Meu querido subjuntivo

José Horta Manzano

Tradicionalmente, o modo subjuntivo é exclusividade das línguas latinas. É quase desconhecido em inglês e alemão, idiomas nos quais somente o verbo ser/estar costuma ser expresso nesse modo. E olhe lá, só de vez em quando!

Em nossa língua, sem chegar a ser bicho de sete cabeças, o subjuntivo era um modo que, podendo, se procurava evitar. Mesmo porque, em certos casos, é difícil acertar. Quer ver? «Se ele pôr isso aqui», «quando nós nos vermos de novo», «se ele não fazer assim, vai dar errado», «quando o ministro invervir» são frases que se ouvem dez vezes por dia. Há erro em cada uma. Veja a correção lá no fim.(*)

Apesar do respeito que o modo subjuntivo impõe, tenho notado sua aparição frequente em frases onde antes se usava o infinitivo pessoal, nosso velho conhecido. O Brasil não é um país simples, todo o mundo sabe. Taí um exemplo: o complicado dando um chega pra lá no simples. O que se tem visto, de braçada, são frases iniciadas por «para que», seguidas de um subjuntivo. Veja, aqui abaixo, uma coleção colhida em recentes notícias de jornal.

O órgão fixou prazo de dez dias para que o MEC informe se acatará a recomendação.

O MEC condena “práticas de constrangimento” para que estudantes e professores participem dos atos “contra a vontade”.

Uma ala tem atuado para que a desfiliação de Bolsonaro e de seu grupo aconteça o quanto antes.

Disse que o esforço é para que ele continue a ser um aliado do Palácio do Planalto.

A nossa torcida é para que a gente consiga o mais rápido possível superar essas tensões.

Errado, não está. Mas fica com sotaque. Parece tradução automática, dessas que qualquer um pode pedir ao Google. Por que recorrer ao sofisticado modo subjuntivo quando temos nosso infinitivo tão simples, tão caseiro, tão nosso? E que dá conta do recado! Veja se não fica mais natural substituir subjuntivo por infinitivo. Repito abaixo as frases mencionadas.

O órgão fixou prazo de dez dias para o MEC informar se acatará a recomendação.

O MEC condena “práticas de constrangimento” para estudantes e professores participarem dos atos “contra a vontade”.

Uma ala tem atuado para a desfiliação de Bolsonaro e de seu grupo ocorrer o quanto antes.

Disse que o esforço é para ele continuar a ser um aliado do Palácio do Planalto.

A nossa torcida é para a gente conseguir o mais rápido possível superar essas tensões.

Quando vejo esse tipo de formulação, lembro sempre do ditado alemão: «Warum einfach, wenn es auch kompliziert geht?» – Por que fazer fácil, se complicado também funciona? É sabedoria teutônica.

Se eu tivesse acesso a essas redes sociais de grande alcance, lançava uma campanha de apoio ao infinitivo, algo como #infinitivotambéméserhumano. Não sei se as regras permitem acento. Se não, fica descaracterizado. Ah, melhor deixar pra lá.

(*) Corrigindo
«Se ele puser isso aqui», «quando nós nos virmos de novo», «se ele não fizer assim, vai dar errado», «quando o ministro invervier».

Um pensamento sobre “Meu querido subjuntivo

  1. Pingback: subjuntivo | Caetano de Campos

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