Bolsonaro e a alta-comissária

José Horta Manzano

Nosso presidente fez mais uma das suas. Mais uma vez, lançou mão de expediente que, embora pra lá de batido, nunca falha. Não sei se foi ideia dele mesmo – afinal, o homem não é exatamente uma fonte de ideias luminosas. É possível que ele esteja sendo teleguiado. Seja como for, tem sempre atingido o objetivo.

A alta-comissária da ONU para os direitos humanos denunciou «estreitamento democrático» que, a seus olhos, estaria ocorrendo no Brasil. A acusação é grave, principalmente vindo de quem vem. Não chega ao cargo de alto-comissário quem quer. Michelle Bachelet é médica pediatra com estudos na Alemanha e no Chile. Tem também especialização em saúde pública. Foi ministra da Saúde do Chile e, não bastasse, foi eleita para a Presidência do país. Exerceu dois mandatos de quatro anos.

Doutor Bolsonaro sentiu-se diretamente visado pela fala da alta-comissária. A partir daí, tinha duas opções. A primeira era calar-se e fazer cara de paisagem – as palavras da alta-comissária não teriam ido além de nota de rodapé. A segunda era contra-argumentar defendendo seu estilo de governar e demonstrando que, diferentemente do que imagina a ex-presidente, nossa democracia não padece de estreitamento algum. Desprezando esses dois caminhos, o presidente escolheu uma terceira via. É aí que eu me pergunto se a ideia é dele mesmo ou se lhe foi soprada por algum assessor.

ONU ‒ sede de Genebra

Partiu para o ataque pessoal. Como já tinha feito no episódio Macron e no caso envolvendo o presidente da OAB, comportou-se de modo descortês, baixo, repulsivo, indigno de presidente de país civilizado. Como resultado, um caso que nem potencial tinha pra sair no jornal acabou sendo comentado pela mídia de todo o planeta.

Áulicos aplaudem. Os demais ficam de queixo caído com a insensatez presidencial. E, no estrangeiro, a imagem de nosso país vai sofrendo seu enésimo arranhão. Nossa imagem, sim. Afinal, doutor Bolsonaro não tomou a cadeira presidencial à força – foi eleito pelo povo brasileiro. Se há culpados nessa história, somos nós. Coletivamente.

Agora vem o principal: entre aplausos e vaias, o objeto em discussão sumiu. Ninguém analisa as palavras da alta-comissária. Afinal, a democracia estaria realmente encolhendo no Brasil? Ou é boato? O que é que leva Michelle Bachelet a essa conclusão? Não saberemos jamais. O assunto ficou enterrado pela repercussão da violenta reação de Jair Messias. A reação foi manchete, a denúncia ficou ocultada.

Se ele age assim, não é porque seja um malcriado de raiz. Ele é malcriado, sim, mas esses ataques abaixo da cintura não são feitos por acaso, por ímpeto. Têm o propósito de «afogar o peixe», como dizem os franceses. O objetivo de doutor Bolsonaro é fugir à questão. E funciona. Assim como ele fugiu aos debates quando da campanha presidencial, continua fugindo sempre que o assunto o incomoda. É sua maneira de varrer problemas para debaixo do tapete.

Todos os que ousarem criticar ações dele serão tratados da mesma maneira: bombardeados com artilharia pesada. No entanto, se ele imagina que esse tipo de comportamento impede críticas futuras, está enganado. A meu ver, não as evita. Atiça-as.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

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