Pro santo

José Horta Manzano

Estamos em época de preenchimento de vaga no STF. Brasília ferve. Candidatos não faltam. Dado que cabe ao presidente da República indicar um nome, postulante que se preza tem o dever de ofício de bajular doutor Bolsonaro. Muitos foram os candidatos, mas só um foi escolhido. E o indicado é… doutor Kassio Marques! Naturalmente, desde que o Senado da República dê aval, fato que, nos tempos que correm (e nas benesses que correm por trás), é dado como favas contadas.

Doutor Kassio vem reforçar o time dos que têm K, W ou Y no nome. Este blogueiro é do tempo em que essas letras eram, por assim dizer, proibidas. A professora ensinava que eram estrangeiras. É como se, para entrar em nossos livros, tivessem de apresentar passaporte visado.

A gente tinha inveja de quem tinha uma dessas letrinhas no sobrenome. Os pais de doutor Kassio hão de ter sofrido desse complexo de não-estrangeiridade. Como sentiam falta das letrinhas no sobrenome e não havia jeito de inseri-las, tascaram um K no nome do filho, logo no começo, que é pra todo o mundo ver. O novo integrante fará companhia a doutora Weber e a doutor Lewandowski. No quesito passaporte visado, no entanto, este último é campeão até agora imbatido: tem dois W no sobrenome.

Ilibada
Como manda a Constituição, o Senado avaliará se o indicado é ou não é senhor de notável saber jurídico. Confirmará também se sua reputação é ilibada. Interessante, esta última palavra. Anda sempre com a reputação a tiracolo. Nunca a vi em companhia de outro substantivo. De onde vem ela?

Vem de libar – verbo raramente utilizado, embora corresponda a um gesto que se vê frequentemente. Libar significa entornar no chão a bebida que estava num copo. Era costume dos romanos de dois mil anos atrás. Em determinados cultos aos deuses, o oficiante apanhava um cálice de bebida, aflorava com os lábios e versava o conteúdo ao solo em oferenda.

O verbo saiu de uso no português atual, mas o gesto perdura, embora um pouco mais egoísta. O legítimo bebedor de cachaça entra no boteco e pede uma caninha. Em seguida, inverte a ordem da oferenda. Primeiro, joga um trisquinho no chão, um presente ao santo – pouco, mas suficiente pra não deixar ninguém aguado. Em seguida, engole o resto (ou seja, praticamente tudo).

Mas fiquem frios: no governo atual, não há mais cachaceiros. São todos devotos da tubaína. E de um delicioso pãozinho encharcado com leite condensado. Nada de dar pro santo, porém! E quem deixar pingar na toalha paga o almoço!

Ilibado entrou no uso comum com o significado de inteiro, não tocado, não corrompido, imaculado, puro. É a isso que a Constituição se refere ao exigir reputação ilibada.

Falando de STF
Achei interessante esta chamada do Estadão deste 12 de outubro. É verdade que a Constituição não proíbe que membros do STF conversem com as paredes. Assim mesmo, o bom senso faz supor que nem doutor Fux, nem os demais ministros, têm o hábito de falar sozinhos. Tudo o que dizem é dito a alguém. Esse alguém é designado como interlocutor. Interlocutores podem ser colegas, a esposa, um contínuo, um motorista ou jornalistas. Em resumo, é evidente que, quando se diz algo, diz-se a interlocutores.

A chamada não perderia nada se eliminasse “a interlocutores”. Ficaria mais enxuta, mais elegante, e daria o mesmo recado. Em tempos de penúria, cortar excessos é dever de todos.

4 pensamentos sobre “Pro santo

    • Acredito que a causa seja a simplicidade dos pais aliada à ignorância do funcionário do cartório, indevidamente formado para o ofício que exerce.

      Pessoas simples (e outras nem tanto) botam nos filhos nomes com Ks, Ws, Hs e ‘psilônes’ deslocados. Então temos crianças chamadas Gracielly (=Graziella), Ruanny (=Juan!), Maicon (=Michael), Phellype (=Phillipe), Kyara (=Chiara) e, naturalmente, Kássio (Cássio). São crianças que um dia serão adultas. E podem chegar ao STF, como de fato esse doutor está chegando.

      Escrivães, escreventes e donos (sim, no Brasil são donos!) de cartórios tinham de ser instruídos para barrar nomes que, no futuro, possam expor a criança ao ridículo. De pais iletrados, é compreensível que venham essas barbaridades. De cartorários e cartoreiros, não.

      Nem precisa de lei, basta usar bom senso. Se pais contrariados decidirem procurar um juiz, que procurem. Se o juiz lhes der razão, que se registre o nome esquisito. Que fazer? Mas só uma minoria, tenho certeza, levará o caso adiante. A grande maioria vai se conformar com a recusa do cartório.

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  1. No meu caso, suponho (um tantico envergonhada, admito, por me sentir contemporânea dos dinossauros) que tenha influenciado mais a forma de escrever naquele tempo – ainda que os mineiros (como meu pai) sejam conhecidos por dar nomes esdrúxulos a seus rebentos. Coincidentemente, meu tio por parte de mãe era dono de um cartório e prezava muito a correção ortográfica. Pelo que minha mãe contava, o meu nome foi retirado de uma personagem romântica feminina, protagonista do livro que ela estava lendo durante a gestação. Já imaginou se ela estivesse lendo a história de Édipo e tivesse decidido me chamar de Jocasta? Sofri muito a vida inteira porque as pessoas não sabiam (muitas ainda não sabem) como escrever meu nome. Cheguei a receber uma carta endereçada a Mrrssth, acredita?

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    • Doutor Kassio nasceu nos anos 70. Para ele, não vale a indulgência com a qual o seu caso pode ser analisado.

      Além do que, Cassio é nome romano (cf. Via Cassia), escrito pela primeira vez em latim. Na origem, essa língua não contava com a letra K, que só veio a ser adicionada quando a Via Cassia já estava lá, calçada, a homenagear a “gens Cassia”. Cassiano, prenome também bastante difundido, é da mesma família.

      Kassio entra na equação (Gente simples + Cartorário mal formado) = Desastre garantido.

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