó da Europa” – ou, pelo menos, da realeza europeia.

2 pensamentos sobre “A avó da Europa

  1. Gostei dessa crônica,

    PORTUGAL AOS OLHOS DE UMA BRASILEIRA

    Ruth Manus é advogada e professora universitária e escreve num blogue num Jornal de S. Paulo. E escreveu isto sobre Portugal, num texto que deve ser (é !) um orgulho lermos:

    «Dentre as coisas que mais detesto, duas podem ser destacadas: Ingratidão e pessimismo. Sou incuravelmente grata e optimista e, comemorando quase 2 anos em Lisboa, sinto que devo a Portugal o reconhecimento de coisas incríveis que existem aqui, embora me pareça que muitos nem percebam.

    Não estou dizendo que Portugal seja perfeito. Nenhum lugar é. Nem os portugueses são, nem os brasileiros, nem os alemães, nem ninguém. Mas para olharmos defeitos e pontos negativos basta abrir qualquer jornal, como fazemos diariamente. Mas acredito que Portugal tenha certas características nas quais o mundo inteiro deveria inspirar-se. Para começo de conversa, o mundo deveria aprender a cozinhar com os portugueses. Os franceses aprenderiam que aqueles pratos com porções minúsculas não alegram ninguém. Os alemães descobririam outros acompanhamentos além da batata. Os ingleses aprenderiam tudo do zero. Bacalhau e pastel de nata ? Não. Estamos falando de muito mais. Arroz de pato, arroz de polvo, alheira, peixe fresco grelhado, ameijoas, plumas de porco preto, grelos salteados, arroz de tomate, baba de camelo, arroz doce, bolo de bolacha, ovos moles. Mais do que isso, o mundo deveria aprender a se relacionar com a terra como os portugueses se relacionam. Conhecer a época das cerejas, das castanhas e da vindima. Saber que o porco é alentejano, que o vinho do Porto é do Douro. Talvez o pequeno território permita que os portugueses conheçam melhor o trajeto dos alimentos até a sua mesa, diferente do que ocorre, por exemplo, no Brasil. O mundo deveria saber ligar a terra à família e à história como os portugueses. A história da quinta do avô, as origens transmontanas da família, as receitas típicas da aldeia onde nasceu a avó. O mundo não deveria deixar o passado escoar tão rapidamente por entre os dedos. E se alguns dizem que Portugal vive do passado, eu tenho certeza de que é isso o que os faz ter raízes tão fundas e fortes. O mundo deveria ter o balanço entre a rigidez e a afecto que têm os portugueses. De nada adiantam a simpatia e o carisma brasileiros se eles nos impedem de agir com a seriedade e a firmeza que determinados assuntos exigem. Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos. Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afecto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correta de cada elemento, ainda que de forma inconsciente. Todo país do mundo deveria ter uma data como o 25 de Abril para celebrar. Se o Brasil tivesse definido uma data para celebrar o fim da ditadura, talvez não observássemos com tanta dor a fragilidade da nossa democracia. Todo país deveria fixar o que é passado e o que é futuro através de datas como essa. Todo idioma deveria conter afecto nas palavras corriqueiras como o português de Portugal transporta . Gosto de ser chamada de “ miúda“. Gosto de ver os meninos brincando e ouvir seus pais chama-los carinhosamente de “ putos “. Gosto do uso constante de diminutivos. Gosto de ouvir ” magoei-te ? ” quando alguém pisa no meu pé. Gosto do uso das palavras de forma doce. O mundo deveria aprender a ter modéstia como os portugueses, embora os portugueses devessem ter mais orgulho desse seu país do que costumam ter. Portugal usa suas melhores características para aproximar as pessoas, não para afastá-las. A arrogância que impera em tantos países europeus, passa bem longe dos portugueses. O mundo deveria saber olhar para dentro e para fora como Portugal sabe. Portugal não vive centrado em si próprio como fazem os franceses e os norte americanos. Por outro lado, não ignora importantes questões internas, priorizando o que vem de fora, como ocorre com tantos países colonizados.

    Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece. Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal.

    Ruth Manus

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