O guia

José Horta Manzano

Neste 8 de maio, a Europa celebra o 75° aniversário da rendição da Alemanha, que marcou o fim da Segunda Guerra em terras europeias. Para ver o término definitivo do conflito, seria preciso esperar a capitulação(*) do Japão, que só ocorreria quatro meses mais tarde.

Estes dias, visto que a epidemia de covid-19 arrefece, rádios e tevês voltam a transmitir programação habitual. Entre outras emissões, mostram filmes, relatos e debates sobre as semanas que antecederam o fim da guerra.

Ainda que hoje seja difícil acreditar, o regime nazista fanatizou toda a população da Alemanha. O mais fanático de todos era o Führer (=Guia) Adolf Hitler. Convencido de ser Deus na Terra, estava certo de que, sem ele, o povo alemão não sobreviveria. Para manter-se no comando supremo, estava disposto a sacrificar o povo – como de fato fez. A destruição do país só foi suspensa quando não havia praticamente mais nada a destruir.

Apesar de sentir um calafrio, não pude me impedir de comparar a situação da Alemanha de 1945 com a do Brasil de 2020 – resguardadas as devidas proporções, naturalmente. São momentos em que o povo se encontra sob o jugo de um tirano de poucas letras, fanático, autoritário e surdo a todo chamamento da razão. Ambos os ‘guias’, tanto o alemão quanto o brasileiro, sacrificariam o próprio povo em defesa de seus interesses pessoais.

Para sorte nossa, a comparação pára por aqui. A Alemanha, descuidada, havia conferido todos os poderes a seu guia; quando se deu conta de que caminhavam para o desastre, era tarde demais. O Brasil, para nosso alívio, tem instituições que condividem o poder com o ‘guia’; em outras palavras : temos rédeas pra domar os ardores do potro chucro.

(*) Costuma-se usar as palavras capitulação e rendição como sinônimas. No duro, não são sinônimas perfeitas.

Capitulação é rendição condicional. O exército que perdeu entrega as armas amparado por um acerto feito previamente com o vencedor. Esses acordos costumam ter cláusulas – capítulos –, daí o verbo capitular. Foi o que aconteceu entre os EUA e o Japão em 1945.

Rendição incondicional é a expressão que se usa quando não há acordo. O perdedor simplesmente entrega as armas porque já não tem força suficiente para impor condições. Foi o que aconteceu em 1945 entre a Alemanha e as potências vencedoras.

Um pensamento sobre “O guia

  1. Estamos juntos na mesma sensação. Sinto-me judia vivendo em 1933, na Alemanha. Nosso führer tropical não dá descanso a nossos ouvidos e mentes um só dia. A loucura geral intimida, sufoca mais do que a falta de ar provocada pelo coronavírus. A impressão de final de feira enlouquece.

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