O que se leva desta vida

Dr. Oswaldo Cruz e a vacina
charge de Arthur ‘Bambino’ Lucas (?-1929), desenhista carioca

 

José Horta Manzano

No começo do século 20, surtos frequentes de varíola assolavam o Rio de Janeiro. Embora a vacina antivariólica tivesse sido criada cem anos antes, o governo nunca havia organizado nenhuma campanha de imunização em massa. Em 1904, a Saúde Pública instituiu a vacinação obrigatória contra a varíola, fato que acendeu o estopim de uma rebelião popular que ficou conhecida como Revolta da Vacina.

É interessante notar que não foram as estatísticas de doentes que ficaram na história, mas a Revolta da Vacina. A varíola causou certamente mais sofrimento e perdas humanas do que a revolta, mas a história guardou o fato mais espetaculoso, aquele que botou mais medo que a doença.

Neste começo de século 21, os humanos estão tendo de encarar assalto de doença nova: a covid-19. Dado que o mal é recente demais, no ano passado ainda não havia nem vacina pronta pra ser usada.  Dezenas de laboratórios trabalharam com afinco e, para surpresa de todos, vários deles conseguiram oferecer imunizantes, menos de um ano depois da notificação do primeiro caso. Uma façanha!

O mundo se jogou em cima dessas novas vacinas. Israel, por exemplo, foi ainda mais rápido que os outros; contratou, recebeu, aplicou antes dos demais. Hoje está com quase todos os habitantes vacinados.

O Brasil de Bolsonaro desviou da rota do bom senso e seguiu em direção oposta. O presidente fez (e continua fazendo) campanha contra a vacinação. Sem se dar conta do mal que já causou e que continua a causar, não perde ocasião pra mostrar animosidade contra tudo o que possa limitar o alastramento da epidemia: máscaras, confinamento, distanciação social e, naturalmente, vacinas. Esta não presta porque é chinesa; aquela não compro porque não me ofereceram; aqueloutra nem pensar porque te transforma em jacaré. No fundo, a gente fica desconfiado que, na verdade, ele deve ter medo de injeção.

É difícil prever, especialmente o futuro – como diz o outro. Mas fazer previsões a longuíssimo prazo é moleza e não compromete; de qualquer maneira, quando chegar o tempo previsto, nenhum de nós vai mais estar aqui pra conferir. Então, vamos lá.

Daqui a cem anos, quando tivermos virado pó, os livros de história vão mencionar o turbulento período 2020-2021. Creio que o comportamento de Bolsonaro vai ser mais comentado do que a epidemia em si. A passagem do tempo vai escancarar cada vez mais a responsabilidade do doutor.

Assim como falamos hoje da Revolta da Vacina de 1904 mas esquecemos de contar as vítimas da varíola, nossos descendentes crucificarão Bolsonaro como o responsável pela ausência da vacina que teria estancado o morticínio.

Ele será um Joaquim Silvério dos Reis do século 21, o homem que traiu a confiança que nele haviam depositado os cidadãos. A história das nações está recheada de mitos que simbolizam tanto episódios gloriosos, quanto momentos execráveis. Bolsonaro vai entrar para a galeria de “mitos” brasileiros, a representar o papel de traidor dos ideais da nação. Será o símbolo de tudo o que o Brasil não quer.

4 pensamentos sobre “O que se leva desta vida

  1. Olá. Mais uma vez elegemos um presidente que decepcionou. Mais um que entra para história pelo erros. Pela administração em causa própria indo contra os anseios do povo. Pior que a situação de caos em todos os setores da saúde, economia, educação e outros vinculados essenciais e básicos de um país é o descrédito da população que a cada dia perde mais a esperança de que isso possa mudar. Além disso ver outros poderes indo pelo mesmo caminho. Porque o executivo, legislativo e judiciário não se entendem, parecem que são concorrentes visando tão somente a desestabilização um do outro. Hoje o povo brasileiro, considerando as pessoas mais esclarecidas não conseguem ver uma luz no fim do túnel. Quem consegue visualizar o Brasil alguns anos a frente lamenta muito que estejamos indo para o fundo do poço cavando sempre para baixo e sem
    perspectivass de saída. Alguma coisa tem que ser feita agora. Mas como sabemos que as pessoas que estão no poder não estão nem um pouco interessadas o povo fica só na retaguarda aguardando os acontecimentos. Pessoas que poderiam mudar isso, não tem força contra o poder e também não tem apoio do povo que não tem cultura para escolher o lado certo. Falei muito. Abs. Amigo.

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    • Olá, Wagner!

      Tem razão, o sentimento que invade os brasileiros de bom senso é a desesperança. Quando a gente acha que vai melhorar… catapum! Lá vem coisa pior.

      A falta de instrução do povo explica uma parte, mas não tudo. Quando a gente se lembra que os alemães – que ignorantes não são – içaram um Hitler ao poder! Deve haver outra coisa além da falta de cultura.

      Não tenho certeza, mas às vezes penso que pode ser a ingenuidade – que não tem nada a ver com grau de escolaridade. Acredito que todos os povos tenham uma certa dose de ingenuidade. Nenhuma população é composta unicamente de espertos nem somente de inocentes.

      Certos momentos históricos em que ninguém aguenta mais favorecem o surgimento de figuras populistas, aqueles “salvadores da pátria” que se aproveitam da situação de fragilidade do povo. Foi o que aconteceu no Brasil nas últimas presidenciais. Se o eleitor soubesse quem era o verdadeiro Bolsonaro, ele jamais teria sido eleito. O brasileiro foi ingênuo.

      Abraço.

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  2. Ontem à noite o Villa disse com todas as letras: “Não sou pitonisa, mas basta um mês de CPI da covid para Bolsonaro cair. Não precisa nem chegar ao fim. Pode conferir, podem me cobrar”. Achei que não passava de bravata, mas lembrei que ele não costuma falhar nas suas previsões. Vamos manter nossos dedos cruzados e rezar para que um anjo tenha passado naquele momento e dito amém.

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