Clandestinos deportados

José Horta Manzano

Devo ter falado sobre este assunto, mas vale a pena reiterar; as recaídas são frequentes. Refiro-me à besteiras que figurões proferem quando de viagem ao estrangeiro. Chefes de Estado – mas não só – são vítimas dessa arapuca. Serão os ares diferentes, tropicais ou árticos, do lugar visitado. Serão os colares de flores que recebem de moças jovens e sorridentes. Serão os rituais de compressão e descompressão atmosférica a que são submetidos no avião.

Até hoje, ninguém veio com explicação convincente. Até o papa já falou demais e acabou dizendo o que não devia quando de viagem aérea, rodeado de jornalistas e fotógrafos. Nosso doutor Bolsonaro – logo ele! – não havia de ser exceção.

Logo após a chegada à Índia, perguntaram-lhe o que pensava da recente deportação de uma leva de brasileiros por parte dos EUA. Numa curta fala de menos de 50 palavras, soltou duas enormidades.

Como todo bom populista, nosso presidente encontrou solução simples para um problema espinhoso. Para evitar expulsão, pontificou: «É só você não ir para os Estados Unidos de forma ilegal». Equivale a responder ao honesto cidadão que reclama de ter de esperar muito na fila do SUS: «É só você não ficar doente, pô!» Excelente maneira de transferir à vítima o ônus do sufoco.

Colar de flores para acolher visitantes

Não ficou nisso. Na mesma fala, um Bolsonaro inebriado pelos eflúvios da cozinha indiana passou atestado de fracasso na condução do país onde o escolheram para presidente. Como justificativa para o fato de um brasileiro se arriscar a entrar de penetra nos EUA, foi taxativo: «Qual país está dando certo? Brasil ou Estados Unidos?». Não deu a resposta, nem precisava. Pelo contexto – cidadãos abandonando um país para tentar se estabelecer em outro – evidente está que o ‘outro’ está dando certo. Por oposição, o país de origem não está.

Já vivi muitos anos. Já morei em vários países. Já ouvi quantidade de presidentes. Juro que é a primeira vez que ouço um chefe de Estado que, depois de ter governado por um ano inteiro, declara que o país cuja direção lhe foi confiada não está dando certo. É grave, distinto leitor. Em terras onde houvesse ouvidos mais atentos, um clamor se levantaria pra exigir demissão imediata. Se o chefe do projeto constata (e confessa) que seu trabalho não está dando resultado, a solução é simples: porta e rua! Confissão de fracasso dá lugar ao encerramento da missão. No mundo normal, é assim que funciona. Já aqui…

Não dá mais tempo, mas deixo a sugestão para uso de doutor Bolsonaro da próxima vez. (Não cobro direitos autorais; pode usar e abusar sem citar fonte.) O caminho a seguir deveria ter sido:

Nossos jovens foram abandonados durante anos por esses comunistas da esquerda, taoquei? E deu nisso aí, ó: tá tudo mais pra mendigo que pra cidadão normal. Mas ‘tamo trabalhando duro pra consertar isso aí, taoquei? Garanto que, no fim do meu governo, até esses aí, ó, se quiserem viajar, vai ser pra visitar a Disney e não pra entrar de clandestino, taoquei?

Pronto, é isso que se espera de um presidente. Bom senso, principalmente na hora de falar em público. Um pouco de jogo de cintura não faz mal a ninguém. Do titular atual, não se pode esperar muito. Não se tira leite de pedra.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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