A fome e o meio ambiente

José Horta Manzano

Diante da recusa do chefe, que refugou na hora de embarcar para o Fórum Econômico Mundial, doutor Paulo Guedes se armou de coragem e foi enfrentar o frio de Davos. (Na passada madrugada, o termômetro marcou 12 graus abaixo de zero.)

Para não ir, doutor Bolsonaro alegou razões de segurança. Pegou mal porque ninguém acreditou. Por coincidência, está hoje discursando em Davos o amigo dele, Donald Trump, seguramente o homem mais protegido do mundo.

Quando o avião do presidente dos EUA pousa no pequenino aeroporto de Davos, pode-se observar um balé de dez helicópteros girando em torno da pista, em baixa altitude. A partir daí, entra em cena a comitiva de carrões pretos, blindados, com vidros fumês, cheios de homens troncudos, mal-encarados e bem armados. Essa turma acompanha Trump onde quer que ele vá. Onde estiver Trump, a segurança é pra lá de garantida. Estes dias, pode haver atentado até nos EUA – em Davos, é certeza que não haverá.

A razão do não comparecimento de nosso presidente há de ser outra. No ano passado, quando discursou, ele parecia calouro prestes a cantar um samba em programa de rádio. Provavelmente não sabedor de que há aquecimento nos países avançados, subiu ao palco de casaco. Ficou esquisito. Em seguida, leu umas frases banais, numa curta alocução em que não disse nem deixou de dizer. Vai ver que deixou de comparecer este ano com receio de ser criticado de novo por decepcionar a audiência.

Doutor Guedes disse hoje que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza. Pontificou que «destroem porque estão com fome». Esse é o senhor –graduado em escolas americanas – que governa nossos dinheiros. Para ele, a degradação do meio ambiente se resume ao deflorestamento da Amazônia. Nada mais.

Nossos dirigentes continuam mal assessorados. A destruição da floresta é apenas um entre muitos fatores que afetam o clima. E não é o mais importante. Se é tão falado atualmente, é porque nosso presidente agitou ao mundo uma bandeirinha vermelha ao mostrar-se favorável ao desmatamento. Aí, caíram matando. Não fosse essa imprudência, ninguém estaria falando em Amazônia.

Entre os dez maiores emissores de CO2 por habitante, não há nenhum país «pobre», pra citar doutor Guedes. São eles, na ordem: Arábia Saudita, Austrália, Canadá, EUA, Coreia do Sul, Taiwan, Rússia, Japão, Alemanha e Polônia. São grandes poluidores porque produzem eletricidade a partir de petróleo ou, pior, a partir de carvão. Se considerarmos somente a emissão total de CO2, sem levar em conta a população do país, a China, os EUA, a Índia, a Rússia, o Japão e a Alemanha aparecem à frente dos outros. Por um lado, têm vasta população; por outro, volta o fator carvão. São eles os grandes vilães do aquecimento do clima.

A zona equatorial africana é muito mais populosa do que a Amazônia. A população é eminentemente pobre. Se pobreza destruísse floresta, a África já teria perdido a cobertura vegetal, o que está longe de ser o caso. O caminho não é esse, doutor Guedes.

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