O Zé suave

José Horta Manzano

Às vezes aparecem na mídia notícias que não contam tudo, deixando em branco parte da história. Todos os jornais informaram que um cidadão conhecido pelo suave apelido de Zé Trovão “se entregou espontaneamente à PF de Joinville (SC)”.

Como o Brasil inteiro está sabendo, fazia semanas que o moço vivia sob ameaça de encarceramento, visto que pesava contra ele um mandado de prisão expedido diretamente pelo STF. Não é qualquer um que tem prisão decretada pela Corte Maior, deferência reservada para infratores da mais elevada categoria. Coisa fina!

Soube-se que o exaltado caminhoneiro, quando se viu acuado, não ousou enfrentar a Justiça para responder, peito aberto, de seus malfeitos. Decidiu dar um passeio no exterior. Chegou a pedir asilo político (sic!) no México. Não tendo sido atendido e não enxergando outra via de saída, achou melhor voltar pra casa.

É aqui que a história contada pela imprensa é vaga. Ninguém informa como é que o rapaz se virou pra voltar. Suponho que não tenha vindo do México a pé, nem de bicicleta através do que ainda resta de floresta amazônica. É quase certeza que veio de avião.

Esse avião terá pousado no Brasil, num aeroporto internacional, daqueles em que gente comum tem de fazer fila, passar pelo guichê e apresentar passaporte. Como é que ele fez? Como é possível que o suave Zé, procurado por todas as polícias do mundo e com o rosto estampado em toda a mídia do país, tenha passado em branco sem ser reconhecido por ninguém?

Tem mais. As notícias informam que ele se apresentou à PF de Joinville por ser morador daquela cidade catarinense. Sabe-se inclusive que deu as caras no posto de polícia às 14 horas. Aqui vai nova suposição minha: imagino que tenha passado a noite (ou pelo menos algumas horas) em casa.

Agora vem a pergunta: ninguém viu o homem chegar do exterior? Ninguém controlou nem verificou quando entrou em casa? De táxi, a pé, acompanhado de um cúmplice?

Como é possível que o domicílio de um afamado foragido da justiça não seja objeto de monitoramento 24h por dia? O domicílio é conhecido. O procurado é um indivíduo importante, visto ter prisão decretada pelo STF, o que não é pra qualquer capiau. E ninguém manda vigiar a casa do homem?

Se alguém tiver mais informações, peço encarecidamente que mande cartas para a Redação.

5 pensamentos sobre “O Zé suave

  1. Pingback: – O Zé Suave. | DISCUTINDO CONTEMPORANEIDADES

  2. Quando eu era meninote, costumava assistir a filmes franceses e ingleses e, se eram filmes de assalto a bancos e outros atos ilícitos, os malfeitores sempre acabavam fugindo para o Brasil, no final do filme. Eu sempre achava interessante. Minha inocência de criança não alcançava aquilo que os diretores europeus já sabiam, em 1950: o Brasil era, é e sempre será refúgio para bandidos. Talvez esteja aí a explicação do porquê o Zé Trovão não foi detectado no guichê de checagem de passaporte na Polícia federal no aeroporto por onde ele entrou no Brasil. Eu só me pergunto pra quê temos esse sistema de passaporte, que custa ao contribuinte R$ 257,00 para ser confeccionado, se é um documento sem qualquer serventia para sua finalidade de controle de pessoas. Talvez seja apenas usado para arrecadar muito dinheiro em sua confecção.
    Interessante é que Zé Trovão poderia ter ficado escondidinho, e ninguém iria saber que ele já tinha voltado. Afinal, qual o nome dele? No Brasil, até os nomes fictícios ajudam os criminosos. Será que no passaporte havia um Zé Trovão em letras garrafais?
    Continuamos, em 2021, sendo o mesmo destino para bandidos e foras-da-lei.

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    • Toni, não tenho certeza de que nosso país ainda sirva como exílio dourado para a bandidagem internacional. Tirando algum malfeitor desinformado, bandido que se preze pensa duas vezes antes de se refugiar em nossa terra. Nossos bandidos nacionais subiram de patamar e estão hoje tão perigosos quanto os importados. Ou mais.

      Você tem razão, emissão de passaporte é excelente fonte de renda para os cofres públicos. Todo ano, alguns milhões de reais são assim acrescentados ao erário – para maior comodidade das Excelências que costumam se servir no baú da Viúva. Afinal, alguém tem de custear o orçamento secreto. Ou não?

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