Exportando veneno

José Horta Manzano

O acordo agrícola entre o Mercosul e a União Europeia está emperrado há anos. Entra governo, sai governo, e a coisa não anda. De relance, sem analisar a fundo, a gente imagina que o problema seja o corpo mole dos dirigentes do Mercosul, essa gente despreparada. É apenas parte da verdade.

De fato, há certa inabilidade dos governantes mercossulinos, que têm feito mal seu trabalho. Do lado europeu, no entanto, também há resistência. Alguns países travam luta encarniçada contra o acordo. O carro-chefe dos que se opõem é a França, o maior produtor agrícola da UE.

O receio de Paris é vir a perder mercado caso o continente seja invadido por produtos agrícolas brasileiros, mais baratos porque produzidos em grande escala. Outra queixa dos que se opõem a importações do Brasil – queixa esta exprimida por quase todos os países – vem do medo de serem introduzidos no mercado europeu alimentos infectados por pesticidas.

A mídia brasileira informa que, só neste primeiro semestre de 2019, o Ministério da Agricultura já liberou 239 novos pesticidas para uso no Brasil. Duzentos e trinta e nove somente este ano! A imensa lista de produtos inclui artigos já banidos pela União Europeia.

Para um governo que diz estar trabalhando para alargar os horizontes do comércio exterior brasileiro, essa permissividade é verdadeiro gol contra. Desfazem com uma mão o que fizeram com a outra. Esse governo mostra não estar preocupado com as exportações agrícolas. Nem com a saúde dos brasileiros.

4 pensamentos sobre “Exportando veneno

  1. Meu caro José,

    Então a Europa produz sem pesticidas? Os países que exportam não usam defensivos agrícolas? Sem defensivos agrícolas não teríamos atingido o patamar que atingimos na escala produtiva. Pode ser que alguns desses produtos sejam maléficos, mas remédio pode ser veneno também… acho que o governo está no camimho certo. Muiti mais acertos que erros.

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  2. Caro João,

    Outro dia, Mr. Trump ameaçou impor pesadas sanções econômicas ao México caso eles continuassem fechando os olhos à travessia de imigrantes clandestinos em direção aos EUA.

    O governo socialista de señor López Obrador não apreciou nem um pouco a intimidação explícita. Contudo, tendo em vista que a economia mexicana é desesperadamente dependente das exportações em direção ao vizinho, anuiu sem reclamar.

    Ao permitir uso livre no Brasil de agrotóxicos proibidos na Europa, nosso governo está travando eventuais exportações. De quebra, está dando de bandeja argumentos à França & cia para torpedearem acordo comercial com o Mercosul.

    O que eu quis dizer é que o vendedor tem de se conformar aos reclamos do comprador. Liberar, no Brasil, o que já é proibido nos mercados compradores é a melhor receita pra perder a clientela.

    Forte abraço

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  3. Posso estar errado, claro, mas o super-recente acordo entre Mercosul e UE parece que arrefece o peso negativo dos “nossos agrotóxicos”.
    Abraço

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    • Não tenho tanta certeza do arrefecimento, João.

      Artigo do El País de hoje informa que 340 ONGs europeias ligadas a políticas ambientais estão em pé de guerra. O temor é exatamente que alimentos tóxicos provenientes do Brasil comecem a chegar ao continente e que o desflorestamento continue em nosso país. Essa gente, muito barulhenta, é capaz de fazer lobby poderoso. Vão exigir garantias mais sólidas do que a simples promessa de Bolsonaro de manter o país no Acordo de Paris.

      Não nos esqueçamos tampouco que, para entrar em vigor, o acordo ainda tem de ser ratificado pelos 28 membros da UE. Isso periga levar um bom tempo além de dar margem à dança dos toma lá da cá.

      O anúncio do acordo foi bonito, mas ainda é cedo pra festejar. Tenho cá pra mim que a razão pra terem apressado a assinatura tem a ver com a saída de Jean-Claude Juncker da presidência da Comissão Europeia. Seu mandato termina nas próximas semanas. Ele, que já foi primeiro-ministro do Luxemburgo, quis fechar sua passagem pela Comissão com chave de ouro. Quis que a história gravasse seu nome como daquele que concluiu o mais importante acordo comercial do bloco.

      Frau Merkel, que está em fim de mandato, também deu uma forcinha – pelas mesmas razões. Señor Macri, que está em campanha eleitoral, precisava desesperadamente de uma notícia boa. Doutor Bolsonaro, que está em permanente campanha e em baixa nas pesquisas de opinião, aplaudiu com as duas mãos. Quanto a Monsieur Macron, não terá vida tranquila, pois periga ter de enfrentar forte resistência do lobby agrícola.

      Vamos esperar pra ver.

      Forte abraço.

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