Molière e Machado

Jean-Baptiste Poquelin, dito Molière
(1622-1673)

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, uma proposta, não me lembro de quem, causou escândalo. Sugeria que os livros de Machado de Assis fossem reescritos em linguagem moderna, compreensível para os brasileiros do século 21.

Os que ainda conseguem entender a obra de Machado tim-tim por tim-tim ficaram de cabelo em pé. Já os que pouco leem talvez nem tenham ficado sabendo da polêmica. Não sei se a ideia foi levada adiante.

Este 15 de janeiro marca o 400° aniversário de nascimento de Molière, ator e dramaturgo, o escritor de língua francesa mais conhecido no mundo todo. A importância dele para a cultura francesa pode ser medida pelo número de palavras que seu nome legou aos dicionários: moliérien (=molieriano), moliériste (=molierista), moliéresque (=molieresco), moliérisant (=molierizante), moliérophile (=molierófilo), moliéromane (=molierômano), moliérophobe (=molierófobo).

Nascido em 1622, Molière se exprimia no estilo de seu tempo, com todos o maneirismo e os rodopios característicos daquele início de reino de Luís 14. Suas peças de teatro, escritas em elaborados versos alexandrinos (de 12 sílabas), representam um requinte nas artes cênicas.

O problema é que, compostos quatro séculos atrás, seus versos são hoje de difícil compreensão. Se os eruditos se sentem à vontade no universo “molieresco”, o mesmo não ocorre com gente comum, especialmente os mais jovens. É uma pena o cidadão pagar a entrada e refestelar-se na poltrona do teatro pra passar duas horas ouvindo uma sequência de versos e rimas cujo significado muitas vezes lhe escapa.

Há atualmente um movimento, liderado por um temerário professor de literatura, que propõe a reescritura das peças “molieranas” traduzidas para a linguagem atual. A ideia, naturalmente, aborrece os poucos que ainda conseguem captar a verve e o humor de peças escritas há quatrocentos anos. Há também aqueles que, embora não sejam especialistas nos originais de Molière, respeitam a sacralização do grande autor e preferem que não se modifique nem uma vírgula.

Ainda que alguém se arriscasse a “traduzir” alguma peça para o francês moderno, seria difícil encontrar um editor que publicasse o resultado. Mais difícil ainda, se não impossível, seria convencer um teatro a permitir a montagem e apresentação da peça.

Uma outra ideia está no ar. É a tradução simultânea, a ser afixada logo acima (ou logo abaixo) da cena, como se faz para óperas. Talvez floresça, talvez não. Quando se tenta mexer em monstros sagrados, muita gente faz corpo duro, especialmente em países orgulhosos de seu patrimônio cultural, como a França.

No caso de Machado de Assis, a maior parte de sua obra foi escrita em prosa. É matéria para livro, não para o palco. Reescrever algum livro seu e publicá-lo no lugar do original me parece um sacrilégio, um atentado à memória do autor. Já uma edição “bilíngue”, em que o texto original seja cotejado com a “tradução” em linguagem atual não me parece uma afronta à glória do autor.

Se alguma obra de Machado já não tiver sido editada nesse formato, fica a ideia.

4 pensamentos sobre “Molière e Machado

  1. Eu não tenho dúvidas de que a língua vai evoluir em direções não pretendidas pelos acadêmicos, que algumas línguas vão desaparecer e outras serão criadas (como o “internetês”). Mas, mais uma vez, me pergunto: facilitar para quê? se houvesse o menor interesse de conhecer melhor o patrimônio cultural de cada povo, as próprias pessoas tomariam essa iniciativa. A linguagem de Machado e de Molière pode soar como sânscrito para os mais jovens mas certamente não vai ser através da facilitação do entendimento das palavras que eles vão apreender o que era o Brasil ou a França em priscas eras.

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    • Não se deve esquecer de uma coisa: o nível do corpo docente baixou nestes últimos 50 anos. Baixou muito. Desapareceram as sumidades que nos davam aulas magistrais. Não me espantaria que os professores de hoje entrassem em pânico ao serem convidados a esclarecer os alunos sobre certas minúcias da escrita de Machado de Assis ou de outros autores do século XIX.

      Daí a utilidade de obras “bilíngues”. Serviriam tanto para os alunos quanto para os mestres. Respeitariam o texto original, ao guardar seu sabor. Ao mesmo tempo, facilitariam o aprendizado do leitor interessado.

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