Debatendo com criminosos

José Horta Manzano

Há alguns anos, escrevi o artigo Os amigos de meus amigos. Conta o percurso acidentado de doutor José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal de 2005 a 2011. O bem-apessoado homem político coleciona percalços. A universidade que lhe deu o título de engenheiro foi fechada por falhas na pedagogia e também por ‘malfeitos’ éticos e administrativos. Embora os que lá se formaram não tenham culpa direta disso, enfrentam problemas de legitimidade.

Em provável busca de compensação, doutor Sócrates defendeu tese de mestrado num instituto de Paris. Em 2013, após deixar o cargo de primeiro-ministro, lançou um livro sobre a tortura na democracia, baseado na tese que havia defendido na França. Seu ‘ghost writer’ – o professor universitário que realmente escreveu o livro – confessou ao MP português ter sido remunerado com dezenas de milhares de euros para redigir não só o livro, mas também a tese de José Sócrates. O prefácio do livro é assinado por Lula da Silva. Não é proibido especular que o texto tenha sido redigido pelo mesmo escritor-fantasma que cuidou do livro.

Embora não esteja comprovado, diz-se, à boca pequena, que 98% dos exemplares da primeira edição do livro teriam sido comprados pelo próprio autor, com verbas desviadas de estatais. A manobra teria garantido sucesso editorial e imediata impressão da segunda edição. A história, se não for verdadeira, é bem bolada.

Pouco depois do lançamento do livro, doutor José Sócrates foi preso preventivamente. Não por ter escrito o livro, mas por ser alvo da Operação Marquês, processo complexo ainda em fase de instrução. De lá pra cá, já deixou a cadeia, mas está de tornozeleira, à disposição da Justiça. Sócrates é acusado por 31 crimes e delitos de corrupção e malversações diversas de dinheiro do contribuinte português. Por enquanto, ainda que tudo o acuse, a presunção de inocência impede que se lhe aplique etiqueta de culpado.

Semana passada doutor Sergio Moro, nosso ministro da Justiça, esteve em Portugal. Quando de uma entrevista, respondendo à pergunta de um repórter, citou a Operação Marquês – aquela em que José Sócrates é acusado – como exemplo das dificuldades de avançar da Operação Lava a Jato. Incomodado com a menção da operação em que é visado, o ex-primeiro-ministro tratou Moro de «ativista político disfarçado de juiz». Futriqueiros, os jornalistas correram levar o xingamento ao ministro Moro só pra ver a reação. Moro então perdeu as estribeiras e disse com todas as letras: «Eu não debato com criminosos pela televisão. Então, não vou fazer mais comentários.»

O prefaciador e o escritor, ambos enrolados com a Justiça.
O primeiro, condenado e preso; o segundo, de tornozeleira

Nosso ministro, de costume tão sossegado e comedido, devia estar num mau dia. Escorregou feio. Esquecido de que é ministro da Justiça do Brasil, desceu a lenha no réu de um processo em terra estrangeira e, mais que tudo, tratou Sócrates de «criminoso», passando por cima do fato de ele ainda não ter sido condenado. É imperdoável, principalmente na boca de um ex-juiz. Pegou muito mal. O revide do ex-primeiro-ministro veio rápido. Numa entrevista na televisão, pontificou: «Moro só é ministro por ter metido o Lula na cadeia».

Quem diz o que quer ouve o que não quer. Bem feito!

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s